Claudia Mancini
é jornalista e cientista política, especializada em negócios, blockchain e economia digital

Agritech lançará Cultecoin, que foca em renda para agricultura familiar

Bianca e Claudio, que criaram a cultecoin para agricultura familiar. Foto: Culte.

Se você consome feijão, mandioca, abacaxi e leite, as chances são bem grandes de que boa parte da sua alimentação venha de pequenos produtores. A agricultura familiar responde por 77% dos 5 milhões de estabelecimentos agrícolas do país, mas recebe apenas 14% do financiamento disponível para setor. E é aí que entra a Cultecoin, um utility token que vai entrar no mercado no próximo dia 13 de setembro.

A primeira leva é de 21 milhões de tokens, 10% do total, a US$ 0,05 cada. O objetivo é o uso do token no ecossistema que a Culte está criando desde 2019. E esse tem foco nos agricultores familiares e que dentre outras coisas busca excluir intermediários.

Os serviços hoje incluem conta digital, emissão de boleto, pagamento em cartão de crédito por link e marketplace para os produtores. Há também empréstimos, mas a ideia é a Cultecoin substituir isso pelo sistema barter, a troca de produtos entre agricultores e fornecedores de insumos muito usada na agricultura. Assim, o token deve girar em torno do marketplace.

“Não querem cobrar juros como hoje. Queremos entregar semente, adubo e máquinas, por exemplo, e receber do agricultor a produção, que colocaremos no marketplace”, disse Claudio Rugeri, CEO e co-fundador da Culte. O motivo é porque a Cultecoin quer ter impacto social.

Cultecoin vai girar em torno do marketplace da agricultura familiar

Fora as trocas e compras, a Cultecoin também vai servir para pagamentos de taxas das contas digitais, por exemplo, e qualquer produto e serviço do ecossistema. A ideia é trabalhar direto com os agricultores, formando algo parecido com uma cooperativa. Outros projetos similares atuam com mais foco em cooperativas.

De acordo com Claudio, com o valor dos tokens, a Culte vai comprar suprimentos para um grupo de agricultores. Portanto espera conseguir preços melhores e em troca disso vai receber suas produções. E então, essas a Culte venderá no marketplace. Nessa plataforma, os agricultores também podem vender diretamente seus produtos e comprar o que precisarem. Quem usar a Cultecoin terá benefícios como preços mais baixos.

A startup participou com esse projeto no Lift-Lab, o laboratório de inovação da Fenasbac, a federação dos funcionários do Banco Central (BC) e que tem apoio do banco. Hoje, está também no hub de inovação do Banco do Nordeste e no Garoa Habitat, hub de inovação que foca em agricultura e tem parceiros como a Embrapa.

Claudio e Bianca Rugeri, fundadores da Culte, disseram ao Blocknews que depois da primeira fase, em que serão lançarão 21 milhões de tokens a US$ 0,05, 70% entrarão em etapas mensais no mercado nos próximos 50 meses. E os 20% restantes (42 milhões) ficarão no smart contract para negociação em bolsa, o que está previsto para 2022. Assim, o valor total dos tokens hoje é de US$ 10,5 milhões.

Plano é também rastrear produtos e usar identificação em blockchain

Além dos agricultores e de outros que usam o marketplace, os tokens podem interessar a investidores em criptomoedas que focam em projetos de impacto social. Além de investidores que usam esses tokens como reserva de valor. E ainda podem atrair quem quiser abrir conta na Culte.

Mas já está nos planos buscar fazer também o rastreamento das produções e identificação dos agricultores. “Muitos agricultores não têm documentação, CPF e endereço. Uma das formas de se trabalhar com isso é usar blockchain. Nossa ideia é integrar a plataforma com a de uma startup que já faça isso. Isso tem bastante na África”.

Com o rastreamento, fica mais possível colocar em marcha o plano da Culte de ser internacional. “E fazer isso via Cultecoin. Na Europa, é muito usado o QR Code e a rastreabilidade de alimentos. Nosso objetivo é levar essas informações e dar voz ao agricultor. Temos o MVP (produto mínimo viável) pronto”, afirma Bianca. O plano é ter avançado nisso até junho de 2022.

O Censo Agrícola de 2017 diz que a agricultura familiar emprega 10,1 milhões de pessoas no Brasil, o que é 70% do total que trabalha no campo. Além da falta de documentos, boa parte delas não tem conta em banco e acesso a empréstimo, então, nem pensar. Por isso, Claudio e Bianca acreditam no potencial de crescimento. “O valor bruto da produção agrícola é de cerca de R$ 800 bilhões ao ano. Se alcançarmos 1% desse mercado, são R$ 8 bilhões. Esperamos atingir isso em 5 anos”, disse o CEO.

Cultecoin nasceu de experiência com fazenda de arroz no Maranhão

O desenvolvimento da criptomoeda foi na BEP-20, token padrão da rede Binance Smart Chain. Não se usou o token Ethereum pelo preço das taxas na rede. Mas, a BEP-20 é compatível com o token ERC-20. Uma equipe interna desenvolveu o token e a GoBlockchain também dá suporte à startup. Por enquanto, o casal diz que não tem sócios.

A ideia da moeda surgiu da vivência de Claudio e Bianca ao comprar uma fazenda no Maranhão há 21 anos, onde plantam arroz irrigado. O CEO da Cultecoin é gaúcho, formado em administração hospitalar e foi a trabalho para o Maranhão, onde conheceu Bianca.

Na região da fazenda viram que os agricultores vizinhos não tinham recursos para investir, muitos não tinham CPF, não havia agências bancárias, mas burocracia tinha de sobra. Por isso, se juntaram a alguns amigos e deram financiamentos que mesmo pequenos, mudaram a realidade das famílias. Isso durou cerca de cinco anos.

O tempo passou e há cerca de 4 anos, depois de viagens pela Europa, onde a agricultura familiar tem recursos, e o aparecimento das criptmoedas, viram a oportunidade de conectarem pequenos produtores e financiamentos por meio de blockchain.

Mulheres não ficam inadimplentes

Com suporte do advogado Bruno Balduccini, do Pinheiro Neto Advogados, apresentaram o projeto à Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Assim, se asseguraram de que o token é reconhecido como utility e não criptomoeda, portanto, sem necessidade de regulação da autarquia.

Atualmente, o principal serviço da Culte é o de empréstimos de R$ 1 mil a R$ 20 mil. Rugeri envia os recursos para o Fidúcia e depois, como correspondente bancária, repassa os valores aos agricultores. A Culte já emprestou cerca de R$ 15 milhões para mais de 2 mil agricultores a juros de 2% a 6% ao mês.

“Desses, 30% são mulheres, que nunca ficam inadimplentes”, afirma Bianca, a CMO do negócio. Porém, os outros podem até atrasar, mas pagam, porque são preocupados em ficar com a conta em dia, completou. A base da startup é no Maranhão, mas opera em 20 estados, com concentração no nordeste. Tudo é feito de forma online, o que facilita as negociações.

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