Claudia Mancini
é jornalista e cientista política, especializada em negócios, blockchain e economia digital

Biobanco da Amazônia testa blockchain para registro de DNA da floresta e uso de biomoedas

Biobanco da Amazônia usará blockchain para propriedade intelectual. Imagem: Amazon Biobank

Está previsto para 2022 o início da operação do biobanco da Amazônia, que usará blockchain. O biobanco armazenará o sequenciamento genômico de espécies da floresta, ou seja, seu DNA. Os próprios moradores da região poderão coletar os materiais para o Amazon Biobank.

A iniciativa faz parte do Projeto Amazônia 4.0, dos irmãos Carlos e Ismael Nobre. Em 2020, em meio ao gritante desmatamento e queimadas na Amazônia, Carlos citou blockchain como umas das formas de preservar a floresta de forma sustentável. Assim, pode ajudar também a gerar renda.

O projeto tem patrocínio da University Blockchain Research Initiative (Ubri, na sigla em inglês). Essa é uma iniciativa da Ripple, de transferência de dinheiro por blockchain e criadora da moeda XRP. A rede tem mais de 40 universidades no mundo, como USP e FGV. A Ubri financia projetos.

Os pesquisadores da USP estão desenvolvendo a arquitetura técnica do biobanco. Marcos Simplício, professor do Departamento de Engenharia de Computação e Sistemas Digitais da Escola Politécnica da USP, lidera o grupo. Ele é membro do Instituto de Engenheiros Elétricos e Eletrônicos (IEEE).

Biobanco testa XRP e Hyperledger

Blockchain entra no biobanco da Amazônia para garantir os direitos de propriedade intelectual do trabalho. Assim, a rede rastreará contribuições de pessoas e organizações não governamentais (ONG). Blockchain vai gerenciar a economia digital do sistema, informou o professor.

Em entrevista exclusiva ao Blocknews, Simplício também informou que o grupo está definindo os requisitos e provando tecnologias. Dentre elas, está blockchain. Estão testando plataformas Hyperledger Fabric e XRP Ledger da Ripple. “Porém, essas escolhas são temporárias, para testes de viabilidade.”

“O mecanismo de distribuição de dados precisa ser muito robusto. Estamos falando de muitos gigabytes ou até terabytes por sequência de DNA”, disse o professor.

Isso faz sentido, já que a Amazônia é um dos maiores biomas com maior biodiversidade do mundo. Mas, boa parte de suas características é desconhecido.

Uso de rede permissionada é única certeza

Por enquanto, em relação a blockchain, a única certeza é que será uma rede permissionada. De acordo com o professor, o objetivo é garantir um mecanismo de consenso o mais leve possível.

“Não faria sentido propor um projeto que tem sustentabilidade como pano de fundo e usar mecanismos de consenso custosos, como proof-of-work, típicos de blockchains abertos.”

Segundo Simplício, o grupo estuda, ainda, fazer interface com plataformas de terceiros. Especialmente com operações não intrínsecas ao biobanco. Por exemplo, a troca de “biomoedas” entre os usuários.

No início, as universidades serão os nós da rede. Mas, em algum momento, as ONGs do projeto poderão ser nós mantenedores. Dessa forma, terão a cadeia completa. Ou, ainda, auditores, que têm os dados principais dos blocos para evitar tentativas de fraudes.

Mas poderá haver uma rede não permissionada também

No futuro, com a expansão da rede, deve haver outros nós. Principalmente como auditores. Isso porque essa parte da blockchain do biobanco da Amazônia não vai ser permissionada.

Carlos Nobre, pesquisador da USP reconhecido internacionamente, acredita que tecnologias da 4ª Revolução Industrial poderão ajudar a entender o valor tangível da biodiversidade.

Assim, será possível, de forma sustentável, vender produtos da floresta para setores como o farmacêutico, cosmético e alimentício. Ou seja, derrubar e queimar a biodiversidade é queimar dinheiro.

De acordo com uma pesquisa brasileira, há 14.003 espécies de plantas com sementes na Amazônia. Só de árvores, há 6.727 espécies. No entanto, muitas dessas plantas têm características bioquímicas desconhecidas.

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