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Atlas: de robô a investigação da PF da maior pirâmide de cripto do Brasil

Mauricio Conti, conta detalhes do caso Atlas Quantum.

Já ouviu falar em pirâmide de cripto? O termo carrega um vulto escuro que assombra alguns investidores de criptomoedas no Brasil e no mundo. E não por menos. As fraudes ainda acontecem em grande escala no Brasil. E quando se fala em investimentos, isso é ainda mais delicado, pois envolve capital acumulado por anos e o sonho de muitas pessoas. O caso Atlas Quantum parece ser um bom exemplo de pirâmide.

Após construir sua então forte reputação com ações massivas de marketing, a Atlas Quantum apostou em propaganda de TV, como a Rede Globo, e influenciadores digitais para conquistar novos investidores. A empresa se propunha ser referência no mercado de investimentos em criptomoedas, inclusive tinha em seu sistema um suposto robô responsável pelo serviço de arbitragem de Bitcoin. E como não poderia ser diferente num caso como esse, a Atlas Quantum prometia muitos lucros aos seus clientes.

Um dia, como sempre acontece, a pirâmide começou a desmanchar. Eu explico!

A Comissão de Valores Mobiliários (CVM), responsável por regulamentar a oferta de títulos financeiros, afirmou que a empresa negociava contratos de investimento coletivo. Porém, sem autorização. O passo seguinte, depois de conquistar quase 15 mil bitcoins que a empresa dizia ter, mas nunca provou, e alguns milhões de dólares, foi impedir que os clientes fizessem saques dos seus respectivos investimentos da plataforma.

Para simplificar o caso, as promessas de rendimento eram tamanhas – na casa de 5% ao mês – que chamaram a atenção da CVM. Foi então que, em 13 de agosto de 2019, a autarquia determinou o stop order (parada de pedidos) da Atlas Quantum. Assim, a empresa protagonizou, naquele ano, o maior escândalo já visto no mercado brasileiro de criptomoedas. Até hoje os clientes tentam reaver seus investimentos, embora sem sucesso. E esse foi o maior ponto em questão.

Como a Atlas Quantum conseguiu criar a pirâmide?

Em períodos de atuação normal, quando um cliente/investidor solicitava um saque na plataforma da empresa, o atendimento acontecia em 2 dias após a solicitação. O alerta foi ligado quando os clientes que solicitaram os saques, não tiveram suas solicitações atendidas.

Apesar de agressiva, a pergunta não é muito complexa, não. Com alto investimento em marketing, a Atlas divulgava, inclusive, que passava constantemente por auditorias da Grant Thornton. Ou seja, criou-se um falso ambiente seguro que envolvia completamente o investidor, a ponto de ele acreditar que uma auditoria serviria como garantia de reputação da empresa e das operações.

Quando os saques foram bloqueados para os investidores, a empresa chegou a acusar exchanges internacionais. A Atlas Quantum informava que suas criptomoedas tinham sido bloqueadas pelas exchanges, o que também logo foi desmentido pela Gate.io e HitBTC. A empresa chegou a emitir comunicado oficial sobre o assunto, mas até hoje os investidores continuam sem conseguir acessar seus investimentos.

Mais um fato que corrobora a pirâmide de cripto, de acordo com um grupo de investidores que estão processando a empresa, é que o famoso robô de arbitragem nunca existiu. De acordo com um dos investidores enganados, Evandro Carlos Teruel, que conversou com este colunista, os clientes da Atlas Quantum depositavam bitcoins ou reais. Outra opção era comprar bitcoins das empresas envolvidas no golpe, para realizarem operações de compra e venda em corretoras internacionais. Assim, lucrariam com a volatilidade da moeda e pagariam um percentual de lucro que haviam declarado aos clientes.

Pirâmide de bitcoin: um caso de polícia

Fundada em 2016, a Atlas Quantum tinha Rodrigo Marques dos Santos como CEO da empresa, que se propunha a ser a maior referência em negociação de criptomoedas. Aliás, ele desapareceu desde que o escândalo se tornou público. Segundo informações dos envolvidos diretamente no caso, até o momento, ele não respondeu a quaisquer solicitações da CVM ou dos advogados dos clientes lesados pela empresa.

A Atlas Quantum virou caso de polícia quando a empresa, de repente, interrompeu os saques da plataforma e o esquema de pirâmide de bitcoin veio à tona. O advogado Artêmio Picanço representa centenas de pessoas que processam a Atlas Quantum. De acordo com ele, ainda em 2019, a Atlas Quantum foi o caso de pirâmide financeira mais sofisticado do Brasil, por se tratar de uma pirâmide de cripto.

Teruel, um dos investidores enganados, conseguiu reunir um grupo de 508 pessoas que sofreram o mesmo dano. Segundo ele, as investigações começaram com a apresentação de denúncia no Ministério Público Estadual. Como era de se esperar, o caso foi enviado para o Ministério Público Federal e por consequência, já tem a Polícia Federal à frente do caso novamente, bem como um delegado de crimes digitais (A PF, em 2021, concluiu que a Atlas Quantum não tinha prejudicado os investidores, que não tinha comprovado terem tido prejuízo).

Após a instauração do inquérito em questão, muitos outros investidores lesados passaram a apresentar notícia crime relatando os mesmos fatos. “O Ministério Público Federal exigiu que a Polícia Federal colocasse um delegado especialista no assunto e identificasse as vítimas. Conseguimos coletar informações de mais ou menos 20 funcionários da Altas, como revelações muito importantes, inclusive a de que o robô de arbitragem nunca existiu”, diz ele.

Atlas tenta revidar com processo contra CVM

“Trata-se de um golpe de aproximadamente R$ 3 bilhões, valor referente aos bitcoins, e outros US$ 2 milhões, que afetaram cerca de 40 mil pessoas de cerca de 50 países, aplicado pelo CEO do grupo de empresas Atlas Quantum, Rodrigo Marques dos Santos”, explica Teruel.

De acordo com o inquérito, várias empresas atuavam em parceria com a Atlas Quantum, embora, ainda em 2019, todas tivessem sido absorvidas pelo grupo. A CVM passou a alertar o mercado que tais empresas, além de Santos, “não se encontram habilitadas a ofertar publicamente títulos ou contratos de investimento coletivo cuja remuneração estaria atrelada à compra e venda automatizada de criptoativos por meio de arbitragem”. A CVM citou a definição constante do inciso IX do art. 2º da Lei n. 6385, de 7 de dezembro de 1976, tendo em vista tratar-se de oferta pública sem registro (ou dispensa deste) na autarquia.

Apesar de todas as evidências de pirâmide, a Atlas Quantum protocolou, ainda em 2019, uma petição inicial na Justiça Federal da 3ª Região pedindo o ressarcimento de R$ 3,167 bilhões à CVM pela suspensão do negócio. Advogados consultados pelo Blocknews afirmaram que o caso é “interessante”, mas que a empresa precisa provar que teve esse dano bilionário.

Segundo o investidor Teruel, nunca houve o Bot (robô de arbitragem) chamado Quantum. Por meio do inquérito, sabe-se que o CEO da empresa, Rodrigo Marques dos Santos, tentou, sim, construir um robô contratando profissionais altamente gabaritados do mercado. No entanto, quando falhou, tentou adquirir um robô de empresas e profissionais de mercado, primeiro adquirindo a Anúbis Trade e seu robô de trade. Em seguida, adquiriu o robô Arbitror, dos profissionais Túlio Santigo e Raphael Lorenzeto de Abreu.

Um robô chamado Quantum

Todas estas tentativas ocorreram para dar sustentação à narrativa da existência de um robô de arbitragem eficiente que justificasse os rendimentos pagos pela empresa. Na verdade, os rendimentos eram parte de uma pirâmide financeira, ou uma pirâmide de cripto da Atlas Quantum.

“Percebe-se nas narrativas dos ex-diretores e funcionários que havia a intenção de construir um robô de arbitragem eficiente. Mas, o robô que foi construído com ajuda de profissionais como Matheus Darós Pagani dava resultados infinitamente menores dos que os percentuais pagos e muitas vezes dava prejuízo”, explicou Teruel. (Nota do Blocknews: Matheus Darós Pagani afirmou ao Blocknews que cuidou do robô até fevereiro de 2018 e que até essa data, os ganhos eram inferiores aos comunicados pela empresa após sua saída dessa operação. Pagani disse que foi transferido para uma área da empresa envolvida em projetos com tecnologias da Web3.)

De acordo com o inquérito, a matemática da Atlas foi simples. A empresa mentia ao divulgar resultados e pagava rendimentos bem superiores aos que poderia conseguir um robô de arbitragem real. Assim, o número de clientes foi aumentando e o dinheiro captado no mercado fluía de forma estrondosa. Dessa forma, possibilitava gastos sem controle e confusão entre a pessoa física do CEO e sua pessoa jurídica. A partir das oitivas e da investigação realizada pela comunidade de clientes, suspeita-se que diversos diretores da Atlas Quantum sabiam da fraude

“Do outro lado, a manutenção da farsa era feita pelo próprio CEO Rodrigo Marques dos Santos. Ele tinha sala resguardada na empresa, cujo acesso só acontecia por sistema biométrico. Tudo está nas mãos da justiça brasileira e nós continuamos aguardando pelo melhor desfecho para este caso”, concluiu Teruel.

*Mauricio Conti é: Engenheiro de Computação, founder do Simples ID, CPO wconnect, mentor e influenciador digital nas áreas web3, blockchain, tokenização e NFT.

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3 comentários em “Atlas: de robô a investigação da PF da maior pirâmide de cripto do Brasil”

  1. Não da pra entender como o maior golpe de criptomoedas do Brasil nunca foi destaque na mídia. A Globo e os atores que divulgaram esta fraude, tinham a obrigação de ajudar as vítimas e denunciar este roubo que lesou milhares de pessoas. Como pode o bandido Rodrigo Marques dos Santos está solto? Espero que alguém o encontre e dê o que um bandido merece.

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