Claudia Mancini
é jornalista e cientista política, especializada em negócios, blockchain e economia digital

Banco Mundial nega apoio a El Salvador para implementar bitcoin

O Banco Mundial informou nesta quarta-feira (16) que não poderá dar suporte a El Salvador em seu projeto de implementar bitcoin como moeda legald. Os motivos são falta de transparência no projeto e questões ambientais relacionadas à moeda.

“Temos o compromisso de ajudar El Salvador de várias formas, incluindo transparência de moeda e processos regulatórios”, disse o banco à agência Reuters. “O governo nos procurou buscando assistência com bitcoin, mas isso é algo que o Banco Mundial não poder ajudar devido a questões ambientais e de falta de transparência.”

O ministro das Finanças de El Salvador, Alejandro Zelaya, pediu assistência técnica ao banco. O país também negocia um acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI) para reequilibrar as contas do país, que estão em mal estado. O FMI disse que estava preocupado com a decisão de El Salvador de adotar bitcoin. Zelaya disse, no entanto, que as negociações vão bem.

A posição do FMI sobre o plano de tornar bitcoin moeda legal em El Salvador alarmou os investidores internacionais. O país precisa de dinheiro para fechar suas contas até 2023. Com isso, os prêmios que passaram a pedir pelos títulos do país subiram.

A aprovação de bitcoin como moeda legal aconteceu a toque de caixa. Foram apenas 4 dias entre o sábado em que o presidente de El Salvador anunciou a intenção de tornar bitcoin legal e a aprovação pelo Congresso, onde tem super maioria.

A falta de planejamento, de estudos técnicos, de consultas a órgãos internacionais e ao mercado pode fazer esse projeto, até agora único no mundo, ser mal sucedido. O que não ajudaria em nada na imagem e maior adoção de bitcoin.

Furnas abre edital para ter banco de dados em blockchain

A Furnas Centrais Elétricas abriu licitação para contratar uma empresa especializada em blockchain para criar um banco de dados com a tecnologia. Assim, a empresa de energia espera desenvolver um ecossistemas para controle, transparência, confiabilidade e auditabilidade de processos.

Em setembro de 2020, Furnas lançou um edital para seu programa de pesquisa e desenvolvimento. O edital incluía 33 temas, dentre eles aplicações blockchain para geradoras e transmissoras do setor elétrico. 

A empresa, que faz parte da Eletrobras, gera, transmite e distribui energia. Ao todo, opera em 15 estados e no Distrito Federal.

A Medida Provisória (MP) que abre caminho para privatização da Eletrobras está em discussão no Congresso. Mas, se os congressistas precisam decidir sobre o assunto até 22 de junho, quando a MP perde a validade.

Um dos requisitos que Furnas pede aos interessados é comprovação de experiência em ao menos uma tecnologia de uma lista de soluções. A lista inclui, por exemplo, as blockchain Hyperledger Fabric, Hyperledger Sawtooth, R3 Corda e Consensys Quorum.

Furnas recebe propostas para blockchain até 9 de julho

A carta de apresentação de proposta precisa ser enviada até 14h30 até o próximo dia 9 de julho. Nesse mesmo dia começa a abertura de propostas. Porém, a abertura será online. O acesso ao edital está no site de Furnas.

Para analistas, o setor de energia é um dos mais promissores para o uso de blockchain. Desde o uso da solução como o que Furnas busca, até a tokenização da energia, ou seja, uso de tokens para venda de eletricidade.

Já há casos de envolvimento do setor de energia no Brasil com blockchain. Como o Blocknews noticiou, a Eneva testou uma plataforma da Fohat para comercialização de energia e automatização de backoffice. De acordo com a Fohat, foi a primeira plataforma do tipo em energia por usar blockchain.

Além disso, a AES e a Fohat desenvolveram o primeiro balcão organizado de negociação de energia livre e de certificado de energia renovável (IREC) do país com tecnologia blockchain.

UE pode limitar uso de euro digital, inclusive em mercados emergentes

O Banco Central Europeu (BCE) poderá limitar o uso do euro digital para evitar riscos ao sistema financeiro. Uma das medidas seria, por exemplo, impedir que os cidadãos tenham mais de 3 mil euros digitais. O objetivo é fazer a moeda digital ser apenas para pagamentos e não investimentos, inclusive em países emergentes.

A limitação de valores evitaria a saída de depósitos dos bancos para o euro digital, disse Fabio Panetta, membro do conselho executivo do BCE. A data mais próxima possível para o bloco ter o euro digital é 2026, já que a UE trabalha com horizonte de cinco anos, completou. “Isso não é uma corrida”.

Panetta disse que a moeda digital é segura. Mas, sem limites para o uso como reserva de valor, pode atrair grandes investimentos até de contas correntes. Seria um cenário ruim, em especial em momentos de crise, de acordo com ele.

Além de limitar o valor em depósito, outra possibilidade é colocar uma taxa sobre os valores de euros digitais acima de um certo valor, afirmou em entrevista ao veículo Nikkei Asia.

Assim, o euro digital seria uma forma eficiente de pagar digitalmente em moeda soberana. Ao invés de ser uma forma de investimentos. “Isso evitaria uma instabilidade no setor financeiro e preservaria a intermediação financeira”, completou.

Segundo Panetta, o euro digital para residentes em países fora da zona do euro garantiria transações de pagamentos seguras. “Mas, em economias emergentes vulneráveis, o euro digital também poderia ser muito atraente para investimentos”, afirmou.

Euro digital deve ser para pagamentos

Portanto, se o desenho da moeda não for apropriado, pode levar à saída de capital e substituição por outra moeda. E então, à instabilidade do sistema financeiro.

“As condições para o acesso e uso de residentes de fora da zona do euro poderá acontecer para prevenir um fluxo volátil e excessivo de capital ou flutuações da taxa de câmbio.

O executivo afirmou ainda ser necessária cooperação internacional para definir o formato, o uso transfronteiriço e a interoperabilidade. Isso porque são fatores que podem ser chave para se ter os benefícios potenciais das moedas digitais de banco central (CBDCs). E, ao mesmo tempo, lidar com os riscos.

Os bancos centrais da UE, Japão, Estados Unidos, Reino Unido, Canadá, Suíça, Suécia e China já estão em conversas sobre as CBDCs, disse ele. Porém, ter uma moeda digital requer tempo, afirmou. A China começou em 2013. A Suécia em 2017 e disse que pode lançar também em 2026.

O Brasil vai continuar os estudos sobre o real digital e deve abrir a discussão para o público. De acordo com o Banco Central, a data de lançamento vai estar mais clara após esses debates. A moeda será para varejo e poderá até mesmo ter um câmbio diferente da moeda convencional.

China cria diferentes carteiras e serviços para sua moeda digital

Mu Changchun, diretor do Instituto de Pesquisa de Moedas Digitais do Banco Popular da China, disse na última sexta-feira (11) que há vários tipos de carteiras renminbi digitais que podem ser combinadas entre si. Além disso, há quatro tipos de carteiras.

Haverá uma carteira digital para transações diárias menores do que 5 mil iuans (cerca de R$ 4.800). Para isso, basta um número de celular. Mas, para valores maiores, a configuração muda, com mais requerimentos de identificação.

O país está testando sua moeda digital de banco central (CBDC) e pelo que se sabe, é o que está mais à frente nessa área.

De acordo com o Sina.com, Changchum afirmou que naquele dia começou o piloto da renminbi digital em Shanghai. O governo distribuiu o chamado envelope vermelho para 350 mil dos 2 milhões de inscritos. Nessa carteira, há renminbis digitais para uso pelos cidadãos.

O diretor disse que sob a premissa de gestão centralizada, cognição unificada e realização de anti-falsificação, a plataforma da carteira foi co-desenvolvida e é compartilhada com várias agências operacionais. E que há diferentes carteiras para diferentes usos.

De acordo com ele, as agências que vão operar as carteiras vão definir o tipo de com base nos limites de saldos e transações diárias. A carteira anônima terá um saldo de 10 mil iuans (cerca de R$ 8 mil), limite de pagamento único de 2 mil iuans (cerca de R$ 1,5 mil) e de pagamentos diáros de 5 mil iuans. Para isso, basta um número de celular.

Além disso, as carteiras serão pessoais ou públicas. As primeiras serão para pessoas físicas e empresas. As carteiras em iuan digital poderão também ser flexíveis ou rígidas. As primeiras incluem aplicativos de pagamentos móveis e kits de desenvolvimento de software (SDKs). Já as rígidas incluem cartões inteligentes e dispositivos de Internet das Coisas (IoC). 

“Por exemplo, lançamos um produto de carteira rígida com uma função de código de saúde para idosos. Ao fornecer funções de pagamento seguras e convenientes, também pode facilitar as viagens diárias dos idosos para a prevenção e controle da pandemia”, afirmou.

  As carteiras também poderão ter as funções principais e sub carteira definidas pelo titular da principal.  “Por exemplo, se você deseja ocultar dinheiro privado ou algo assim. E também pode gerenciar a função de presentes de parentes. Empresas e instituições podem usar subcarteiras para realizar funções como coleta e distribuição de fundos, processamento contábil e gestão financeira”.

  

FMI tem receio sobre adoção de bitcoin em El Salvador, o que aflige investidores

O Fundo Monetário Internacional (FMI) disse hoje (10) que tem preocupações econômicas e legais com a decisão de El Salvador de tornar bitcoin uma moeda legal no país, de acordo com a agência Reuters.

Assim, parece mais complexa a negociação do país para um empréstimo de US$ 1,3 bilhão. O acordo é necessário para reequilibrar as contas de El Salvador. Mas com a adoção intempestiva de bitcoin, sem maiores explicações e transparência, receios surgiram de diversos lados.

“A adoção de bitcoin como moeda legal levanta uma série de questões macroeconômicas, financeiras e legal que requerem análises muito cuidadosas”, disse Gerry Rice, porta-voz do FMI. “Estamos acompanhando os desenvolvimentos de perto e continuaremos as consultas com as autoridades”, completou.

FMI e o presidente de El Salvador, Nayib Bukele, se encontrariam no final desta quinta-feira (noite no Brasil). O tema é a lei do bitcoin e o acordo com o Fundo.

Bitcoin em El Salvador criam barulho para acordo

Os investidores também receberam mal a proposta de Bukele de fazer bitcoin tão oficial quanto o dólar dos Estados Unidos (EUA), a moeda do país. A questão não é só a adoção de bitcoin, mas receio de que não saia o acordo com o FMI.

“Vemos as manchetes sobre El Salvador como um barulho que podem complicar as discussões com o FMI”, disse Donato Guarino, estrategista de mercados emergentes do Citi. O banco reduziu ainda mais sua já pouca exposição ao país.

Para Patrick Esteruelas, líder de pesquisa da Emso Asset Management de Nova York, Bukele precisa usar seu capital político para controlar o grande déficit fiscal do país. É isso o que atrairá os investidores. No entanto, Bukele disse que El Salvador vai atrair investidores ao adotar bitcoin.

No sábado (5), Bukele avisou por Twitter que enviar proposta de lei ao Congresso para tornar bitcoin moeda legal. Já na terça-feira o Congresso, de maioria governista, aprovou a lei por 82 votos a favor – houve 64 contra. Assim, El Salvador se tornou o primeiro país a adotar bitcoin.

El Salvador aprova bitcoin como moeda legal para qualquer operação

O Congresso de El Salvador aprovou, neste terça-feira (8), o uso legal do bitcoin no país. Assim, a moeda passa a ocorrer com o dólar dos Estados Unidos (EUA), a até então a única moeda oficial do país.

A aprovação é a primeira do tipo no mundo. Porém, gera muitas dúvidas e preocupações porque aconteceu sem estudos profundos sobre seus impactos econômicos, sociais e de segurança cibernética.

O projeto de lei entra em vigor imediatamente e o presidente do país, Nayib Bukele (Novas Ideias), disse que a infraestrutura tem de estar funcionando em 90 dias.

De acordo com a lei, cidadãos, empresas públicas e privadas de El Salvador poderão usar bitcoin de forma “irrestrita” e “ilimitada”. Até mesmo os pagamentos de impostos, dívidas com o governo e pensões poderão ser na criptomoeda. Além disso, a informação de preços poderá ser em bitcoin.

A proposta de lei veio de Bukele (Novas Ideias), que tem sido aconselhado pelo CEO da Strike. Jack Mallers. Bukele contou a novidade ao país sem detalhes e transparência por Twitter no sábado (5). Como tem o que o país chama de super maioria no Congresso, conseguiu a aprovação da lei.

Mas, os partidos de oposição questionaram a falta de discussão sobre o tema e as potenciais implicações da decisão. No entanto, congressitas do Novas Ideias disseram que as “mentes mais brilhantes” do país certamente apoiam a decisão.

De acordo com a lei, “todo agente econômico deverá aceitar bitcoin como forma de pagamento quando assim seja oferecido por quem comprar um bem ou serviço”.

As exceções são negócios que de forma “notória e maneira evidente” não tenham acesso às tecnologias para isso. Porém, a lei que o governo dará capacitação para a esses negócios para operarem com bitcoin.

El Salvador adota bitcoin para mesmo com volatilidade

A lei diz ainda que a cotação bitcoin/dólar será definida pelo mercado. Há 20 anos, El Salvador definiu o dólar como moeda oficial para ter uma moeda estável e tentar melhorar a economia.

Agora, insere na economia uma criptomoeda sabidamente volátil e que até o ecossistema alerta sobre esse fator. Até o presidente do Banco Central de Reserva de El Salvavor, Douglas Rodríguez, reconheceu a volatilidade . Mas, disse que é como volatilidade existe em outras moedas como o dólar. Só não disse que bitcoin é muito mais volátil.

Ficou definido, ainda, que a convertibilidade entre as duas moedas, bitcoin e dólar, será automáticas. Por isso, o Banco de Desenvolvimento de El Salvador (Bandesal) deverá criar um contrato fiduciário para a convertibilidade entre as moedas.

Além disso, as transações com bitcoin não estão sujeitas a impostos sobre ganhos de capital, o que também a equipara ao dólar.

A decisão de Bukele não agradou os investidores internacionais e analistas. E deve tornar mais difícil sua negociação de um empréstimo de US$ 1,3 bilhão com o Fundo Monetário Internacional (FMI).

De acordo com o ElSalvador.com, Siobhan Morden, chefe de estratégia de renda fixa para América Latina da empresa de análises Amherst Pierpoint Securities. decisão de Bukele parece impulsiva e contradiz seu plano econômico.

País está mal das pernas e negocia empréstimo com FMI

O país não anda bem das pernas. Dinheiro do FMI serve para equilibrar o balanço de pagamentos, numa tentativa de reordenar a economia e atrair investimentos estrangeiros. Só que os preços dos títulos de El Salvador estão caindo desde sábado. Na segunda-feira, o bônus com vencimento em 2035 e 2050 caíram 1,15% e 2,7%, respectivamente.

A questão é que apesar de Bukele ter 85% de aceitação da população, está tendo atitudes com autoritárias e, agora, vem com a novidade sobre bitcoin de forma intempestiva. Num país com 70% de desbancarizados e em que boa parte não tem nenhuma ideia do que seja bitcoin.

Bukele é um presidente que já invadiu o Congresso acompanhado de militares por descordar das decisão da Casa. Isso aconteceu em 9 de fevereiro de 2020, o que ficou conhecido como o 9F de 2020. Em 1 de maio deste ano destituiu cinco juízes da Suprema Corte e o procurador-geral.

Da forma como El Salvador adotou bitcoin, uma das dúvidas é se o país está sendo inovador para combater a desbancarização de 70% de sua população ou se essa é mais uma das atitudes bizarras que a América Latina terá para contar. Será, portanto, esperar para ver. E torcer para que isso ajude no uso correto de bitcoin, ao invés de criar mais uma barreira à moeda.

BC diz que real digital deverá ser usado no varejo, espera incluir DeFi e câmbio pode ser diferente do real

O Banco Central do Brasil anunciou hoje (24) que o Grupo de Trabalho Interdepartamental (GTI) para estudar a moeda digital do país, o real digital, finalizou seus estudos. Uma das diretrizes para o potencial desenvolvimento de uma moeda digital de banco central (CBDC, na sigla em inglês), está a previsão de uso da moeda em pagamentos no varejo.

Uma outra diretriz é a de que o BC emitirá a moeda como uma extensão da moeda física. A distribuição ao público terá por intermediação de custodiantes do Sistema Financeiro Nacional (SFN) e do Sistema de Pagamentos Brasileiro (SPB).

O coordenador dos trabalhos sobre o real digital, Fabio Araújo, disse em coletiva que a moeda poderá ser lançada num horizonte de dois a três anos. Assim, não se comprometeu com o lançamento em 2022 e para câmbio turismo, como vinha dizendo o presidente do BC, Roberto Campos Neto. “O cronograma será definido após debate com a sociedade”.

Um outro ponto é se depois do lançamento, o real digital terá um valor de câmbio distinto do real. “É uma questão controversa. Preferencialmente, os BCs adotam a postura de a cotação ser equivalente. Mas temos questões de mercado envolvidas. O físico presta um serviço e o digital outro e poderia ter descolamento entre os preços. Não sabemos ainda se isso (mesma cotação para as duas) será garantido”, explicou o coordenador.

Também não está definido se o BC vai usar blockchain. “Para a escolha da tecnologia, “as balizas tecnológicas são segurança cibernética e interoperabilidade”, completou o diretor.

“Vemos potencial para diversos usos que vão facilitar a vida da população” disse Araújo. A seguir, detalhes das informações que o coordenador do BC nesta segunda-feira:

Benefícios para o Brasil

Os principais benefícios potenciais do real digital seria aumentar a eficiência do sistema financeiro, reduzindo custos e aumentando agilidade. Seria mais um instrumento para o sistema de pagamentos, que é a porta de entrada para o sistema financeiro. Haveria redução de custo de numerário, o que é um custo razoável. Há possibilidade de integração internacional para facilitar os pagamentos transfronteiriços e reduzir custos nesse caso também.

Contratos inteligentes e tokens

Um dos pontos principais das diretrizes definidas pelo Banco Central é que precisamos construir um sistema financeiro moderno. E essa seria uma complementação a essas ações de modo a facilitar desenvolvimento de modelos inovadores, como smart contracts (contratos inteligentes), Internet das Coisas (IoT), e dinheiro programável. Isso para chegar a um sistema mais interoperável, aberto e eficiente.

As tokenizações são aplicações possíveis e o BC não quer fechar os casos de uso. São possibilidades apresentadas à diretoria (do banco) e serão opções interessantes. Mas, queremos ouvir mais sem enviesar o discurso, porque o objetivo é uma CBDC q atenda ao sistema financeiro local.

Mudanças na legislação

Antes do lançamento, serão feitas alterações normativas sobre questões como privacidade e segurança do usuário, para se estar em linha em especial com sigilo bancário e Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD). As alterações vão incluir também a lei cambial, que já está em discussão e pode inserir o tema do real digital.

Cuidados com a segurança

A solução deve permitir que o Brasil cumpra todos os requisitos de lavagem de dinheiro, prevenção a terrorismo e financiamento de armas de destruição em massa. Mas também permitir pedidos de rastreamento de operações ilícitas. Deverá ter a alta resiliência observada nas estruturas criticas atuais do sistema financeiro.

A segurança para a moeda criptografada tem que ser muito maior para garantir resiliência em operações offline. No primeiro momento, (o real digital) não seria para esse tipo de operação. Seria em operações online e de quem já opera no sistema.

Tecnologia que será usada

A tecnologia deve garantir interoperabilidade com os sistemas brasileiros e os internacionais, além de alta resiliência de segurança. As tecnologias criptografadas são fundamentais para segurança e vão estar presentes. Mas, a categoria vai ser definida nos debates com a sociedade que faremos em seguida. Estamos com conversas com outros países, com provedores de tecnologia, mas estão em definição. E já falamos com Bahamas (que lançou a primeira CBDC do mundo) e com a Mastercard, que forneceu a tecnologia.

A respeito de blockchain, há várias discussões. O BC já fez estes anteriores, é muito útil para gerar confiança entre pessoas que não se conhecem. E tem a aplicação com IoT muito clara, que pode verificar autenticidade da informação. Isso vai facilitar o surgimento de vários modelos de negócios diferentes do que vemos hoje.

Mas, um dos problemas das tecnologias atuais é a falta de sustentabilidade. Para incluir os métodos atuais numa blockchain, tem dispêndio muito grande de energia, que também está sendo tratada. (Questionado pelo Blocknews se o problema de consumo de energia não se aplicaria mais a redes como bitcoin, Araújo disse que sim e que estão olhando outras redes como Hyperledger e Corda da R3).

Novos produtos e serviços

Esperamos que fomente novas relações no mercado, serviços mais dinâmicos, integrados ao ambiente digital. Hoje há operações em ambientes altamente desregulados, como DeFi. Queremos fornecer um ambiente seguro, para que mais pessoas possam desfrutar do serviço.

DeFi é uma opção que esperamos que entre nesse ambiente. Naturalmente se integra a essa moeda e vai alterar o relacionamento das pessoas com serviços financeiros. Estamos preparando o país para um futuro mais tecnológico, que seja mais inclusivo, aberto e interoperável.

Poderia citar outros exemplos com internet das coisas. Como uma geladeira com IoT, que monitora o que tem dentro dela, tem acesso a carteira digital e ela mesma faz as compras. Tudo é certificado pela criptografia e a compra é entregue na sua casa.

O real digital pode permitir o dinheiro programável. Já temos algumas características no sistema brasileiro para fazer transferências com agendamentos. Mas com o real digital, (as opção) são mais amplas, embora no mesmo sentido.

Quando tem real em depósito bancário, esse dinheiro passa para tutela do banco que faz aplicações e uso desses recursos. O real digital é uma opção. O banco pode fazer um atrativo para você manter o deposito. Você pode ter um real físico para transações offline e uma parte em CBDC para ter acesso a novos serviços que esperamos que apareçam no sistema. Não esperamos que real digita acabe com o real físico e em depósitos bancários.

O interesse dos bancos para entrar no mercado (do real digtital) é prover os novos serviços que a moeda digital permite que sejam criados. Vai ter novos serviços.

Custódia do real digital

A maior parte da moeda hoje já é digital. A diferença fundamental é que a do BC é de responsabilidade do BC. É um ativo que as pessoas têm contra o Banco Central e hoje (no depósito bancário) é um ativo que têm contra o sistema bancário. São dois níveis de risco diferentes. A disponível hoje leva o risco da sua instituição, a outra do risco soberano.

A custodia é nos agentes do sistema financeiro, mas seria mais parecido com o que ocorre com instituições de pagamento. O dinheiro é seu, mas está 100% garantido pelo BC no sistema financeiro.

Interoperabilidade

Com relação a parcerias internacionais, estamos em conversas com alguns BCs, participando de discussões no BIS (Banco Internacional de Compensações) e com países nele para se criar um ambiente que mais facilmente interoperável entre os países.

Politica monetária e juros

Sobre política monetária, o BC vê (no real digital) um novo mecanismo de provimento de liquidez. Tendência é isso (CBDC) ampliar a potência do BC. As discussões sobre isso são mais avançadas no exterior.

Sobre sacar uma CBDC em real convencional, a princípio, isso será da mesma forma que hoje (para depósitos). Quanto a captação para operações, isso ainda não está definido.

(Resposta a pergunta do Blocknews sobre quanto do dinheiro no mercado seria real digital). A relação CBDC, papel e depósito bancário ainda está em aberto, não temos um valor para isso. É realmente importante e os pilotos sendo feitos nos países, ou que venhamos a fazer após o debate com a sociedade, vão ajudar a definir o parêmetro. Isso é muito importante e como (CBDCs) não existem, não temos boa referência. Por isso, os BCs estão tentando compreender  melhor os mercados.

Desintermediação bancária

A desintermediação bancária é uma possibilidade. Mas, para isso tem antídotos que estão ligados à alimentação do uso para uma transição para uma economia onde o crédito seja menos dependente da instituição bancária. Precisa, a principio ter limitações para desintermediação.

Como o modelo vai ser de custódia, que é similar ao que as instituições de pagamentos têm hoje, não tem possibilidade de o dinheiro ser usado para outras coisas. A não ser que se faça captação com real digital, o que não está definido. É modelo de emissão do banco e distribuição e custódia pelas companhias de pagamento. Vai ser um passivo direto doBC, por isso não pode operar com esse dinheiro.

Consulta à sociedade

Alguns parâmetros da consulta vão ser definidos. Mas não será uma consulta púbica oficial e sim na forma de seminários. Trataremos de temas pertinentes à CBDC e convidar o público para os eventos e para fazerem perguntas. Em um a dois meses, começamos os seminários, que devem durar de dois a três meses.

Vai ser um menos formal de interação (do que o Reino Unido, por exemplo, que criará grupos). Vai ser com atores do mercado como fintechs, big techs, e bancos. Discutido num formato mais aberto para dar mais visibilidade ao público.

Privacidade digital

As informações da CBDC serão no mesmo sistema usados para informações de operações normais do sistema financeiro. Temos um grau de resiliência muito elevado, não temos tido problemas sérios nesse campo. A integração com outros órgãos (para compartilhar informações) se dá através de parâmetros legais.

O BC já tem acesso a muitas transações das pessoas, praticamente todas as transações, mas protegidas pela lei. Isso continua valendo para o real digital. Ganha granularidade de informação, mas o uso tem que ser balizado pela legislação vigente. Não há risco nenhum para a sociedade.

*Reportagem atualizada às 13h40 com a entrevista completa do coordenador do BC.

Marinha dos EUA fecha contrato de US$ 1,5 milhão para usar blockchain

A Marinha dos Estados Unidos (EUA) fechou um contrato de US$ 1,5 milhão (cerca de R$ 9,5 milhões) com a Consensus Networks para compra de uma ferramenta de logística de saúde em blockchain. O teste começa neste ano e o contrato é até 2022.

A Consensus Networks é uma startup da área de saúde, com soluções que integram dados clínicos e cadeia de suprimentos. A empresa cria a infraestrutura com blockchain. O objetivo é um impacto positivo tanto no controle do inventário de produtos, quanto no custo dos tratamentos.

A Marinha vai usar o HelthNet para gerenciar seus inventários dentro e fora dos EUA. O foco do piloto será em previsão de demanda. E também na automação de fluxo de fornecimento para entrega just -in-time de produtos essenciais, como sangue e plasma.

Segundo a empresa, sua infraestrutura permite, além de rastrear o inventário, controlar o consumo e data de validade de produtos. Assim, facilita fazer um previsão de demanda e planejamento de fornecimento em tempo real.

Blockchain é usada para assegurar aspectos como a veracidade dos dados que vem da internet das coisas (IoT) e registros imutáveis de dados. A empresa usa o Protocolo Factom, usado pelo Departamento de Segurança Interna.

“Escolhemos usar redes blockchain públicas por conta de seus mecanismos já existentes e robustos de consenso e pela infraestruta de rede”, de acordo com o CEO da Consensus, Nate Miller, em comunicado da empresa.