Por que ainda não vimos uma alta das “alt” criptos, as concorrentes do bitcoin?

Por que ainda não vimos uma alt season neste ciclo?
Imagem destaque: Pexels

Em 2024, o bitcoin (BTC) ultrapassou a marca de US$ 100 mil pela primeira vez na sua história. Essa alta da criptomoeda foi suficiente para investidores acharem que o mercado caminhava para um momento de puro otimismo, que resultaria em uma alt season, ou temporada das altcoins.

No entanto, não foi bem isso o que aconteceu. Afinal, drenadores de liquidez, como memecoins, principalmente as políticas, e a falta de clareza sobre a taxa de juros dos Estados Unidos, deram uma freada no mercado. Inclusive, o Bitcoin tem encontrado dificuldades para voltar aos US$ 100 mil, o que tem atrasado o movimento de alta das altcoins também.

Mas será que haverá uma alt season neste ciclo, ou seja, um aumento dos preços das outras criptomoedas que não são o bitcoin? O que devemos esperar para o mercado das altcoins? Para responder a essas perguntas, o Blocknews falou com dois especialistas do mercado: Vinicius Terranova, VC e CEO da Terranova Ventures, e Gabriel Broetto, gerente comercial da Brasil Bitcoin.

Entendendo este ciclo

Conforme observado por Terranova, há uma lenda urbana de que todos os ciclos do mercado ocorrem da mesma forma, mas isso é apenas uma lenda mesmo. Afinal, basta olhar os gráficos dos ciclos anteriores para identificar isso. Narrativas e perfis de investidores ditam direções e esses dados não podem ser ignorados. Atualmente, não há como negar que os ETFs (fundos de índice negociados em bolsa) spot de bitcoin nos Estados Unidos são os grandes catalisadores de alta do mercado.

Muito bem levantado pelo Investopedia, o iShares Bitcoin Trust (IBIT) da BlackRock mostrou como o apetite institucional por BTC está em alta, com entradas líquidas até janeiro de 2025 superiores a US$ 37 bilhões. Além disso, os ativos de mais de US$ 52 bilhões em 9 de janeiro do fundo superaram, e muito, os US$ 33 bilhões em ativos do ETF de ouro de 20 anos da iShares (IAU). Assim, se aproximaram do SPDR Gold Shares (GLD), o maior ETF de ouro, com ativos acima de US$ 75 bilhões.

“Cada ciclo dependia de uma certa narrativa. A narrativa desse ciclo foi o ETF. A do ciclo anterior foi o DeFi Summer. A gente teve o lançamento de muitos projetos de DeFi (Finanças Descentralizadas), o que impulsionou muito o mercado, com destaque para projetos da Polkadot. Já em 2017, vimos o halving como narrativa ao lado do boom das ICOs. Então, qual é a narrativa deste ciclo? Os ETFs. Mas quando a coisa começa a se perder? Nas memecoins”, destaca Terranova.

De acordo com Broetto, são os golpes, que, infelizmente, estão cada vez mais presentes no mercado de criptomoedas. Até mesmo um scam foi divulgado pelo presidente da Argentina, Javier Milei, resultando em um prejuízo de US$ 248 milhões para pequenos investidores. Broetto aponta que casos como esse deixam os investidores assustados e focados em direcionar o capital para o bitcoin, e não para as altcoins, o que também limita uma alt season.

“Então, a gente vê uma dominância do bitcoin muito forte e o apetite por risco nas altcoins muito baixo. Deve ser um ciclo de altcoin season mais fraco do que os passados. Ainda pode acontecer, eu ainda acredito que vamos ter uma altcoin season, mas nada comparado ao que já aconteceu no mercado”, completou.

Nem todas as altcoins vão disparar

Um dos pontos destacados por Terranova é que, neste ciclo, houve, sim, uma alt season. Afinal, “algumas criptomoedas dispararam quatro, cinco, dez e até cem vezes o valor delas, e tudo isso aconteceu em momentos do mercado em que a dominância do bitcoin deu uma estagnada”.

Como destaque de altcoins com fundamentos que subiram neste ciclo, o trader falou sobre a BNB, que saiu de US$ 200 para US$ 800, a Mantra, que cresceu de US$ 0,02 para um pico de US$ 8, e a BGB, que era negociada a apenas US$ 0,20 no início do ciclo e atingiu também uma alta de US$ 8.

“Todas essas moedas que subiram têm fundamentos. O que resta é saber escolher. A galera reclama muito porque quer que caia nas mãos deles a moeda mágica, mas, se as pessoas não estudarem, elas não vão conseguir”.

Além disso, de acordo com o VC, existe uma lenda criada para vender curso de que alt season é aquele momento em que tudo explode, mas, ao contrário de ciclos anteriores, hoje nós temos milhões de moedas sendo criadas o tempo inteiro e nem todas vão explodir.

“Eu vejo que, de fato, o que mais atrapalha essa alt season é que nós temos muitas moedas drenando liquidez. Quando você tem R$ 10 mil e 10 moedas, coloca R$ 1 mil em cada uma. Quando você tem R$ 10 mil e 10 mil moedas, você vai colocar um real em cada. Então, fica muito difícil que elas subam bastante por causa disso”.

Ao falar sobre a quantidade excessiva de moedas no mercado, Broetto lembrou que Pump.Fun e Sun.Pump, plataformas de criação de tokens na rede Solana (SOL) e Tron (TRX), respectivamente, aceleram essa criação de novos ativos. Com isso, o investidor comum não consegue acompanhar qual é a melhor narrativa e, consequentemente, as melhores moedas.

“Focar mais no bitcoin, em vez de diversificar em várias moedas, acaba sendo uma proteção maior do que tentar acertar a melhor cripto do momento”.

Um cassino cripto chamado memecoin

Não há como não mencionar as memecoins. Esse segmento da indústria blockchain é um grande drenador de liquidez, onde investidores apostam qual será a cripto que os fará enriquecer mais rápido. Um grande exemplo foram as memecoins lançadas pelo casal Trump.

O presidente dos Estados Unidos lançou o token $TRUMP três dias antes de sua posse. Em poucas horas, a altcoin disparou, chegando a ser listada nas principais exchanges do mercado de criptomoedas e, ao ser negociada na Binance, teve seu ápice de US$ 75. No entanto, pouco tempo depois, Melania Trump decidiu lançar sua memecoin, fazendo com que investidores retirassem capital da cripto de seu esposo.

A expectativa de que a altcoin $MELANIA crescesse da mesma forma que sua antecessora levou investidores a perderem dinheiro comprando a criptomoeda em topos de US$ 5, US$ 8 e US$ 13, enquanto hoje ela luta para se manter acima da marca de US$ 1.

“Hoje é muito fácil entrar nas memecoins, e isso meio que despertou um comportamento de cassino nas pessoas, em que elas preferem arriscar, colocando meia Solana em uma moeda dessas, que pode bater dez vezes, e aí depois a pessoa vai apostar em mais dez, o que acaba virando um comportamento de jogo mesmo”, observou Terranova.

O VC aponta que esse tipo de comportamento apenas mostra que as pessoas estão cada vez menos cuidadosas.

“Então, eu acredito que mudou, como sempre muda, o paradigma de como funciona o mercado. Todo ciclo é diferente, todo ciclo tem coisas diferentes, e, infelizmente, este parece ser um ciclo em que descobri que metade do mercado, ou mais — na verdade, mais que metade do mercado — tem algum problema com apostas, mas mascara isso, se chamando de investidor e colocando dinheiro em memecoins”.

O momento atual do mercado de criptomoedas reforça que não há roteiro fixo para os ciclos: enquanto o Bitcoin quebra recordes impulsionado por ETFs, as altcoins enfrentam desafios com a fragmentação de liquidez para as memecoins e a hesitação institucional.

Ainda que uma ‘alt season’ tradicional pareça improvável, oportunidades pontuais persistem para projetos com fundamentos sólidos. Sendo assim, este cenário exige dos investidores, além de paciência, uma análise rigorosa para separar inovação de apostas especulativas. Como destacam os especialistas, este ciclo pode marcar o amadurecimento do mercado — onde a qualidade, e não o hype, dita o sucesso.

Compartilhe agora

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *