Claudia Mancini
é jornalista e cientista política, especializada em negócios, blockchain e economia digital

Inglaterra cria força-tarefa sobre “Britcoin”, a moeda digital do país

O banco central e o Tesouro da Inglaterra criaram uma força-tarefa sobre Moeda Digital de Banco Central (CBDC) para estudarem a emissão de uma “Britcoin”. O anúncio aconteceu nesta segunda-feira (19). Assim, o país quer permanecer na linha de frente da inovação, disse o BC no comunicado.

“A CBDC seria uma nova forma de dinheiro digital emitida pelo Banco da Inglaterra e para uso por pessoas e negócios. Existiria junto com o papel moeda e depósitos bancários, ao invés de substituí-los”, afirmou o BC britânico.

Outros países como China, Suécia e o bloco europeu já estão em estágios mais avançados do processo de terem um CBDC. Assim como o Brasil, que está prestes a divulgar os resultados de seu estudo sobre o assunto. Até os Estados Unidos (EUA), sempre cautelosos sobre o tema, decidiram acelerar seus estudos.

De acordo com o Banco de Compensações Internacionais (BIS), o banco central dos bancos centrais, mais de 80% dos bancos centrais estão envolvidos em algum estágio do estudo à adoção de uma moeda digitai.

Essa força-tarefa inclui uma nova divisão dentro do Banco da Inglaterra, a unidade CBDC, além de um fórum de engajamento e um fórum de tecnologia sobre a moeda digital.

De acordo com o comunicado do BC, o governo e a instituição vai consultar quem deverá sofrer algum impacto pela CBDC. As consultas serão sobre pontos como os benefícios, riscos e praticidades de uma eventual moeda digital do país.

A força-tarefa vai coordenar os estudos sobre objetivos, casos de uso, oportunidades e riscos de uma potencial CBDC, que já recebeu o apelido de Britcoin.

Também vai coordenar a formato que a moeda digital precisa ter para atingir seus objetivos. Assim como se comprometeu a fazer um estudo detalhado sobre CBDC e monitorar como andam projetos semelhantes no mundo, para que o Reino Unido não fique para trás.

Em relação aos fóruns sobre CBDC, o de Engajamento vai envolver stakeholders sêniores para colher ideias sobre todos os aspectos, menos os tecnológicos. Isso significa, por exemplo, casos de uso e papel do setor público e do privado nessa iniciativa.

Já o fórum tecnológico vai trabalhar em todos os desafios dessa área sobre a moeda digital. O grupo vai incluir profissionais do setor financeiro, da academia, fintechs, provedores de infraesturuta e empresas de tecnologia.

BID e Citi testam envio de dinheiro dos EUA para América Latina

O Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e o Citi Innovation Labs anunciaram, nesta semana, que concluíram uma prova de conceito (PoC) para envio de recursos dos Estados Unidos (EUA) para países da América Latina e Caribe (LAC) usando blockchain e tokens. As operações levaram de 15 minutos e 15 segundos a 1 hora e 45 segundos.

As operações aconteceram em 2020 com o uso da LACChain Blockhain Network. Porém, só agora as instituições divulgaram os resultados e os detalhes. A ioBuilders também participou da PoC. A empresa é espanhola e desenvolve soluções em blockchain.

De acordo com o BID, houve envios da sua sede em Washington para um beneficiário na República Dominicana, enquanto o Citi fez a liquidação das transações.

“O BID depositou recursos em dólares numa conta do Citi. Esse dinheiro foi tokenizado para ERC-2020 e transferido para carteiras digitais”, disse Marcos Allende, especialista de blockchain do BID e líder técnico da LACChain.

Assim, o Citi converteu o valor em pesos dominicanos. O banco estabeleceu a taxa de câmbio. “A taxa, o status do pagamento e as tarifas foram rastreados e ficam transparentes todo o tempo na rede LACChain Blockchain”, completou Allende.

Envio de dinheiro pela LACChain

O projeto usou a LACChain Besu Network, ou seja, uma Hyperledger. A rede é publica-permissionada. Isso porque o objetivo da LACChain é criar um ecossistema blockchain para toda a região LAC.

Os tempos das transações foram de 15 minutos e 45 segundos a 1 hora e 45 segundos. Isso porque a parte final foi a mais demorada. O tempo para o acesso do BID à conta (whitelist) foi de cerca de 10 segundos. Foi o mesmo tempo para a tokenização.

A realização do câmbio durou dois segundos. Além disso, a transferência aconteceu em 15 segundos. A aprovação dessa transferência levou cerca de 8 segundos. A parte final foi a mais demorada, levando de 15 minutos a uma hora. Essa foi a de transferência para uma clearing.

“Esse projeto vence uma série de desafios relacionados a transferência internacional de valores. Assim, demonstra que é possível realizar essas transações de uma forma ainda mais eficiente e segura e, além de tudo, econômica”, disse ao Blocknews Renato Teixeira, co-líder da Comunidade Hyperledger Brasil

De acordo com Teixeira, o próximo desafio a ser vencido é o processo de efetivação da transferência por meio de reconhecimento não só das instituições bancárias, como também das fiscais. “Isso deve acontecer muito em breve, tendo em mente grau de confiabilidade e transparência que blockchain oferece.”

Além de ser possível rastrear e acompanhar todo o processo, blockchain pode reduzir o custo das transações. Isso é fundamental porque o corredor EUA- LAC é um dos principais para envio de dinheiro no mundo. Isso porque trabalhadores latinos nos EUA mandam recursos para suas famílias.

BNDES é um dos 98 nós

Mas, não é só isso. Na região, blockchain pode ter impacto também na transparência e custo das remessas de recursos para outras finalidades, em especial de assistência.

“Há muitas implicações de pagamentos internacionais com papel de inclusão, como por exemplo assistência oficial para o desenvolvimento”, afirmou Irene Hofman, CEO of the IDB Lab.

“Sem dúvida, esses recursos são extremamente importantes para os países da região. Mas, mais ainda para os benefícios finais e suas famílias”, completou.

Para Piotr Marciszewski, coordenador do projeto no Citi, a PoC mostrou que é possível conectar a LACChain Network com as Interfaces de Programação de Aplicações (APIs) da WordLink, ou seja, com o serviço de pagamentos do banco.

O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) é um dos nós da LACChain. A rede tem 98 nós de 15 países dos continentes americano e europeu. Os participantes já fizeram 22 milhões de blocos. O movimento da rede pode ser acompanhado pelo site da LACChain.

Japão, onde dinheiro em papel é muito usado, começa teste com CBDC

O Banco do Japão começou, hoje (2), os testes para uma moeda digital de banco central (CBDC). O teste vai durar por um ano, até março de 2022.

Nesta primeira fase, a de prova de conceito (PoC), o banco vai verificar a viabilidade técnica das funções centrais que uma CBDC precisa ter. A instituição vai realizar um teste de ambiente para o sistema.

Além disso, realizará experimentos com base em funções como uso da CBDC como instrumento de pagamentos, o que inclui emissão e distribuição.

O Brasil também estuda uma CBDC para o país. O Banco Central informou ao Blocknews que “os estudos estão em andamento e levarão em consideração a experiência internacional e as especificidades do contexto brasileiro”.

Segundo o BC, o grupo vai apresentar suas conclusões à diretoria do BC. E esse, por sua vez, vai direcionar os próximos passos.

Japão atrás em pagamento digital

Curiosamente, dado seu estágio de desenvolvimento, inclusive em tecnologia, o Japão ainda é um país onde é alto o uso de dinheiro em papel e moeda.

Assim, a CBDC tem como desafio adicional para o país, que é o de não apenas criar a CBDC mas aumentar o uso de pagamentos digitais entre a população.

O que pode ajudar nesse processo é que as novas gerações são mais abertas aos pagamentos digitais. Além disso, o país tem usado uma série de ações como cashback para incentivar a transição para o uso de digital.

Rede blockchain da União Europeia entra em operação até junho

A European Blockchain Services Infraestructure (EBSI), rede blockchain União Europeia (UE), por enquanto com 20 países, começa a funcionar entre junho e setembro. A rede derrubará fronteiras das administrações públicas do bloco. Isso porque os nós, hoje 36, compartilharão dados como diplomas e identidade digital.

Os europeus poderão acessar os dados por computador ou celular. O EBSI criou um programa de early adopters para acelerar a implantação do sistema. Entre os que entraram no programa estão administrações públicas, universidades e empresas, de acordo com o Blockchain Economía, site de notícias espanhol parceiro do Blocknews.

Espanha, Holanda Alemanha, Bélgica, Suécia, Áustria, Itália, França e a Corte Europeia de Auditores estão entre os países que poderão colocar em produção ferramentas e serviços da rede blockchain União Europeia. Áustria, Espanha e Itália, por exemplo, estão trabalhando em ferramentas ligadas a diplomas.

O último relatório de desempenho do Connecting Europe Facility (CEF) Building Block mostrou um aumento de 30% do número de países, para 17, que implantaram ao menos um dos 25 nó operacionais da EBSI.

Além disso, houve um aumento de 10% do compartilhamento de documentos enviados no final de 2020. Isso significou 491 milhões de documentos no quarto trimestre.

O relatório mostrou, ainda, um aumento de 30% dos pedidos de tradução processados pelo eTranslation. Com isso, no quarto trimeste o número atingiu 328 milhões de traduções.