Claudia Mancini
é jornalista e cientista política, especializada em negócios, blockchain e economia digital

Por trás das moedas de bancos centrais está o jogo geopolítico e de oportunismo comercial

Critptos têm sido um desafio para os BCs diz Kohlmann. Foto: Arquivo pessoal.

A crise de 2008, provocada a partir do sistema bancário e financeiro, gerou a necessidade de se buscar meios de circulação de valores monetários que estivessem menos expostos aos riscos de oscilações, de liquidez e de segurança do mercado de bancos tradicional.

Nesse contexto e com foco em agilidade, menor burocracia e controle, as criptomoedas foram desenvolvidas para facilitar fluxos financeiros oriundos de operações de comércio exterior, transferências, investimentos e demais necessidades de pagamentos.

Dessa forma, o bitcoin, a primeira criptomoeda lançada, revolucionou a forma de transacionar valores monetários e a própria evolução tecnológica do sistema financeiro e bancário mundial. Ao permitir a transferência de recursos em tempo real, sem considerar fronteiras físicas entre países, taxas cambiais, impostos, regras, burocracias e controles centrais, logo ganhou usuários, concorrentes – outras criptomoedas surgiram – e relevância para as operações de comércio local e internacional, além de demais trocas financeiras e de pagamentos.

Baseada em tecnologia blockchain – descentralizada, sem uma clearing ou consolidadora central -, sem contar com lastros em moedas ou ativos reais, e sem ser submetida a regras e controles, seu uso e disseminação passou a ser questionada do ponto de vista da legalidade, segurança e estabilidade por reguladores, agentes do mercado financeiro e empresas em geral.

Bancos centrais foram desafiados

Receios sobre a utilização de transferências em criptomoedas para financiar o terrorismo, crime organizado e demais atividades criminosas; falta de transparência e controle sobre segurança de dados; bem como negociações especulativas com efeitos sobre o sistema financeiro real, geraram o alerta para se discutir formas de regulamentar e, ou também, controlar as moedas digitais.  

Bancos Centrais passaram a visualizar, a partir da expansão acelerada das negociações e dos volumes financeiros movimentados em uma esfera paralela, “virtual” e sem fronteiras, desafios para a implementação de políticas monetárias e os efeitos das taxas de juros nacionais.

Da mesma forma, oportunidades foram sendo visualizadas para ao mesmo tempo endereçar essas lacunas e obter ganhos de poder e financeiros diversos.

Do lado privado e empresarial, a mais relevante iniciativa é a Associação Libra, liderada pelo Facebook, para o lançamento de sua própria moeda virtual. Ao ser ancorada na sua base de usuários, aí considerando também os de seus aplicativos e empresas coligadas, essa iniciativa pode permitir ao Facebook o desenvolvimento de ambiente para a geração de comércio eletrônico, transferências e investimento sem precisar se submeter a atores do sistema financeiro tradicional e a regras nacionais e de legislações locais de internet. A libra teria um lastro em uma moeda física real, sendo o que se chama de stablecoins, podendo ser considerada menos instável do que as criptomoedas pioneiras.

Geopolítica e criptomoedas

Pela geopolítica, a China observou que a utilização de criptomoedas no comércio e investimento internacional poderia acelerar um processo de perda de poder e de importância do dólar americano na economia mundial, algo que é de interesse chinês, enquanto busca internacionalizar o Yuan/Renmbine.

Nesse sentido, a China está desenvolvendo sua própria moeda virtual, lastreada na moeda física, e com controle e regulação do governo e banco central do país. Em um primeiro momento, esse movimento está sendo acelerado no mercado doméstico chinês, via as grandes empresas digitais locais, tais como Alibaba e WeChat, mas espera-se que seja utilizado em sua principal plataforma de projeção de poder econômico e político internacional, a iniciativa “One Belt, One Road”

Esse movimento chinês não é isolado e de alguma forma está sendo estimulado pelos reguladores financeiros. O Banco de Compensações Internacionais (BIS), organização multilateral de supervisão dos bancos centrais, e o Financial Stability Board (FSB) , fórum de temas econômicos e financeiros do G20, discutem e estudam meios de os bancos centrais e governos criarem mecanismos de regular e controlar o uso de criptomoedas. O desenvolvimento de ambientes oficiais de negociação com moedas virtuais e a própria criação de uma criptomoeda é a principal alternativa desenhada, quem vem sendo chamada de Central Bank Digital Currency (CBDC).

O próprio Banco Central do Brasil anunciou a criação de um grupo de trabalho para formatar e lançar um CBDC no país a partir de 2022, orientado em um primeiro momento para o mercado de câmbio e institucional financeiro.

CBDCs precisam de capilaridade

Os CBDCs não tendem a ser substitutos às criptomoedas existentes, mas sim concorrentes, ao oferecer moedas digitais com nível de segurança maior, já que terão lastro, controle e proteção de dados e de movimentações. Porém, com elementos de menor competitividade, tais como maior burocracia e menor agilidade, em especial para transações internacionais.

Essas iniciativas oficiais, para se tornarem alternativas viáveis às criptomoedas privadas, necessitam de volume, abrangência e capilaridade. Aos governos, uma potencial vinculação de programas sociais, previdenciários e de transferência de renda utilizando CBDCs, ou mesmo serviços públicos que aceitem essas moedas como pagamento, tais como transporte urbano, significaria a massificação dessa alternativa.

De qualquer forma, são evoluções e acontecimentos para ocorrerem ao longo da próxima década, que poderão ter implicações não somente na forma como as pessoas comuns usam o sistema financeiro e de pagamentos, mas principalmente, como a economia, política e o poder internacional se molda, em jogos geopolíticos e de oportunismos comerciais.

*Gabriel Berton Kohlmann é especialistas em políticas públicas e análise de negócios. É mestre em Economia Internacional pela Universidade de Ciências Aplicadas de Berlim.

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