Claudia Mancini
é jornalista e cientista política, especializada em negócios, blockchain e economia digital

Criptoativos se assemelham ao que gerou crise financeira de 2008, diz governo dos EUA

O Controlador da Moeda em exercício dos Estados Unidos (EUA), Michael Hsu, disse nesta terça-feira (21) que há semelhanças entre o crescimento dos ativos digitais e o surgimento, no inicio dos anos 2000, da crise financeira global que estourou em 2008.

A crise aconteceu por inadimplência que, por sua vez, surgiu com empréstimos imobiliários frenéticos dados por instituições financeiras. Os empréstimos aconteciam sem os devidos cuidados de considerar a capacidade de pagamento de quem tomou a dívida. Isso porque o setor usou uma engenharia financeira criando derivativos, como há em DeFi.

Hsu, que chegou em 2004 e viu de dentro do OCC a crise eclodir, fez a declaração num encontro na Blockchain Association. E disse que a associação tem o poder de “mudar os rumos e evitar uma crise”.

Logo no início, Hsu citou a frase “aqueles que não podem se lembrar do passado estão condenados a repeti-lo”, do filósofo e poeta George Santayana. A chamada crise do subprime nasceu também de uma “revolução”, indicou Hsu, que criou mecanismos para que os bancos pudessem emprestar mais. Importante lembrar que Hsu e outros reguladores viram isso de perto e nada contiveram os riscos.

Mundo dos criptoativos se tornou perverso, diz OCC

Michael Hsu, Controlador da Moeda interino dos Estados Unidos. Foto: OCC.

Citando o livro Fool’s Gold, da jornalista Gillian Tett, que fala da crise do subprime, Hsu questiona se assim como os bancos, o segmento de criptoativos está fazendo uma inovação perversa.

“Na semana passada, as bolsas ofereciam contas de poupança de moedas estáveis com ganhos anuais de 4% a 14,5%. Para os investires que buscam altos retornos, várias plataformas de DeFi oferecem staking (ganhar dinheiro deixando a cripto na conta), yield farming ou mineração de liquidez. Não precisa comprar ou vender. Como os retornos são gerados? Se alguém seguir o dinheiro, o que existe no final”, questionou.

O ponto, segundo ele, é que as plataformas DeFi e cripto estão principalmente com foco em aumentar as negociações. Assim, é raro que criem soluções para resolver os problemas da economia real e que protejam compradores e vendedores de fraudes ou que facilitem pequenas transações.

Para ele, uma corrida a moedas estáveis poderia desestabilizar o ecossistema. Porém, eventos como forks, ataques de hackers e empréstimos relâmpagos têm o mesmo risco. O OCC reconhece que até agora se superaram problemas que aconteceram. Porém, um fator que beneficia as criptos e DeFi hoje é que o uso é, em geral, “por quem acredita na tecnologia, sabe dos riscos e até pode perdoá-los”.

“Siga o dinheiro, entenda como se ganha e se perde”

Ele afirmou que realmente criptoativos e (DeFi) podem ser uma ameaça ao status quo do sistema financeiro, já que pregam a democratização, descentralização, segurança e nada de bancos. Isso porque “muita gente se sente ignorada e exploradas pelos bancos”.

No entanto, essas pessoas entram no ecossistema em busca de mais dinheiro e que seja seguro. E à medida que crescem no segmento, vão dominar as reações do setor ao que acontece, ou seja, podem criar corridas às plataformas e desestabilizar os DeFi e criptos.

Dessa forma, a inovação deveria seguir três pontos, afirmou: o primeiro é estar ancorada em propósito. Nesse caso, olhando não apenas para o que precisa ser melhorar, mas por que é importante que melhore. “Como DeFi está ajudando a ser menos caro ser pobre?”, perguntou.

O segundo ponto, afirmou, é questionar a tecnologia blockchain, o que pode reduzir os ganhos no curto prazo, mas gerar sustentabilidade no longo prazo. E por fim, “siga o dinheiro”, ou seja, “explicar como se ganha e se perde dinheiro”. E alertou: “A resposta não pode no disfarce de jargões se o objetivo é construir confiança e resiliência ao longo do tempo”.

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