Claudia Mancini
é jornalista e cientista política, especializada em negócios, blockchain e economia digital

Liliane Tie, do WIB, é a primeira entrevistada da série Corrente de Mulheres do Blocknews

Liliane Tie, líder do Women in Blockchain Brasil, trabalha pela diversidade no ecossistema.

A partir de hoje (8), Dia Internacional da Mulher, o Blocknews vai publicar uma série de entrevistas com mulheres que trabalham com essa tecnologia. E para isso, faremos uma corrente de entrevistas: quem é entrevistada escolherá a próxima, que ela mesma entrevistará depois. Além disso, criamos a categoria Mulheres em Blockchain para publicar essas conversas. E publicar sempre, porque esse tema não começa e acaba hoje.

Assim como no setor de tecnologia, estima-se que as mulheres sejam apenas cerca de 15% da força de trabalho em blockchain. Muitas startups nem têm profissionais mulheres. Por isso, vamos mostrar quem são as profissionais que estão ajudando a construir o ecossistema blockchain no Brasil e no exterior. Serão histórias inspiradoras, com certeza.

E a corrente de entrevistas começa com Liliane Tie, líder da comunidade Women in Blockchain (WIB) Brasil. Na entrevista abaixo ela fala sobre como blockchain chamou sua atenção por uma questão de família. E conta as novidades do WIB em 2021. Na é Liliane que entrevista Dari Santos, presidente do Instituto Alinha. O Alinha usa blockchain para que costureiras ganhem preços mais justos na cadeia da moda.

BN: Qual sua história com a tecnologia?

LT: Fui administradora de bancos de dados (DBA) e a primeira coisa que quis entender quando ouvi sobre Bitcoin, entre 2015 e 2016, foi a parte tecnológica. Mas levei um bom tempo para entender os meandros daquilo que se propunha a ser tão revolucionário. Para mim, blockchain fazia sentindo porque inha na família histórico de imigração e trabalho no exterior. Lembro como se fosse hoje – eu tinha 16 anos – o desespero para descobrir o paradeiro de uma remessa internacional que não chegava. Sem contar que as taxas eram muito altas, então meu pai não podia fazer remessa todo mês. Se fosse mulher então, pior ainda, porque ganhavam menos do que os homens no Japão. Tudo isso agravado por um fluxo de dinheiro entres países, entre grandes bancos e processos manuais, engessados e muito lentos.

BN: Como surgiu o Women in Blockchain (WIB) no Brasil?

LT: Sou uma das iniciadoras do movimento junto com a Delza Carvalho, fundadora da Re.Org Inova que se mudou para Belo Horizonte, mas esteve muito ativa desde o início, em 2017, até final de 2018. Nos reencontramos durante um dos primeiros eventos de blockchain em São Paulo. Público majoritariamente de tecnologia e do mercado financeiro, ou seja, lotado de homens engravatados). Lembro dela me dizer: “Lili, quase não tem mulher aqui. A gente precisa fazer alguma coisa”. Dava para contar nos dedos de uma mão, realmente. Eu recebi aquilo como um balde de água fria. Muitos anos trabalhando em ambientes sem diversidade acabam cegando a gente. É preciso coragem para se abrir e desconstruir primeiro os seus próprios vieses inconscientes. Acho que a WIB nasceu naquele dia.

BN: Houve participação de outros movimentos?

LT: Os primeiros apoios vieram de outras profissionais da minha área, líderes de coletivas de mulheres na tecnologia em São Paulo como Desprograme, MariaLab, Codamos e WomakersCode. De Curitiba, veio o apoio das Techladies através da embaixadora Camile Just. Após muitos cafés com mentoria para mulheres, veio o convite para participar do primeiro evento – a Virada Empreendedora, sob curadoria da Cassiana Buosi, um dos braços-direitos da Ana Fontes na Rede Mulher Empreendedora. Foi ali que a Ciranda de Morais da She’s Tech de Belo Horizonte também nos conheceu e até hoje nos ajudamos. Nesse meio tempo, foram se conectando à WIB, community builders em Salvador, Curitiba, Campinas e a mais ativa, Marcela Gonçalves (Chief Development Office da Multiledgers), no Rio de Janeiro. A primeira empresa que nos deu espaço foi a Foxbit, em 2017.

BN: Houve integração com movimentos similares fora do Brasil?

LT: A gente não conhecia os movimentos WIB e similares lá fora no início. Com o tempo fui sendo adicionada em alguns grupos e houve iniciativas de integrar os movimentos. Enquanto isso não se consolidava, achamos mais importante conhecer e conectar as mulheres que estavam começando a empreender com blockchain no Brasil e democratizar esse conhecimento com um pouco mais de representatividade. Foram mais de 4 mil pessoas que conseguimos impactar, a maioria presencialmente. Preciso agradecer principalmente à Campus Party e ao Social Good Brasil, pois foi graças aos curadores desses eventos que muitas pessoas e instituições ficaram sabendo que a gente existia e ouviram sobre blockchain pela primeira vez, conosco.

BN: Qual o perfil desse grupo?

LT: O grupo inicial foi ficando bem diverso do ponto de vista profissional. Já do ponto de vista socioeconômico, etário e de raça, não somos tão diversas quanto gostaríamos. Acho que isso reflete privilégios que tivemos ao longo da vida. Sempre que podemos, nos esforçamos para criar espaços de acolhimento. Nem sempre as pessoas interagem, mas já tivemos algumas conversas transformadoras. Eu estimulo sempre os “open spaces”, então a gente nunca sabe o que pode sair de lá. Mas, lembro que num dos momentos mais dramáticos, em que muitos grupos estavam se desfazendo por posicionamentos políticos, uma pessoa agradeceu por termos um ambiente saudável, mesmo entre opiniões diferentes.

BN: Você trabalha com a tecnologia blockchain?

LT: O meu trabalho com a Women In Blockchain ainda é muito voluntário, mas continuo fazendo com o maior prazer. Blockchain, na minha visão, é uma das tecnologias mais importantes para o ESG (movimento pró-governança ambiental, social e corporativa) nas empresas e para o capitalismo de stakeholders. Mas, a tecnologia sozinha não faz milagres e é preciso alertar líderes de hoje e de amanhã, porque essa agora é uma demanda de grandes investidores. Já estamos testemunhando como as transformações digitais podem agravar velhas desigualdades e ameaçar democracias. Isso necessariamente passa por uma maior compreensão sobre dados e modelos de governança em vários níveis. Estamos conseguindo levar essa mensagem através de parcerias com outros coletivos, instituições de ensino e de interesse público. Mas gostaríamos de falar mais com empresas e com profissionais que são bons em planejar e executar projetos que implicam em mudanças organizacionais e sistêmicas. Segundo pesquisa do Gartner, na América do Sul, com o Brasil em destaque, houve um incremento de 1% para 6% do total de casos de uso com Blockchain no mundo, de 2019 para 2020. Ainda é muito pouco quando comparado com outras regiões.

BN: Temos poucas mulheres em blockchain. Mas acha que já podemos dizer que conseguimos alguma conquista nessa área?

LT: Comparando com 2017, com certeza. No início, conhecíamos todas as poucas mulheres que estavam empreendendo com blockchain no Brasil. Já hoje, perdemos de vista. Ainda assim, o relatório de 2020 do Distrito mostrou que a desigualdade de gênero nos quadros societários de startups blockchain é uma das mais altas. E não temos números precisos sobre quantas de nós estamos levando blockchain através da ciência, das universidades e das escolas. Na minha visão, isso é estratégico num país que viu explodir o número de denúncias de crimes contra a economia popular, com e sem criptos, nos últimos anos.

BN: Vc acredita num quadro melhor nos próximos anos?

LT: Acredito que sim, em especial com a nova geração. Mas, por enquanto, os problemas estão aumentando proporcionalmente. Como boa parte do sucesso do ecossistema depende da popularização dos criptoativos e por estar ligado a um conhecimento que antes era restrito, essa curva de aprendizado não está acompanhando a desinformação nas redes. Porém, a CVM está atuando e está preocupada em capacitar professores. Tive o privilégio de participar de uma turma de planejamento financeiro pessoal e familiar. E para minha surpresa, esta é uma área onde a maioria de profissionais com certificação para atuação no mercado são mulheres.

BN: Blockchain pode ter um papel também no suporte às mulheres?

LT: Sim. Nós, mulheres, não somos coisas para serem contadas. Ou grupos de consumidoras em potencial a serem exploradas através dos nossos dados. Quando falamos de blockchain, é mais sobre: Quantas mulheres estão sendo salvas da violência doméstica com Blockchain? Quantas costureiras tiveram suas peças melhor remuneradas e puderam alimentar seus filhos graças a uma cadeia mais justa com Blockchain? Quantas mulheres deixaram de cair em golpes financeiros por conseguir distinguir uma oferta fraudulenta mesmo quando vinda de uma pessoa da confiança dela? Quantas meninas adolescentes hoje enxergam na tecnologia possibilidades de trabalho no futuro? Daqui a alguns anos, blockchain vai estar em toda parte. Será que estamos preparando a juventude de hoje para ter trabalho amanhã?

Estamos vendo vários movimentos acontecendo (e não é de hoje), startups surgindo em toda parte, mas será que nosso país está criando de verdade um ambiente propício para o florescimento de um ecossistema com o real sentido da palavra? Para as empresas que ainda estão se encontrando após esse um 2020 turbulento, fica o chamado para tornar projetos de impacto social uma prioridade estratégica, fomentar ecossistemas de parceria aberta e inovadora e repensar relacionamentos com seus stakeholders. Por fim, devemos todas e todos nos capacitar como criadores de mudanças desse ecossistema, tanto dentro quanto fora das empresas.   

BN: Quais são os planos para a WIB em 2021?

Estamos estreitando parcerias com instituições de ensino e algumas iniciativas de educação independentes. Estamos mapeando nossas ações cada vez mais com as metas dos ODS (Objetivo de Desenvolvimento Sustentável da ONU) 4, de Educação, 5, de Igualdade de Gênero e 16, de Paz, Justiça e Instituições Eficazes. Mas, também queremos dar mais visibilidade às mulheres e aos negócios que estão impactando, com blockchain, os demais ODS, que são 17, no total.

Como já mencionei, hoje já não conhecemos todas as mulheres que estão empreendendo ou trabalhando com blockchain de alguma forma. Então, gostaria de reforçar o convite para que se conectem conosco através das nossas redes sociais ou pessoais. O podcast Corrente de Mulheres também está voltando reformulado, após os feedbacks que recebemos. Depois de um ano sem encontros presenciais, que era o espírito da nossa comunidade, ter um espaço mais acolhedor do que os grupos de mensagens é importante para continuarmos nos apoiando nesse momento difícil. Ouviremos histórias de mulheres que fizeram suas transições de carreira e trabalham com blockchain, inclusive para empresas de fora do Brasil. Uma áudio-coluna do Blocknews vai manter a gente bem informada com as últimas notícias do setor. E teremos, também, um bloco de mini-aulas sobre blockchain e negócios a cada episódio.

Sei que não está fácil ver um mundo literalmente morrendo diante dos nossos olhos, mas também existe uma nova economia nascendo e se desenvolvendo rapidamente, totalmente digital e de baixo carbono. Uma boa notícia para muitas de nós que já vêm mudando hábitos de consumo nesse sentido. Precisamos quebrar o ciclo histórico e fazer parte dessa nova economia. Se cuidem e cuidem dos seus, porque o Brasil não vai ficar de fora.

0 Comentários

Deixe um comentário

XHTML: Você pode usar estas tags: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>