Claudia Mancini
é jornalista e cientista política, especializada em negócios, blockchain e economia digital

88i testou blockchain e prevê volta definitiva à tecnologia em 2022-2023

Fernando Moreira, CEO (à esq.) e Rodrigo Ventura, fundador da seguradora (à dir.)

Às vezes, é preciso dar um passo para trás para dar dois para frente. É assim que a seguradora 88i explica seus testes com blockchain e a suspensão do uso da tecnologia para voltar aos blocos em 2022 ou 2023.

Rodrigo Ventura, fundador da 88i, disse ao Blocknews que desde o início blockchain está nos planos da empresa. E por esse mesmo motivo é que Fernando Moreira, antes investidor e agora CEO, colocou recursos nela quando a ideia começou a sair do papel, ou dos testes, em 2018.

Os dois se conheceram em 2006, quando trabalhavam na China. Ventura trabalhava numa fornecedora de ERP (Enterprise Resource Planning) No país asiático, viu surgir as fintechs, pagamentos com QR Code e a convergência de ecossistemas, como de entregas e comércio, em “super aplicativos”. Já Moreira era o responsável global por seguros no HSBC.

De acordo com Moreira, o motivo da suspensão do uso de blockchain é que era preciso escalar mais rápido. Além disso, a falta de mão-de-obra emperrou o processo com os blocos.

Hoje, a empresa desenvolve soluções em seguros para aparelhos eletrônicos portáteis como notebooks e celulares. Além disso, tem cobertura para acidentes pessoais, entregas e impedimento ao trabalho.

88i se descreve com just in time

Os executivos descrevem a 88i, que está no sandbox da Superintendência de Seguros Privados (Susep), como uma seguradora “just in time”. Isso significa que todo o processo, que nasce e acaba digital, pode ser embutido na compra que uma pessoa faz e é acionado e desligado automaticamente.

A empresa quer concentrar as vendas de seus seguros por meio de plataformas dos parceiros. Um exemplo do que seria possível é o cliente contratar uma corrida de táxi por aplicativo e acionar o seguro da corrida.

Assim, o contrato começa e termina quando a 88i recebe as informações da empresa por API e do celular do passageiro sobre a viagem. Se houver um acidente, por exemplo, também fica sabendo. Nesse caso, automaticamente, faz o pagamento do sinistro com liquidação em tempo real.

Portanto, é um prato cheio para os contratos inteligentes (smart contracts) de blockchain. Isso é diferente do “on demand”, em que o cliente aciona e cancela o seguro.

“Para pegar as informações automaticamente e ter um seguro simples, digital e sem fricção. É preciso de várias tecnologias por trás disso e blockchain é uma delas”, afirma Ventura.

Blockchain permite rastreabilidade, inteligência, tempo real, custo menor e uma ausência de fraude. Esse último ponto, o que é fundamental em seguros, completa Moreira.

Testes com várias blockchains

Em cerca de 3 anos, Ventura testou várias plataformas de blockchain. Começou em 2017 com Ethereum. “No GitHub tem o smart contract de um seguro de telefone celular”.

Porém, com a alta de preço para a transação na rede, devido ao “boom” daquele ano, “o molho era mais caro que o frango”, diz o executivo. Isso porque o custo era de US$ 10 para uma apólice de US$ 1.

“A gente parou de usar Ethereum e fomos para Hypeledger Composer e depois para Fabric. Tínhamos entrado no Global Entrepreneur Program (GEP) da IBM e podíamos usar Hyperleger e Watson combinados”.

O consórcio global de seguradoras B3i também usava essa plataforma, porém, no final de 2018, a B3i foi para R3 Corda. Assim, a startup foi atrás de Corda.

Mas, viu que para fazer a transição teria de pagar pela licença da plataforma, o que era “proibitivo para startup”. Por isso, migrou o Solidity, linguagem de contratos inteligentes, usando a rede RSK, só que houve novo problema de custo.

Então, decidiu usar a NEM, plataforma chinesa. Nela, era possível fazer pequenas transações por US$ 0,07. “Custo era algo sensível, se a idea era democratizar o seguro”.

Além de barata, a rede também era rápida. Porém, não conseguia gravar todo o conteúdo de uma apólice, só o hash do número da apólice. “A gente aprendeu muita coisa, foi forjado no fogo”, diz Ventura.

Transição para AWS

Em outubro passado, a Susep selecionou a 88i e outras empresas a participarem do sandbox. No último dia 29, teve autorização para operar dentro do programa por até três anos, ou seja, pode testar seu modelo dentro de regras mais flexíveis.

Para acelerar o crescimento, a decisão foi, então, suspender os testes com blockchain e migrar a infraestrutura para o serviço de nuvem da Amazon Web Services (AWS). A empresa diz que poderá processar informações de forma escalável e segura. Depois, volta a blockchain.

“Em 2021, vamos concluir todos os fundamentos da empresa. Em 2022-2023 vamos reconstruir tudo em blockchain”, afirma Moreira. “Para fazer agora o que queríamos, precisamos sair de blockchain, ganhar escalabilidade e capacidade de desenvolvimento de mão-de-obra qualificada”.

Ainda não há decisão sobre qual plataforma vai usar. Quando a 88i voltar a blockchain, a ideia é ter, primeiro, uma infraestrutura na nuvem da AWS e uma rodando em blockchain também na Amazon. “Vamos fazendo a migração de forma organizada”, afirmou Moreira.

Pagamentos em criptomoedas

Os executivos dizem que a insurtech pode escalar e processar milhões de apólices rapidamente. O plano de negócios prevê fechar 50 mil apólices e R$ 7 milhões em prêmios neste ano. Em 2022, o plano é multiplicar por 10 esses valores, de acordo com Moreira.

O CEO afirma, ainda, que falta de mão-de-obra é uma dor do negócio. Assim, se junta ao coro de outras empresas. Por isso, para gerar mão-de-obra, a 88i está negociando com a Universidade de Nicosia (Chipre) para ser sua embaixadora no Brasil e América Latina.

A universidade tem um mestrado em blockchain e moedas digitais que os executivos garantem que também farão. “Vamos buscar formar mão-de-obra e levar mais gente para estudar”.

Entre os parceiros da 88i estão a carteira de bitcoin BitFy e a plataforma de infraestrutura U4Crypto. A insurtech testou o uso das criptomoedas bitcoin, ether e stellar dentro de sua ferramenta. Já com a Bitfy, pode aceitar bitcoin, ether e celo dolar.

Mas, no futuro, quando blockchain for reativo, “a ideia é colocar a facilidade para todo o ecossistema, para quem tem carteira em criptomoedas”, disse o CEO.

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