Claudia Mancini
é jornalista e cientista política, especializada em negócios, blockchain e economia digital

Brasil é segundo país com mais fintechs fundadas por mulheres. Mas, são apenas 16

Elas ainda são uma gritante e inquietante minoria no mundo dos negócios, principalmente se o negócio é em finanças. Para se ter uma ideia, o Brasil é o segundo país no mundo com mais fintechs fundadas por mulheres. Mas, são apenas 16 entre quase 1,5 mil. O primeiro no ranking são os Estados Unidos (EUA), com 26. Quanto ao perfil dos fundos que investem em fintechs, o cenário se repete: homens brancos controlam 93% dos dólares de capital de risco.

O levantamento está no novo relatório da Findexable, Fintech Diversity Radar. Na média, as mulheres fundaram só 1,5% das fintechs, de acordo com o estudo. Aqui, há apenas uma fintech em fundada exclusivamente por mulheres: a BCredi, de Maria Teresa Fornea, comprada pela Creditas em janeiro, segundo matéria do Fintechs Brasil, site de notícia parceiro do Blocknews.

Segundo o relatório, embora os números mostrem essa dura realidade, o lado bom é que fora da Europa e EUA, os esforços por inclusão financeira vem acompanhados de mais mulheres no comando.

Apenas 16 das 1,5 mil fintechs no Brasil têm mulheres como fundadoras. Tabela: Fintech Diversity Radar.

Mulheres também são minoria nos conselhos

Das 1 mil fintechs de melhor desempenho no índice FDR1000, apenas 16 são iniciativas exclusivas de mulheres. Portanto, 911 foram fundados por homens. Além disso, são apenas 68 CEOs do sexo feminino no total. E para cada mulher no conselho há, em média, nove homens.

Se olharmos para a composição das equipes fundadoras, executivos ou conselhos de administração, mulheres em cargos de nível sênior são notáveis por sua ausência. Portanto, o número em cargos de desenvolvimento estratégico, de negócios ou tecnologia é incrivelmente pequeno.

Quando estão presentes, tendem a estar nas áreas de recursos humanos e funções de marketing. O número em cargos de desenvolvimento estratégico, de negócios ou tecnologia é incrivelmente pequeno.

Foram entrevistadas 16 mulheres em fintechs, entre elas Deborah Abi-Saber líder global de diversidade, inclusão e suporte a pessoas do Nubank. A pesquisa foi realizada em 1032 fintechs de 62 países.

ConsenSys e conselho de mulheres negras em blockchain treinarão 500 mil

A ConsenSys, de soluções em blockchain, e o Black Women in Blockchain Council (BWBC), vão lançar, em 2022, um programa global para treinar 500 mil mulheres negras em blockchain. O objetivo é reduzir a clara falta de mulheres negras que criam códigos no ecossistema. A meta é para até 2030.

“A demanda para desenvolvedores em blockchain está crescendo com a normalização das criptomoedas. Estamos nos dedicando a posicionar as mulheres negras para atuar nessa nova onda. E assim, causar um efeito cascata de nova geração de riqueza nas famílias e comunidades”, disse Olayinka Odeniran, fundadora do BWBC.

De acordo com as instituições, em 2018, apenas 105 mil de 18 milhões de desenvolvedores de software focaram no desenvolvimento de blockchain. E desses, menos de 1% era da diáspora africana. E muito menos ainda são mulheres.

Para participar, as mulheres precisam se inscrever no link https://bwbc.io/blockchain/. Há uma taxa de inscrição de US$ 25 (cerca de R$ 125). Na primeira fase, os materiais serão apenas em inglês.

Em 2021, os usuários globai de critomopeda ultrapassam a marca de  100 milhões e os que estão na África ou são descendentes de afrianos também cresce rapidamente. Porém, apenas uma pequena fração de negros cria códigos e aplicativos para o sistema, de acordo com a Consensys e a BWBC.

“A diversidade precisa fazer parte do DNA desses sistemas para que realmente representem a sociedade global”, disse Scott Olson, director de integrações, parcerias e educação da ConsenSys.

Corrente de Mulheres: “Cultura descentralizada será tão real quanto as mídias sociais”

“As empresas precisam mudar o paradigma de cultura centralizada para a descentralizada, se quiserem acompanhar uma mudança tecnológica que em pouco tempo será tão real quando as redes sociais no dia-a-dia das pessoas.”

Seguindo o elo da Corrente de Mulheres, depois de ter falado mais sobre o meu trabalho com na Moeda Semente para a Dari Santos, do Instituto Alinha, foi a minha vez de ouvir e conhecer mais sobre o trabalho de outra especialista em blockchain. Uma tecnologia que veio para ficar e transformar a atuação de governos e iniciativas privadas em diferentes âmbitos.

Marcela Gonçalves, autora da frase que destaquei acima, é diretora de Desenvolvimento da Multiledgers, empresa que foca em infraestrutura em blockchain. É engenheira de Controle e Automação de formação, com MBA em Inteligência Competitiva.

Seus mais de 17 anos de experiência na liderança de projetos em inovação, desenvolvimento de softwares e planejamento de Negócios nas áreas Industrial, de Gestão e TI acabaram levando-a para o caminho de ajudar projetos a se estruturarem já a partir da tecnologia blockchain.

E foi por isso que escolhi conversar com ela para contribuir com essa corrente sobre mulheres em blockchain. Marcela falou muito sobre como o blockchain é a tecnologia da informação e como, ao observar a velocidade da resposta cada vez mais rápida das pessoas a novas tecnologias, as empresas, indústrias e governos já estão atrasadas em se adaptar a isso.

De acordo com ela, em um curto espaço de tempo veremos o blockchain como realidade no dia a dia das pessoas, tal qual vemos hoje as redes sociais e todas as outras formas digitais de comunicação. Algo que há cerca de 10 anos parecia ainda muito distante de acontecer. Abaixo, nossa conversa.

“Tenho o papel de transformar pensamentos”

TR: Marcela, o que despertou em você o estudo e trabalho em blockchain? Pode contar também um pouco da sua atuação nessa área hoje?

MG: Esse despertar aconteceu quando entendi que o blockchain é uma forma de compartilhar e circular informações entre diversos atores, mantendo sua proteção e sigilo. Isso faz com que automaticamente essa seja uma ferramenta descentralizadora, tornando as relações entre pessoas, empresas, indústria e governos muito mais transparentes e confiáveis.

TR: Pode contar também um pouco da sua atuação nessa área hoje?

MG: A minha atuação foi se transformando nesses 17 anos e hoje meu foco está na construção do aprendizado. Entendi que tenho o papel de uma transformadora do pensamento, uma vez que pensar um modelo de negócio em blockchain é diferente de pensar um modelo de negócio centralizado.

Esse processo culminou na construção de ferramentas para ajudar negócios a entender como podem construir esse novo modelo, inclusive com um Canvas (ferramenta colaborativa para inovação de modelos de negócios, que pode ser utilizada na criação de uma nova empresa ou de reorganização de empresas já estabelecidas) de ecossistemas para aplicação em blockchain.

Tenho aplicado bastante essa metodologia nos projetos mentorados no LiftLab (projeto de inovação financeira do Banco Central do qual a Multiledgers é parceira). Um fator muito importante em que os projetos ainda estão engatinhando é que quando falamos em blockchain, precisamos falar das suas estruturas de governança nas empresas. Isso também é um foco do meu trabalho com os projetos.

“Blockchain não se resume a criptomoedas”

TR: Para muitas pessoas, blockchain se resume a criptomoedas. Ainda que importante no processo de economia tokenizada, a solução vai muito além. Pode explicar?

MG: O blockchain é a tecnologia por trás das criptomoedas, mas de fato, não se resume a isso. O blockchain nada mais é do que a convergência de tecnologias que já existiam, entre elas a computação distribuída (pier2pier); o consenso e a criptografia assimétrica. Ou seja, é uma nova forma de gestão da confiança para que as pessoas possam voltar a acreditar na veracidade das informações compartilhadas.

Blockchain é rede, é tecnologia da informação com segurança, eficiência, rastreabilidade, transparência e auditabilidade, portanto é aplicável em qualquer tipo de transação que envolva a necessidade de compartilhar informação entre parceiros que precisam garantir um ambiente sem disputa.

Para exemplificar de forma prática, cartórios podem usar para registrar as informações sobre um imóvel, sobre pessoas físicas de forma a evitar fraude. As indústrias podem usar para oferecer transparência para seus clientes sobre seus insumos. O consumidor pode acompanhar todas as informações do produto que comprou desde a fabricação da obra-prima até a chegada do produto na prateleira, sabendo inclusive sobre a relação das empresas com a mão de obra envolvida nesse processo.

“Empresas têm que mudar o paradigma”

TR: Na sua visão, o que falta para o mercado fazer a virada de chave e adotar blockchain como hoje faz com as redes sociais e internet, por exemplo? O que levaria todas as empresas a terem seu diretor de blockchain e pensar sobre isso estruturalmente?

MG: Tem que pensar em um modelo de negócio descentralizado. As empresas precisam mudar o paradigma de cultura centralizada para a descentralizada se quiserem acompanhar uma mudança tecnológica que em pouco tempo será tão real quando as redes sociais no dia-a-dia das pessoas.

É uma mudança significativa de paradigma porque a empresa tem que pensar em não ter a posse de dados como tem hoje. E hoje as empresas mais valiosas são os grandes conglomerados de dados como Google e Facebook. É necessário compartilhar,e não estou falando em revelar, os dados.

Se observarmos, o blockchain traz possibilidade de criação de ambiente de compartilhamento para as empresas que já tiveram as tentativas de construção com ERP (planejamento de recursos empresariais) e com o SOA (service-oriented-architecture). Mas mesmo sendo transversais, esses sistemas sempre eram centralizados, sempre tinha o dono dos dados.

Essa mudança de paradigma começa aí, no entendimento da necessidade de entender quais dados compartilhar. Quando a gente começa e tem o movimento por esse novo ambiente econômico, as empresas passam a ser obrigadas a navegar nesse mar. Porém, ainda não estão enxergando essa necessidade.

Elas ainda estão olhando para a transformação digital, que ainda nem contempla blockchain. Não contempla uma tokenização em cima de seus ativos, nem modelos de negócios tokenizados. Elas ainda estão nessa inserção da indústria 4.0, de um ambiente omnichanel.

Governança, modelo de negócios governança

TR: Mas quais fatores você acha que deixariam as empresas mais confortáveis para essa mudança?

MG: Acho que estamos na construção desse caminho. Mas identifico três fatores que acelerariam a maturação desse processo. Primeiro, a regulação, porque a especulação ainda é muito grande e deixa o token volátil demais. No entanto, as DeFis (finanças descentralizadas) vão exercer um importante papel, principalmente, junto ao regulador.

Em segundo lugar, uma mudança de modelo de negócio, do mindset centralizado para descentralizados. As empresas não querem perder o que já está consolidado.

Acho que grandes empresas podem construir um spin off delas mesmas. Com a possibilidade de serem um laboratório para transitar nesse novo mundo e trazer informações para o ambiente tradicional, que vai mudar ao longo do o tempo, deixando-as preparadas.

E tem a questão de estrutura de governança e interoperabilidade. A tecnologia ainda não está madura. Os protocolos são caros e há questões como respostas lentas. Cada modelo de negócio pode trazer necessidades diferentes do mundo da tecnologia.

Hoje já existem protocolos diferentes, mas podem surgir outros que vão melhorar essa experiência. Temos discutido muito no ITU (União Internacional de Telecomunicações da ONU) a maturidade da tecnologia propriamente dita. Precisa estabelecer melhor comunicação entre os protocolos para melhorar a interoperabilidade. Mas também estrutura um modelo de governança como hoje já temos para internet.

Liftlab e sandbox: sem medo do regulador

TR: E qual a sua percepção sobre o sistema regulatório no Brasil?

MG: Acho que ainda não é muito aberto para inovação financeira. O que tem ajudado são esses ambientes como o LiftLab, onde você propõe uma nova finalidade para o sistema financeiro e tem acompanhamento com o próprio regulador.

Estar próximo do regulador sem ter medo dele, estruturar o negócio com o próprio regulador olhando e entendendo que aquela inovação precisa de uma atualização de instrução, é muito positivo.

Mas, no geral os reguladores estão começando a entender essa necessidade. Acho que o sandbox da CVM (Comissão de Valores Mobiliários) e o da Susep (Superintendência de Seguros Privados) permitem essa evolução.

O Lift mesmo é um pequeno laboratório em que são propostas novas formas de interações. Um projeto bem arrojado, pois são três meses com sabatinas de entregáveis a cada 15 dias e relatórios todos os meses. O sandbox do Banco Central busca acompanhar esses avanços.

CBDCs trarão maturidade em criptomoedas

TR: Falando em criptomoedas, a volatilidade está sendo destacada pela mídia tradicional. Você acha isso uma ameaça para a expansão dos criptoativos? 

MG: Vamos dizer que o ambiente de bolsa de valores também pode ser volátil, não é? Tivemos o caso do fundo ter apostado na baixa das ações da GameStop. As pessoas se juntaram no Reddit e fizeram as ações alavancarem, causando perda a investidores tradicionais, por exemplo.

Mas, tivemos a manipulação do Elon Musk (fundador da Tesla) de acordo com ele querer vender ou comprar, os NFTs que fizeram o Ethereum dar um boom este ano, o DeFi que era a bola da vez ano passado… mas tudo isso é porque o mercado ainda está amadurecendo.

Acho que veremos uma maturidade maior a partir das CBDCs (moedas digitais de bancos centrais). Você vai ter um ativo que já nasce digital, tendo essa correlação com as moedas. E mesmo que questionem por ser do Banco Central de um país, vai permitir a integração entre os diversos tipos de moedas, como as de protocolos, moedas estáveis e as sociais. As CBDCs terão uma certa auditoria que vai trazer uma segurança um pouco maior em alguns casos.

TR: Isso facilita o open banking, também, e a tokenização veio para ficar…

MG: Exato. Eu acho que esse é o principal legado da construção da tecnologia. Daqui a 10 anos, o blockchain, ou DLT (Distributed Ledger Tecnology) vai ser uma realidade tão comum como são hoje as interações pela internet e redes sociais. A gente também não sabia muito bem o que ia acontecer com a internet há 20 anos. O mais legal é justamente não sabermos até onde a tecnologia vai chegar.

Mulheres em blockchain

TR: Por fim, gostaria que mandasse uma mensagem sobre blockchain, que pode ser um convite para as mulheres que já trabalham e estudam tecnologia ou para aquelas que pretendem. Por que precisamos cada vez mais da liderança feminina nessa área?

MG: Eu vim da engenharia. A maioria dos meus ambientes de trabalho foram muito masculinos. Existe uma naturalização das questões de você ser mulher nesse ambiente masculinizado e a sua construção profissional acaba sendo mais masculina. Você acaba naturalizando coisas que demorei muito tempo a entender.

‘Você é tão boa programadora quanto um homem’ era algo que ouvia muito e achava normal porque não tinha referência. Só recentemente comecei a entender o problema disso. O primeiro conselho é: busquem mulheres para serem suas referências. Hoje temos muito mais acessos a grupos de estudos, coletivos, comunidades que acolhem mulheres e ajudam na nossa construção nesse ambiente de tecnologia, inclusive blockchain.

No entanto, tem dois aspectos que considero importantes para quem for atuar nessa área. Precisa estudar muito sobre desenvolvimento de sistemas distribuídos para chegar com base e começar a entender e trabalhar melhor em cima da tecnologia blockchain.

E é fundamental conhecer sobre negócios, que é entrar mesmo para estudar toda a construção que vem acontecendo na transformação digital como um todo. Isso inclui entender as necessidades tecnológicas, o que precisa trabalhar esse novo ambientes de colaboração, descentralização e distribuição de informação e o lado financeiro. Ainda há muito ganho para vir dessas novas relações financeiras proporcionadas pelos ativos digitais.

Esse movimento da Corrente de Mulheres é super importante para que possamos dar espaço para que outras mulheres possam falar um pouco mais, ter mais visibilidade nessa em tecnologia e blockchain. E eu falo em qualquer lugar onde eu esteja que a gente precisa dar apoio às mulheres.

Corrente de Mulheres: “Quem entra em blockchain vê que tem uma vasta carreira para seguir na área”

Seguindo a corrente para apresentar mulheres em blockchain que estão transformando suas realidades, hoje eu, Dari Santos, co-fundadora e presidente do Instituto Alinha, entrevisto Taynaah Reis, fundadora e CEO do Moeda Seeds.

Logo no início da nossa conversa, Taynaah recorda que nos conhecemos em um evento no Rio de Janeiro, há algum tempo atrás. Na época, a Moeda estava iniciando uma parceria com a marca Catarina Mina, pioneira na transparência e abertura de custos dos produtos para os consumidores.

As artesãs que trabalham na cadeia de produção da marca recebem a remuneração por peça produzida, além de uma comissão quando a peça é vendida.

Para garantir confiabilidade dessas transações, o projeto implementou o Moeda Seeds como meio de pagamento, com as transações atestadas em blockchain. Assim, garantem às artesãs acesso à informação, auxílio na gestão das finanças, além de possibilitar o acesso ao microcrédito. 

Ao recordar desse projeto, ficou claro que a ligação com a Taynaah vai além do fato de sermos mulheres jovens empreendendo na tecnologia, mais especificamente no blockchain.

Compartilhamos o mesmo anseio de justiça social e inclusão, principalmente de mulheres que se encontram, muitas vezes, em situação de vulnerabilidade.

Tenho certeza que esse bate papo pode inspirar muitas outras empreendedoras e empreendedores a pensar nos seus negócios para além da viabilidade econômica. Mas, incluir nas suas missões impactos socioambientais positivos.

É importante ter claro que projetos que foquem em impactos positivos não são apenas assistencialistas e filantrópicos. Há um outro campo com foco em inovação, tecnologia e, claro, sustentabilidade financeira.

Felizmente, ao conhecer Taynaah e tantos outros amigos desse ecossistema, concluo que projetos inovadores, como o da nossa entrevistada, aos poucos, vão se tornando mais numerosos.  Segue a conversa com a Taynaah:

Moeda Seeds tem oito empresas

DS: Em poucas palavras, como você descreve a solução da Moeda 

TR: Ao todo são oito empresas que juntas visam solucionar problemas complexos que não conseguiríamos resolver sem a educação, comercialização e acesso a crédito. A fintech é a principal base para dar a sustentabilidade, para dar acesso ao crédito acessível. Já a aceleradora, para dar o apoio e suporte a soluções, para tirar as ideias do papel. Enquanto a parte de comercialização, que também é integrada, para ajudar de forma completa, principalmente as mulheres, a conseguirem a independência.

Temos foco rural justamente por entender que as outras fintechs estão concentradas na área urbana. O portfólio de projetos inclui mulheres, agricultores e artesãos. Atualmente, também disponibilizamos a plataforma para artistas independentes. São várias soluções e linhas de crédito. Vamos criando produtos de acordo com as necessidades que vamos encontrando.

DS: Qual é o papel do blockchain para aumentar o impacto gerado na solução?

TR: A maioria dos investidores da Moeda são chineses, então, a tecnologia traz essa confiança. Transfere para a tecnologia essa confiabilidade. O blockchain garante a verificação, o poder da transparência e confiança no projeto. Para um investidor que está na China, por exemplo, é fundamental mostrar que é possível ter um retorno econômico e também de impacto positivo, que pode ser trazido para o negócio.

Com a base de dados que o blockchain gera, é possível pensar nas métricas de impactos, produzir relatórios, pegadas de carbono, informações que hoje são fundamentais para os investidores. Sem contar que a base de dados também possibilita aprimorarmos as soluções, compartilhar as informações com universidades, além de servir para estudar como ampliar o impacto da solução.

DS: Como é ser uma empreendedora jovem no mundo tech?

TR: Tem que ter muita coragem e persistência para poder enfrentar, principalmente, a parte financeira. Vir com a ideia de tokenizar uma floresta de açaí e o próprio blockchain são desafiadores, porque enfrentamos um mindset muito tradicional. Como falar que dá para fazer diferente, que dá para mudar a forma de fazer.

Muitos achavam que era apenas filantropia, que não seria possível ver um retorno. O blockchain permitiu lançar um ICO (oferta inicial de moeda) para financiar a solução, abriu portas para concretizar o projeto, porque sem a tecnologia, não teria chegado até aqui.

É um mundo ainda muito machista, sem abertura para as mulheres. É agora que os fundos estão começando a pensar e puxar iniciativas que incentivam a igualdade de gênero.

Fui muito mais reconhecida fora do país do que aqui. Quando voltei para o Brasil, depois de ter morado fora, vi que falta muito a valorização do mercado brasileiro, de quem está aqui. Lá fora, se você quebrou uma empresa, você aprendeu, aqui, não existe essa percepção sobre o erro.

“Blockchain é uma revolução da confiança”

DS: Para você, qual é a verdadeira revolução promovida pelo blockchain? 

TR: Eu acredito que é a revolução da confiança. Fazer empréstimos entre pessoas, financiar projetos de forma democrática, ter acesso a investimentos, poder comprar parte dos direitos autorais do artista que você admira.

A transparência traz consciência tanto para o investidor, quanto para o consumidor. Ter toda a rastreabilidade que o blockchain proporciona nas cadeias da moda, do café, é uma forma de fazer revolução estando mais presente e mais informado, coisas que o blockchain pode auxiliar. Há também a revolução de poder tokenizar algumas indústrias, o que as deixam mais acessíveis.

DS: O que você acha que falta para o blockchain deslanchar no Brasil? 

TR: Acredito que informação e educação é o que falta. No início, o primeiro contato com o blockchain foi através do bitcoin. Por ter muito a parte especulativa, muita gente acabou já se afastando da tecnologia.

A partir desse momento temos um trabalho para mostrar que blockchain não é só criptomoeda. Foi quando grandes instituições começaram a implementar soluções com blockchain que vimos o aumento da confiança na tecnologia.

Pandemia foi um incentivo no ecossistema

DS: Você acredita que a pandemia atrasa ou impulsiona esse processo? 

TR: A pandemia passou a ser um incentivo para iniciar reserva de valor em criptomoedas, bitcoin, por exemplo,  demonstrou uma valorização muito maior que o real.

Outro caminho que foi impulsionado durante a pandemia, foi a criação de uma plataforma NFT de música, a primeira do Brasil, como forma de gerar renda para os artistas independentes que foram extremamente afetados pela pandemia. Muita coisa virando token para permitir serem trocadas.

Acredito que outro fator que impulsionou a confiança, foi a entrada dos grandes players, por exemplo, o caso de Elon Musk (CEO e fundador da Tesla) comprar US$ 1,5 bilhão em bitcoin. Isso faz com que as pessoas passem a confiar também.

DS: O que você diria para quem está começando agora a explorar o mundo do blockchain?

TR: Ainda há muitos protocolos para estudar, tem muito campo para trabalhar em blockchain, seja saúde, seja rastreabilidade de cadeias de produção. Quem entra para esse meio se encanta, e quem entra, vê que tem ainda uma vasta carreira para seguir nessa área. A tokenização veio para ficar!

A transformação vem muito de estar aberto a experimentar, temos muitos caminhos pela frente, no Brasil temos tanta riqueza e tanta diversidade. E temos muita oportunidade de financiar pesquisa com bitcoin e construir inúmeras possibilidades que o blockchain traz para diversas carreiras.