Claudia Mancini
é jornalista e cientista política, especializada em negócios, blockchain e economia digital

Uso de blockchain no agronegócio tem impacto positivo no retorno sobre investimento

A discussão econômica sobre a certificação de produtos agrícolas é ampla e complexa nos dias atuais. E o debate sobre qual é o nível adequado da intervenção mercadológica, setorial, sustentável e governamental na certificação digital registrada distribuída é muito procedente.

De uma tendência, blockchain passou a ser uma exigência de nichos de mercado e de indústrias. A tecnologia tem demonstrado que o registro da certificação digital passa a ser cada vez mais essencial.

Porém, é obrigatória e mais eficiente para mercados com assimetria de informação, assim como os menos eficientes em questões ambientais ou outras externalidades associadas à produção ou consumo.

Portanto, quais são as peças fundamentais que precisam ser trabalhadas no processo de certificação digital de alimentos globais, tendo a rastreabilidade como a garantia de origem de produtos agrícolas? Qual a estrutura ideal de decisão dos setores privado e público no que diz respeito à certificação da produção brasileira de alimentos?

Há alguns anos, do ponto de vista do papel do setor público, a questão central era se a política de certificação e rastreabilidade deveria ser mandatória ou de adesão voluntária.

Passou a ser obrigatória, porque o mundo deseja saber a procedência dos produto, como foi produzido, que insumos usaram e demais informações, em detalhes.

Mas, experiências internacionais parecem sugerir que há espaço para ambas estratégias, cabendo estudar cada caso específico. Para organizar o raciocínio ao redor dessa questão-chave, uso a estrutura analítica proposta pela economista Kathleen Segerson.

Temos como exemplo os setores da carne vermelha, fertilizantes, sementes, grãos, frutas, vegetais, produtos alimentícios derivados, subprodutos de óleos e derivados de grãos que permite uma excelente avaliação empírica das considerações teóricas apresentadas.

Existem, nessas cadeias, exemplos de adesão voluntária a processos de certificação. Assim como há a importância do setor público nas políticas de controle sanitário e de rastreabilidade do produto exportado, sendo estas, de caráter mandatório.

Além desses setores, foram estudados também dois modelos de certificação no âmbito governamental: o Sistema Brasileiro de Identificação e Certificação de Origem Bovina (Sisbov), a Produção Integrada de Frutas (PIF) e a cadeia produtiva de grãos e commodities agrícolas em geral.

Concluiu-se de fato que projetos de blockchain nas cadeias do agronegócio promovem ganhos reais de valor agregado de preços efetivos na ponta para o consumidor, onde o mesmo consume e paga por produtos de melhor qualidade, procedência e com certificação digital.

Isso traz, de forma distribuída, benefícios tangíveis, largando na frente de setores que estão transformando, com inovação e tecnologia blockchain, a segurança, o compliance, a transparência e o crescimento mútuo entre os participantes.

Estudamos que o mercado procura por produtos de nicho, transformando-os em “especiais” e melhores, com extremo diferencial competitivo de mercado, ou seja, tendo ROI com resultados expressivos e margens.

Casos de sucesso com blockchain promovem diversidade, disrupção e novas formas de negócios às empresas que largam na frente em seus setores. Como é o caso do agronegócios, que se posiciona como produtos gourmet, sendo especiais e essenciais para o consumidor.

Eduardo Figueiredo é CEO & Fundador – SBR PRIME Inspection, Eng. Mecânico USP-Poli, Eng. Agronomo Esalq-USP, Mestrado em Agricultura de Precisão em Máquinas e Equipamentos – ESALQ USP, Doutorado em Economia Aplicada na Performance de Resultados na integração da cadeia Produtiva de Grãos – CEPEA ESALQ USP

A lenda do garimpeiro de tokens: será essa uma profissão em 2021?

Era uma vez, lá no Oeste Selvagem, garimpeiros solitários que foram para as montanhas em busca de ouro. O principal trabalho deles era procurar veias do metal ou rios para serem garimpados. Nos velhos e bom tempos, o garimpeiro era mais um caçador de tesouros e um aventureiro, indo para lugares desertos com picareta, pá e panela, à frente dos mineradores.

Em comparação ao que era antes, hoje, o trabalho deles é chato, mais parecido com o de um cientista que avalia colunas de dados. E uma vez que a maioria dos depósitos de ouro são conhecidos, ou ao menos mais fáceis de se acharem por causa da tecnologia, isso agora é mais uma questão legal e de logística sobre se pode-se ou não pegar o “tesouro” que está enterrado.

Ativos instáveis e moedas vacilantes

Graças às consequências da pandemia, estamos vivendo um período em que as moedas globais poderiam se tornar instáveis ou até desaparecer completamente. Há, ainda, um número incrível de produtos financeiros que não são, na realidade, lastreados por nada. Eles só esperam uma instabilidade econômica para desabarem. Essa situação é, em particular, ruim se você quiser guardar dinheiro. A inflação mostra com clareza que as moedas fiat, como dólar, euro e até o franco suíço, não são adequados para serem uma poupança por décadas.

Mas todo mundo precisa ter uma economia guardada de alguma forma para enfrentar dias ruins ou os tempos difíceis que deveremos ver mais à frente. O ideal é que a poupança não suma no primeiro sinal de problema. Assim, a melhor coisa a fazer é investir esse dinheiro. Uma vez que as moedas e produtos financeiros de alto risco não são lastreados por nada, então não atendem aos requisitos de um investimento de longo prazo e seguro. Vamos considerar algumas alternativas.

Tokens resolvem o maior problema dos ativos físicos

Uma das alternativas mais comuns é ter metais preciosos como ouro, prata e platina, por exemplo, no estado físico. Porém, isso não é, provavelmente, a melhor solução para a maioria das pessoas. E, com certeza, não o é para grandes quantidades. Na melhor das hipóteses, não é prático e, pior, tem um risco gigantesco de segurança – a menos que você more em Fort Knox (cidade dos EUA e sede do Exército do país).

O mesmo problema se aplica a outros ativos físicos, como arte, carros antigos e imóveis. Mas, é nesse problema prático e físico que a tokenização pode ajudar.

Com a ajuda de blockchain, grandes quantidades de valores digitais, ou tokens, podem finalmente ser guardados de forma segura e praticamente num só lugar. Isso porque tudo o que é necessário é uma chave de segurança para guardá-lo de forma segura.

Tokens representam ativos reais e valiosos

Os tokens são tipicamente representantes de valores reais, em geral em fragmentos. Essa habilidade de dividir algo em pedaços digitais chama-se fracionamento. E é uma absoluta mudança de jogo. Em especial porque os pedaços podem ser de qualquer coisa com valor, mas sem as questões de praticidade de se guardar e manter seguros ativos físicos.

Essa habilidade só é possível através da tecnologia digital e requer uma recalibragem de como pensamos os ativos e a propriedade deles. Agora, ouro e prata, em barras ou até nas minas, também podem ser de propriedade de alguém em pedaços digitais e, portanto, comercializados ou emprestados entre muitas pessoas. Você pode até tokenizar a licença da mina, assim cada proprietário terá uma participação na receita.

Assim, quadros, carros, casas, tudo pode ser tokenizado em pedaços digitais. Não tem dinheiro para comprar uma casa ou uma barra de ouro? Sem problemas, você pode comprar apenas um centésimo disso – ou até menos. É muito fácil de se fazer isso com tokens. E uma vez que o valor é tokenizado, é armazenado num cofre digital seguro e não na gaveta de meias ou debaixo da cama.

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Garimpeiros de tokens deve buscar ativos que possam ter tornar pedaços digitais
Procurado: Garimpeiro de tokens

Portanto, sozinhos, os tokens são incrivelmente poderosos e são ferramentas digitais versáteis para lidar com riqueza no mundo real. Porém, esses tokens não aparecem sozinhos. É preciso um emissor, que tem o direito sobre todo o valor do ativo e pode oferecê-lo para venda no formato de tokens. Esse processo de tokenização ainda não está muito disseminado e, em geral, os proprietários dos ativos não se dão conta de que isso seja possível. Portanto, quem vai encontrá-los? E tokenizar o quê?

A demanda por ativos seguros e reais vai disparar uma verdadeira “corrida do ouro” num futuro não muito distante. Assim como aconteceu no passado em períodos de incerteza. E assim como os garimpeiros do Velho Oeste procurando por minas de ouro nas montanhas, os “garimpeiros de tokens”, num futuro próximo, vão buscar ativos que possam ser tokenizados. E vão ajudar os atuais proprietários a entender a riqueza sobre a qual estão sentados.

A tokenização, em particular o fracionamento, é a ferramente para atender a real promessa de distribuição de riqueza. Isso porque abre oportunidades de propriedade, riqueza e estabilidade financeira por meio de trocas peer-to-peer (P2P), pessoa-com-pessoa, sem intermediários. A tecnologia está pronta. Agora, o que falta são pessoas que podem sair pelo mundo identificando ativos tokenizáveis que façam sentido. Em especial para fracionamento.

O que seria o bom garimpeiro de tokens em 2021?
  1. Seja esperto e resistente ao Fomo (fear of missing out), o medo de perder uma chance. Seja cauteloso, em especial, com projetos DeFi (finanças descentralizadas). Tudo o que parece muito bom para ser verdade, é muito bom para ser verdade, ou seja, não há almoço grátis. Há tantas fraudes e projetos que já nascem mortos que às vezes é difícil dizer quais têm mesmo potencial.
  2. Faça decisões de investimento baseadas em fatos e não na moda, na onda, no “potencial”. O ecossistema blockchain está cheio dessas coisas, então mantenha-se em casos já testados e em classes de ativos com um histórico que você possa checar.
  3. Lembre-se de que blockchain não é um curativo mágico e que conserta tudo. Como qualquer tecnologia, tem suas limitações. Pense nos aplicativos. Para tudo hoje há um ou mais app. Porém, às vezes, isso só torna as coisas mais complicadas. É o mesmo com blockchain. A tecnologia, por sua natureza, tem usos específicos para os quais é perfeita e outros para os quais não é. Portanto, implemente tokens por sua força, não porque é uma tecnologia nova charmosa. A tecnologia precisa se encaixar perfeitamente no seu caso, ao invés de ter um caso que precisa estar envolto nas limitações de blockchain…
  4. Faça sua pesquisa e trabalhe com parceiros confiáveis. Um lado bom desse ecossistema tão novo e volátil é que as empresas e as pessoas que sobreviveram até aqui estão, em geral, fazendo algo certo. Então, procure empresas estabelecidas que não prometem dinheiro de graça. Mas acredite em blockchain e em tokenização como forças do bem.

O garimpeiro de tokens seria uma nova profissão? Pode ser em 2021.

* Johannes Schweifer é CEO da Coreledger, empresa de tokenização localizada em Baar, na Suíça. Este artigo foi publicado originalmente em sua perfil no LinkedIn.

Os tokens de futebol estão liberados? A CVM mudou ou token do Vasco é diferente?

Em 2015, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) analisou a emissão dos tokens do Panela FC, que ficaram conhecidos com paneletas, segundo o qual era ofertada a possibilidade da aquisição de cotas dos direitos econômicos de atletas de futebol profissional. De acordo com a oferta, adquirindo esses direitos, o investidor estaria ajudando os clubes brasileiros a manter os seus talentos por mais tempo, bem como se beneficiaria dos ganhos financeiros em uma possível futura venda desse atleta.

A CVM considerou a operação da aquisição de parte de um Contrato de Aquisição de Porcentagem de Direitos Econômicos de Atletas de Futebol Profissional como um contrato de investimento coletivo ofertado publicamente, e como tal, caracteriza-se como valor mobiliário sujeito ao regime da Lei nº 6.385/76.

A rigor, a CVM aplicou o conhecido Teste de Howey tropicalizado, apurando que a oferta possuía as características de valor mobiliário, conforme o inciso IX do art. 2º da Lei nº 6.385/1976. Primeiro, concluiu que haveria investimento, pois os investidores aplicavam recursos financeiros com a intenção de obter um ganho derivado desse investimento, ou seja, havia a previsão de distribuição de rendimentos.

Em segundo lugar, o investimento era formalizado por um Contrato de Aquisição da Porcentagem de Direitos Econômicos de Atletas Profissionais de Futebol. Em terceiro, era um investimento coletivo, pois foi oferecido indistintamente ao público em geral por meio de website.

Era oferta pública

O quarto elemento analisado foi se havia alguma forma de remuneração oferecida aos investidores, o que também existia por meio da distribuição do resultado da venda de atletas profissionais de futebol, prevista em contrato. A quinta questão avaliada foi se a remuneração oferecida teria origem nos esforços do empreendedor ou de terceiros, o que ficou mais uma vez caracterizado, pois os investidores recebem remuneração sem realizar qualquer esforço.

Por fim, os contratos foram ofertados publicamente, tendo em vista que a proposta de investimento foi ofertada ao público em geral por meio de seu website. Ou seja, por todos os ângulos que a questão foi analisada, entendeu a CVM que estavam presentes os elementos para caracterizar as paneletas como valores mobiliários, sujeitos a avaliação prévia da CVM para autorização ou dispensa.

A questão ganha uma complicação, pois de acordo com o Regulamento Nacional de Registro e Transferência de Atletas de Futebol, em linha com o art. 18ter do Regulamento da FIFA sobre o Status e a Transferência de Jogadores, somente clubes e atletas têm direito a deter direitos econômicos de jogadores. É vedado a terceiros obter “direito de receber parte ou a integralidade de valores pagos ou a serem pagos por uma eventual transferência de atleta entre clubes, ou de obter qualquer direito em relação a uma eventual transferência.”

Há uma diferença crucial entre paneleta e token do Vasco.

Se a CVM já havia barrado emissões baseadas em direitos econômicos relacionados a jogadores e a CBF corroborou um regulamento da FIFA proibindo a detenção desses direitos por terceiros, o que mudou para aprovarem o token do Vasco?

O mercado se alvoroçou com o recente anúncio do Vasco da oferta pública de ativos digitais junto com a área de digital assets do Mercado Bitcoin, conhecida exchange de criptoativos do mercado brasileiro. Como diz um grande amigo, o diabo mora nos detalhes, e fazendo uma avaliação superficial, poderia parecer que a CVM teria mudado sua posição ou existiria um risco de conflito com a CBF e FIFA, mas não é nada disso.

Os tokens ou ativos digitais emitidos pelo Mercado Bitcoin estão baseados em direitos creditórios não performados, oriundos de mecanismo de solidariedade eventuais e futuros detidos pelo Vasco. E isso faz toda a diferença!

Direitos reconhecidos

Primeiro cabe esclarecer que esses direitos creditórios não são oriundos dos direitos econômicos dos jogadores, que possuem as restrições da CBF e FIFA acima mencionada, pois são aqueles chamados direitos dos clubes formadores. De fato, a FIFA e a legislação brasileira reconhecem os direitos creditórios oriundos do chamado “Mecanismo de Solidariedade da Federação Internacional de Futebol”, não havendo restrições nesse caso de cessão ou antecipação desses direitos a terceiros.

Embora não tenham sido divulgados todos os detalhes, ao que se sabe, a CVM foi consultada previamente da operação e segundo constaria no Ofício nº 15/2020/CVM/SER, de 2 de outubro de 2020, aplicou Teste de Howey à oferta pública dos tokens do Vasco. Com isso, chegou à conclusão que não seria um valor mobiliário devido a pequenos detalhes que diferenciam essa oferta.

Na análise da CVM, da mesma maneira que as paneletas, os tokens do Vasco seriam objeto de oferta pública, formalizados por um título ou contrato, pois os investidores irão aplicar recursos financeiros para adquirir os tokens.

Além disso, o investimento seria coletivo. Mesmo que não exista uma união de recursos formada pelos aportes de cada investidor em prol de um único empreendimento ou projeto, tendo em vista que a compra dos tokens por um grupo de pessoas, ligadas pelo objetivo de ajudar seu clube ou apostar em seu jogador, demonstra um viés coletivo.

Vitória nos 50 min do 2º tempo

Mais do que isso, o investimento gera a expectativa de remuneração por parte do investidor, considerando o ganho proveniente do recebimento, pelo Vasco, dos direitos creditórios, embora dependam de diversos fatores como o desempenho dos jogadores escolhidos e a eventual negociação desses jogadores no futuro.

Tal e qual os dramas do futebol, aos 50 minutos do segundo tempo, quando parecia que nada mais poderia ser feito, eis que surge um elemento diferenciado que muda completamente o jogo. O Teste de Howey brasileiro é uma versão tropicalizada, segundo a qual caso um dos elementos do teste falhe, não fica caracterizado o valor mobiliário.

Surge, então, a pergunta final, sobre a origem da remuneração estar baseada nos esforços do empreendedor ou de terceiros. E essa foi a questão que derrubou o teste, pois a CVM entendeu que o possível ganho do investidor nada decorre do esforço do Vasco ou de qualquer terceiro interessado. Trata-se de direito de receber um pagamento incerto, que somente será devido quando e se o jogador for negociado.

Cai o castelo de cartas

Tal e qual um castelo de cartas, cai a regulação e surge a inovação. A falta do requisito formal leva à conclusão da CVM de que os tokens não possuem os requisitos necessários para configuração como valores mobiliários regulados pela autarquia, de acordo com os requisitos do inciso IX do artigo 2º da Lei n° 6.385/76, que foi a aplicação do Teste de Howey. Isso porque, no momento da oferta, o Vasco não possui qualquer interferência sobre eventuais ganhos por parte dos investidores, uma vez que os tokens se referem aos jogadores que já não estão mais no Vasco.

Assim, a inovação surge pelos detalhes ou pelo confronto com os reguladores, como foram os casos de Uber e Airbnb. Mas a criação dos novos ativos digitais é uma realidade que vem se ampliando em todo o mundo e o Brasil ainda resiste em aceitar. Nesse caso, a realidade vai se impondo aos poucos e a inovação se utiliza de detalhes de uma regulamentação arcaica para descobrir formas de tentar acompanhar esse mundo novo dos criptoativos.

Por trás das moedas de bancos centrais está o jogo geopolítico e de oportunismo comercial

A crise de 2008, provocada a partir do sistema bancário e financeiro, gerou a necessidade de se buscar meios de circulação de valores monetários que estivessem menos expostos aos riscos de oscilações, de liquidez e de segurança do mercado de bancos tradicional.

Nesse contexto e com foco em agilidade, menor burocracia e controle, as criptomoedas foram desenvolvidas para facilitar fluxos financeiros oriundos de operações de comércio exterior, transferências, investimentos e demais necessidades de pagamentos.

Dessa forma, o bitcoin, a primeira criptomoeda lançada, revolucionou a forma de transacionar valores monetários e a própria evolução tecnológica do sistema financeiro e bancário mundial. Ao permitir a transferência de recursos em tempo real, sem considerar fronteiras físicas entre países, taxas cambiais, impostos, regras, burocracias e controles centrais, logo ganhou usuários, concorrentes – outras criptomoedas surgiram – e relevância para as operações de comércio local e internacional, além de demais trocas financeiras e de pagamentos.

Baseada em tecnologia blockchain – descentralizada, sem uma clearing ou consolidadora central -, sem contar com lastros em moedas ou ativos reais, e sem ser submetida a regras e controles, seu uso e disseminação passou a ser questionada do ponto de vista da legalidade, segurança e estabilidade por reguladores, agentes do mercado financeiro e empresas em geral.

Bancos centrais foram desafiados

Receios sobre a utilização de transferências em criptomoedas para financiar o terrorismo, crime organizado e demais atividades criminosas; falta de transparência e controle sobre segurança de dados; bem como negociações especulativas com efeitos sobre o sistema financeiro real, geraram o alerta para se discutir formas de regulamentar e, ou também, controlar as moedas digitais.  

Bancos Centrais passaram a visualizar, a partir da expansão acelerada das negociações e dos volumes financeiros movimentados em uma esfera paralela, “virtual” e sem fronteiras, desafios para a implementação de políticas monetárias e os efeitos das taxas de juros nacionais.

Da mesma forma, oportunidades foram sendo visualizadas para ao mesmo tempo endereçar essas lacunas e obter ganhos de poder e financeiros diversos.

Do lado privado e empresarial, a mais relevante iniciativa é a Associação Libra, liderada pelo Facebook, para o lançamento de sua própria moeda virtual. Ao ser ancorada na sua base de usuários, aí considerando também os de seus aplicativos e empresas coligadas, essa iniciativa pode permitir ao Facebook o desenvolvimento de ambiente para a geração de comércio eletrônico, transferências e investimento sem precisar se submeter a atores do sistema financeiro tradicional e a regras nacionais e de legislações locais de internet. A libra teria um lastro em uma moeda física real, sendo o que se chama de stablecoins, podendo ser considerada menos instável do que as criptomoedas pioneiras.

Geopolítica e criptomoedas

Pela geopolítica, a China observou que a utilização de criptomoedas no comércio e investimento internacional poderia acelerar um processo de perda de poder e de importância do dólar americano na economia mundial, algo que é de interesse chinês, enquanto busca internacionalizar o Yuan/Renmbine.

Nesse sentido, a China está desenvolvendo sua própria moeda virtual, lastreada na moeda física, e com controle e regulação do governo e banco central do país. Em um primeiro momento, esse movimento está sendo acelerado no mercado doméstico chinês, via as grandes empresas digitais locais, tais como Alibaba e WeChat, mas espera-se que seja utilizado em sua principal plataforma de projeção de poder econômico e político internacional, a iniciativa “One Belt, One Road”

Esse movimento chinês não é isolado e de alguma forma está sendo estimulado pelos reguladores financeiros. O Banco de Compensações Internacionais (BIS), organização multilateral de supervisão dos bancos centrais, e o Financial Stability Board (FSB) , fórum de temas econômicos e financeiros do G20, discutem e estudam meios de os bancos centrais e governos criarem mecanismos de regular e controlar o uso de criptomoedas. O desenvolvimento de ambientes oficiais de negociação com moedas virtuais e a própria criação de uma criptomoeda é a principal alternativa desenhada, quem vem sendo chamada de Central Bank Digital Currency (CBDC).

O próprio Banco Central do Brasil anunciou a criação de um grupo de trabalho para formatar e lançar um CBDC no país a partir de 2022, orientado em um primeiro momento para o mercado de câmbio e institucional financeiro.

CBDCs precisam de capilaridade

Os CBDCs não tendem a ser substitutos às criptomoedas existentes, mas sim concorrentes, ao oferecer moedas digitais com nível de segurança maior, já que terão lastro, controle e proteção de dados e de movimentações. Porém, com elementos de menor competitividade, tais como maior burocracia e menor agilidade, em especial para transações internacionais.

Essas iniciativas oficiais, para se tornarem alternativas viáveis às criptomoedas privadas, necessitam de volume, abrangência e capilaridade. Aos governos, uma potencial vinculação de programas sociais, previdenciários e de transferência de renda utilizando CBDCs, ou mesmo serviços públicos que aceitem essas moedas como pagamento, tais como transporte urbano, significaria a massificação dessa alternativa.

De qualquer forma, são evoluções e acontecimentos para ocorrerem ao longo da próxima década, que poderão ter implicações não somente na forma como as pessoas comuns usam o sistema financeiro e de pagamentos, mas principalmente, como a economia, política e o poder internacional se molda, em jogos geopolíticos e de oportunismos comerciais.

*Gabriel Berton Kohlmann é especialistas em políticas públicas e análise de negócios. É mestre em Economia Internacional pela Universidade de Ciências Aplicadas de Berlim.

Se criptografia é avessa à regulação, por que regulação favorável ajuda os criptoativos?

Quando pensamos em Satoshi Nakamoto, pensamos no mítico criador do Bitcoin e do conjunto de tecnologias que chamamos blockchain. Porém, essa revolução tecnológica, mesmo em sua origem, não é o produto de um trabalho individual. Não apenas ainda não sabemos se Nakamoto foi apenas um, e não um coletivo de pessoas trabalhando sob o mesmo pseudônimo. Também é importante lembrar que blockchain é o ponto culminante de um trabalho colaborativo de décadas entre criptógrafos, e que os primeiros passos do bitcoin foram resultado do esforço conjunto de Satoshi Nakamoto e de um grupo de criptógrafos conhecido como cypherpunks. Não existiria o Protocolo Bitcoin sem colaboração. Tampouco blockchain.

Como entusiasta dessa tecnologia, tenho muita empatia e admiração pelo trabalho e pelas ideias dos cypherpunks. Mas o que vou escrever aqui ataca frontalmente uma das crenças fundamentais desse movimento. Faço referência a uma briga que é grande. Em seu influente Manifesto Cypherpunk, Eric Hughes escreveu:

“Cypherpunks desprezam regulação sobre criptografia, pois criptografar é fundamentalmente um ato privado. A arte de criptografar, com efeito, retira a informação do espaço público. Mesmo leis contra a criptografia alcançam somente tão longe quanto as fronteiras de uma nação e os braços de sua violência.”

No entanto, ao contrário do que dizem os cypherpunks, sem uma regulação feita especialmente para manter descentralizados cripto e blockchain(s), nem o bitcoin, nem qualquer outra forma relevante de descentralização das atividades produtivas e econômicas, sobreviverá. Seja ou não baseada em blockchain.

O trabalho colaborativo que deu origem ao bitcoin, agora demanda mais e mais atores para continuar rendendo frutos. Esse é um movimento político, no sentido de que seu objetivo é mudar a forma como a sociedade se organiza. Por ser um movimento político, exige diálogo com a forma com que a sociedade moderna organiza a atividade política: o estado. O nome desse diálogo é regulação.

Quem acompanha os movimentos de mercado dos criptoativos sabe que toda vez que se fala em regulação favorável, o valor daqueles sobe. Atores relevantes em cripto e blockchain têm se movimentado na construção de espaços regulatórios férteis à inovação. Seja no Brasil, com o código de autorregulação da ABCripto. Seja nos EUA, com a movimentação da Chamber of Digital Commerce e o recente sucesso da cooperação entre Kraken e o Estado de Wyoming na construção de caminhos para bancos com custódia de criptoativos. Seja em Zug, na Suíça, em que a adoção temporã de um arcabouço regulatório favorável deu origem ao Crypto Valley. Seja na recém anunciada proposta de um marco regulatório pan-europeu para criptoativos. Os laços entre regulação e evolução do ecossistema blockchain parecem cada vez se consolidar mais.

Não obstante, as palavras do Manifesto Cypherpunk são ainda o principal credo que se ouve nos círculos de quem lida com blockchain na prática. Para criptoentusiastas, por padrão, regulação é anátema. Se criptografar é fundamentalmente um ato privado e, logo, avesso à regulação, o que pode explicar o estímulo que a regulação favorável tem sobre o sucesso de mercados baseados em soluções criptográficas.

A ideia de regulação que alimenta a crítica cypherpunk é hoje considerada obsoleta e reduz regulação a apenas duas ideias

Para explicar essa aparente contradição, primeiro precisamos entender que a ideia de regulação que alimenta a crítica cypherpunk é hoje considerada obsoleta. Essa ideia obsoleta normalmente reduz regulação a duas ideias. A primeira dessas ideias é identificar regulação apenas como uma atividade de “comando e controle”, que vê regulação como uma atividade de fixar regras rígidas e aplicar punições pelo descumprimento dessas regras.

A segunda dessas ideias é identificar regulação como “correção de falhas de mercado”, uma concepção que ganhou popularidade especialmente a partir do início da década de 90, com a privatização de diversas empresas estatais de infraestrutura e a implementação de agências reguladoras espelhadas nas public utility commissions dos EUA.  

Essa visão de regulação parte do pressuposto de que mercados perfeitos seriam a forma ótima de alocar recursos. Porém, em alguns mercados, haveria motivos intrínsecos que fariam com que mercados nem sempre funcionassem de forma ótima. Em hipóteses em que ocorressem situações como a predominância de custos fixos em valor muito superior a custos variáveis, ou o excesso dos chamados custos de transação, ou falhas na disseminação de informações sobre produtos, mercados não funcionariam direito. Esses casos são chamados de falhas de mercado.

Quando ocorrem essas falhas – e apenas nesses casos, o estado deveria intervir para corrigi-las. Isso seria regulação: a atividade estatal de fixar regras e aplicar punições para corrigir falhas de mercado. A crítica cypherpunk se dirige a essa atividade: essas regras e punições estatais seriam ineficientes (e ilegítimas). Regras e punições, obviamente, são uma forma de poder baseado na violência e na coerção. Cypherpunks negam legitimidade e eficácia a qualquer forma institucionalizada de coerção, seja por grandes corporações, seja por Estados-Nação.

Essa concepção, porém, é enganosa por dois motivos. O primeiro é por considerar que mercados são uma espécie de estado natural, ao que a atuação econômica do Estado seria uma espécie de anomalia. O segundo é por considerar que toda regulação é estatal – e, em especial, do tipo “comando e controle”.

Não deixa de surpreender que um setor que nasceu e se sustenta pela força de redes colaborativas baseadas em práticas open source seja tão dominado pelo discurso ortodoxo de um livre mercado sustentado exclusivamente pela coordenação de interesses individuais. A falsa crença de há mercado sem regulação deriva talvez da crença moderna de que mercados não apenas são “naturais”, mas são a medida pelo qual todo valor é dado (inclusive o valor moral), um processo tão bem descrito, como desmascarado, por Karl Polanyi no clássico “A Grande Transformação” (um livro que todo criptoentusiasta deveria ler, junto com “As Consequências da Modernidade” de Anthony Giddens).

Mercados não são naturais. Há muitos e variados exemplos de economias que funcionaram sem mercados, no sentido que lhes atribuímos.

Mercados não são naturais. Há muitos e variados exemplos de economias que funcionaram sem mercados, no sentido que lhes atribuímos. Ronald Coase, um economista muito citado por críticos da atuação regulatória estatal, construiu sua fenomenal carreira ao se perguntar: se mercados são tão eficientes, porque há firmas (empresas)? Ao contrário do que um leitor desavisado poderia imaginar, empresas não são iguais a mercados. Em uma empresa, recursos vão para onde o administrador dizem que devem ir. Em um mercado, recursos vão para onde o preço (que carrega a informação do resultado da interação entre oferta e demanda) diz que devem ir.

Mercados e empresas são duas opções, entre várias, de como seres humanos em sociedade podem alocar recursos escassos. Famílias são outra opção (nenhum mercado de serviço de saúde consegue substituir o cuidado de uma mãe ou de um pai, por exemplo). Comunidades de desenvolvimento open source são ainda outra opção – como bem retratado em outro livro fundamental: “The Penguin and the Leviathan”, de Yochai Benkler. Todos esses são criações coletivas, formas de organização social que derivam de costumes, tradições e também de opções políticas. Nenhuma dessas opções é um dado da natureza – como disse Coase, “mercados são criados”.

A ideia de que mercados são uma dentre várias criações humanas para alocar recursos nos permite enxergar que é falsa a noção de que regulação se opõe a mercados. Mercados são uma opção regulatória, e a regulação define parâmetros que servem de suporte e direcionamento ao funcionamento de mercados. Em outras palavras, a regulação cria mercados e define seu funcionamento.

O desenvolvimento da internet é prova de que regulação e mercados andam juntos. Ao contrário do que diz o senso comum, a internet não seria como é hoje não fossem as opções regulatórias. A começar pela sua origem. Na década de 60, a AT&T, a gigante de telecomunicações da época, tinha um dos mais fantásticos centros de desenvolvimento de tecnologia que o mundo já viu. Mas para que a internet surgisse, primeiro foi necessário que o governo americano a financiasse: nenhuma empresa privada, na época, via a tecnologia como viável. Se dependesse da AT&T, a internet não existiria como a conhecemos hoje: a gigante de telecomunicações explicitamente desconsiderou como viável a implementação de redes de telecomunicação entre computadores usando a tecnologia de comutação por pacotes, tecnologia essa que é a pedra fundamental para toda a comunicação de dados do mundo atual.

Também foi graças ao financiamento governamental do grupo de pesquisadores responsáveis por manter e operar a internet – e a uma opção política explícita de não-intervenção no trabalho desse grupo – que os parâmetros de governança da internet puderam se desenvolver.

Uma série de decisões regulatórias foi responsável por manter a internet descentralizada até o final dos anos 90. Nos EUA, as Computer Inquiries da FCC dos anos 70 e 80 permitiram a operadores competitivos ter acesso à infraestrutura necessária para montar as redes que se tornariam a base da Internet comercial. No Brasil, o monopólio da Embratel sobre comunicação de dados foi quebrado em 1995, para dar lugar a pequenos e grandes provedores de acesso à Internet.

Não regular a Internet foi, portanto, uma opção regulatória explícita.

No início do milênio, duas opções regulatórias desconstruíram a estrutura de mercado que até então era responsável por operar a internet comercial. Primeiro, reguladores do mundo todo passaram a permitir que operadoras de telecomunicações fornecessem acesso à internet. Até então, essa era uma atividade vedada a operadores tradicionais de telecomunicações.

A segunda opção regulatória que mudou a cara da internet foi permitir, ou melhor atribuir a, operadoras de telecomunicações o papel de levar a internet móvel para os usuários. Por um lado, essa opção viabilizou que bilhões de pessoas passassem a ter acesso à internet. Por outro lado, a Internet é hoje controlada do ponto de vista de sua estrutura por não mais que cinco grandes conglomerados mundiais.

Bitcoin já nasceu regulado e se desenvolveu de acordo com essa regulação

Não apenas a infraestrutura da Internet foi moldada por opções regulatórias. Na década de 90, leis e regulamentos do mundo todo adotaram a política de que plataformas não são responsáveis pelo conteúdo que publicam. Sem essa política, Google, Facebook e Amazon não teriam chegado onde chegaram.                    

“Ok, mas Bitcoin, blockchain, criptoativos, Descentralized Finance, tudo isso nasceu e cresceu à revelia de regulação e da atuação de Estados.” Talvez diga o leitor. Eu respondo: “não, Bitcoin já nasceu regulado e se desenvolveu de acordo com essa regulação.”

Primeiro, o Protocolo Bitcoin foi criado por uma comunidade open source. Se o movimento de software livre não tivesse precedido o bitcoin, a propriedade intelectual do código seria motivo de disputa e isso poderia inviabilizar a continuidade do desenvolvimento. Sem a possibilidade de disponibilizar o código em repositórios online, o Protocolo Bitcoin não teria se desenvolvido.

Segundo, o Protocolo Bitcoin opera parâmetros peer-to-peer que são viabilizados por regulação. Se equipamentos de telecomunicação comercial não disponibilizassem as ferramentas lógicas para a comunicação peer-to-peer, não haveria Bitcoin. A regulação de equipamentos de telecomunicação é o que permite isso.

Terceiro, empresas de telecomunicação que fornecem Internet comercial são obrigadas a não espionar e nem bloquear o tráfego de informações em suas redes. A regulação de telecomunicações poderia exigir o bloqueio de tudo o que pareça Bitcoin, mas faz o contrário: exige que o tráfego ocorra. Sem esses requisitos, o Bitcoin seria no máximo um experimento de uma meia dúzia de criptógrafos em um laboratório, em que apenas pessoas com elevado conhecimento técnico poderiam participar.

É hoje consenso de que o bitcoin falhou – até o momento – na sua proposta originária de ser um meio de pagamento entre pares

Mas não é só isso. O desenvolvimento do Bitcoin e do mercado de criptoativos também já é pautado por opções regulatórias. É hoje consenso de que o Bitcoin falhou – até o momento – na sua proposta originária de ser um meio de pagamento entre pares. A ideia de que Bitcoin é comparável ao ouro, e não ao dólar, é bastante difundida atualmente. Porém, se criptomoedas não fossem tributadas por ganho de capital (uma opção regulatória), é provável que a história fosse outra. Afinal, se toda vez que eu recebo bitcoin e ele sobe de preço eu tenho que pagar imposto de renda, fica bem difícil eu usá-lo para substituir moeda fiat. Há várias soluções para o problema da volatidade de preços, mas nenhuma solução supera o problema da forma como bitcoins são tributados.

Também sente o peso da regulação qualquer pessoa que queira adquirir ou vender criptoativos. De modo geral, é mais fácil abrir uma conta em banco do que em uma exchange. Se eu for parar para pensar onde estão todas as minhas fotos segurando meu passaporte e um bilhete, não durmo. Mesmo plataformas de compra e venda peer-to-peer como Localbitcoins e Paxos exigem esse malfadado procedimento. E não à toa: os fundadores e executivos dessas plataformas correm real risco de prisão se não o fizerem. Leis contra a lavagem de dinheiro não foram criadas para criptoativos, não obstante são responsáveis por uma parte bastante familiar da experiência de usuário de qualquer coisa cripto.

O bitcoin não surgiu no vácuo regulatório. As leis e regulamentos que já existem definem o presente e o futuro de todas as coisas blockchain. A questão é saber se essas leis e regulamentos serão feitos para avançar os ideais de liberdade e privacidade que moveram Satoshi e os cypherpunks.

No livro clássico de Hannah Arendt “Sobre a revolução”, a autora analisa a Revolução Francesa e a Independência Americana – um período de intensa transformação social, na minha opinião similar ao momento em que vivemos hoje. A autora faz distinção entre a felicidade individual, que resulta das ações que cada um de nós pode tomar sozinho, e a felicidade pública, produto de ações que apenas pessoas agindo em conjunto conseguem fazer. A busca da felicidade pública é a essência da atividade política. Pessoas cooperando para, juntas, fazerem o que sozinhas não são capazes. Como fizeram Satoshi Nakamoto e os cypherpunks.

Gabriel Laender é advogado do FCM Law e membro da Silicon Valley Blockchain Society (SVBS). Baseado na Califórnia, foi visiting scholar sobre blockchain e política pública na University of Southern California (USC). É doutor em Direito e Regulação pela Universidade de Brasília.

Este artigo é parte da série de entrevistas e artigos que o Blocknews está publicando em celebração aos 12 anos do white paper de Satoshi Nakamoto sobre bitcoin e blockchain.

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Será que estamos prontos para lidar com as facilidades do revolucionário Pix?


Você certamente já se deparou com as seguintes situações: ter que esperar o horário bancário para conseguir realizar uma transferência, ou então realizar ou receber um pagamento e ter que esperar dias até o “dinheiro cair”. É o tipo de coisa que estamos habituados a vivenciar, muitas vezes sem questionar a eficácia do sistema. O Pix, no entanto, chega justamente para mudar esse cenário e quebrar esse paradigma.

O Pix, sistema de pagamentos instantâneos anunciado pelo BACEN, será lançado oficialmente no dia 3 de novembro e muitas pessoas ainda não sabem ao certo como ele funciona e o que vai mudar com sua implantação – mas vale ter em mente que tornará a vida de todos muito mais fácil.

Esse sistema surge como uma alternativa (e até mesmo uma solução) aos meios de transferência bancária disponíveis hoje, como TED e DOC, e aos meios de pagamento, como cartões, dinheiro ou boletos. Tudo será feito pelas chaves de segurança únicas de cada usuário, que podem ser o número de telefone, CPF/CNPJ, e-mail e uma chave aleatória, levando apenas alguns segundos para concretizar uma transferência ou pagamento.

Benefícios para usuários

São inúmeros os benefícios do Pix para o usuário comum, e vão desde transações monetárias gratuitas entre diferentes instituições bancárias até pagamentos de contas e compras com o dinheiro sendo movido instantaneamente, o que permite inclusive a negociação de descontos. Tudo isso, vale lembrar, disponível 24 horas por dia, sete dias por semana – diferentemente do que acontece hoje

Essa mudança foi influenciada muito em decorrência do processo natural que vem acontecendo da desmaterialização do dinheiro. Seguindo essa tendência, os ATMs (automated teller machine), ou caixas eletrônicos, cartões plásticos, documentos como RG, CPF, licenciamento veicular, entre diversos outros exemplos, também se tornarão, pouco a pouco, obsoletos para nós. Por isso, o Pix desponta como um pilar importante para acompanhar tantas mudanças, que passo a passo se tornam a nova realidade global.

A experiência dos usuários de aplicativos bancários também está sendo reformulada por completo, e as pessoas podem esperar, além de uma janela muito maior para realizar operações, mais segurança também. Isso porque a jornada Pix tem significativas alterações de front-end (os aplicativos que o público comum faz uso), e principalmente do back-office da operação, que é o grande orquestrador das regras de negócios da operação financeira e o grande cérebro por trás das ferramentas. Com isso tudo mudando, muda também o que é entregue para os usuários.

Custos mais baixos

Outro fator importante que será influenciado pelo Pix é o financeiro. Se hoje pessoas físicas pagam uma taxa para realizar transferências para outros bancos, com o novo sistema de pagamentos instantâneos do Banco Central, isso deixará de acontecer. Já para empresas (pessoas jurídicas), que hoje lidam com uma taxa abusiva para a realização de TEDs, com instituições podendo cobrar até R$ 20 por cada, as coisas também se iluminarão. Com o Pix, a taxa cobrada será de R$0,01 a cada 10 transação.

A expectativa é alta para a chegada do Pix, e hoje temos muitas empresas se adequando e se preparando para o futuro. Definitivamente, é uma chave que, uma vez virada, não voltará atrás, tamanha a facilidade tanto para clientes, quanto para instituições. Como ele será recebido e se funcionará dentro do esperado, não temos como saber. Mas uma coisa é certa: trata-se de um novo e importante capítulo na história da revolução fintech.

* Caio Bretones é fundador e CEO da Mobile2you, mobile house especializada em desenvolvimento de produtos digitais sob-medida (taylor-made), tanto corporativos quanto para startups.

Como blockchain pode revolucionar o mercado imobiliário

Qualquer pessoa que já tenha comprado ou vendido um imóvel sabe como essa operação pode ser cara e demorada. 

Ao mesmo tempo que o setor imobiliário é o maior mercado de ativos do mundo, também possui algumas características que necessitam ser aprimoradas por conta do alto custo, demora ou dificuldade de transações.

A tecnologia blockchain tem potencial para transformar a forma como as transações são realizadas e concluídas em diversos setores , além de fornecer um sistema seguro, protegido e a prova de falhas. Uma de suas conquistas recentes é o setor imobiliário, que está sofrendo uma rápida digitalização e inovação devido à tecnologia blockchain.

O mercado imobiliário global é estimado em U$ 232 trilhões, mas é geralmente um mercado de ativos com baixa liquidez. A tokenização de ativos pode revolucionar esse mercado devido à transparência e natureza imutável dos dados gravados na blockchain, podendo resolver o problema de liquidez, que é um dos maiores desafios deste mercado.

A tokenização de imóveis aumentará a liquidez dos ativos, que poderão ser negociados com maior facilidade em diversas corretoras de tokens imobiliários no mundo todo. Esse processo requer a aplicação de tecnologia DLT (Distributed Ledger Technology), escolhendo-se uma plataforma blockchain que opere com smart contracts (contratos inteligentes).

Atualmente, os fundos de investimento imobiliário (FIIs) são listados publicamente nas bolsas de valores e fornecem liquidez ao fundo, mas geralmente são caros de se constituir e restrito a alguns investidores qualificados. Alguns FIIs têm uma entrada mínima para investidores de R$ 5 mil. No entanto, a tokenização pode dar aos pequenos investidores a possibilidade de investir a partir de R$ 10 através de tokens de bons ativos imobiliários no mundo todo.

Para tokenizar uma propriedade, casa ou imóvel comercial, é necessário escolher uma plataforma blockchain devidamente regulamentada com os direitos de armazenar propriedade em seus tokens através das autoridades competentes.

Depois disso, verificar se a plataforma também fornece a função ao proprietário de transferir esses direitos para alguém e transferir a propriedade completa para outra pessoa de forma autorizada.

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Benefícios da tokenização imobiliária

A tokenização beneficia os investidores de diversas formas:

1. O principal benefício da tokenização de propriedades ou ativos é que ela remove o intermediário. Isso torna o processo mais fácil e barato para os investidores comprarem ou venderem seus ativos imobiliários;

2.Os investidores podem negociar tokens imediatamente com uma taxa muito baixa;

3.A tokenização possibilita que proprietários ou incorporadores levantem capital sem intermediários financeiros para subscrever o projeto;

4.Os tokens imobiliários são respaldados por ativos reais, portanto, eles têm menos riscos do que criptomoedas ou ICOs;

Podem ser incluídas medidas de estabilização no smart contract para garantir que o valor do token não se desvie muito do valor patrimonial líquido subjacente da propriedade.

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Casos de tokenizações bem-sucedidas

Tokenizar uma propriedade imobiliárias não é mais uma moda passageira. Já temos vários casos de vendas de tokens imobiliários com sucesso. Um deles é um condomínio de luxo em Manhattan, localizado na East 13th Street, no East Village que vendeu com sucesso tokens de U$30 milhões registrados no blockchain. Outro exemplo, o prédio ocupado pela We Work, avaliado em US$ 65,5 milhões, no centro de Miami, Flórida, está aberto para ser vendido usando tokens blockchain Até mesmo alguns resorts buscaram fundos por meio de tokens imobiliários e tiveram sucesso em levantar o capital necessário em menos de uma hora.

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Sem dúvida, o setor imobiliário produz historicamente retornos atraentes, mas possui barreiras à entrada de um número maior de investidores. A tokenização pode ser uma excelente solução, pois os ativos imobiliários podem obter o melhor dos dois mundos: os bons retornos dos investimentos imobiliários e a liquidez do mercado de ações.

Não se pode negar que blockchain está revolucionando quase todas as esferas de nossas vidas e o mercado imobiliário não é uma exceção a essa transformação. Com o mundo cada vez menor com o alcance da tecnologia e o cenário imobiliário se tornando global, a tokenização de bens imobiliários baseada em blockchain não pode ser evitada.

Este novo modelo de negociação imobiliária está predestinado a ser um dos negócios mais lucrativos do futuro.

*Rubens Neistein é Co-Chair no Brasil da Foundation for International Blockchain and Real Estate Expertise (Fibree)

Com grandes poderes vêm grandes responsabilidades, inclusive na tecnologia

Na semana passada, tivemos mais alguns eventos reforçando o poderio exponencial das empresas de tecnologia. Vamos a alguns fatos: no trimestre em que o PIB dos Estados Unidos encolheu mais de 30%, as 5 grandes de tecnologia Apple, Amazon, Facebook, Microsoft e Google mostraram resultados extraordinários, muito acima do previsto.

A Amazon praticamente dobrou seu lucro comparado ao mesmo período do ano anterior. A Apple, por sua vez, retomou o posto de empresa aberta mais valiosa do mundo, ultrapassando simplesmente a Saudi Aramco, petroleira estatal da Arábia Saudita que controla as reservas e produção de petróleo nesse país. Não é impressionante que enquanto isso, no mesmo período, a economia norte americana caía 32,9%?

Essa valorização da tecnologia não é de agora. Se compararmos o desempenho nos últimos dez anos da Nasdaq, bolsa de valores americana especializada em tecnologia, com o índice Dow Jones, o índice de bolsa americana com todos os segmentos da economia, a discrepância é clara. Nesse período, o Dow Jones se valorizou aproximadamente 150%, enquanto a Nasdaq passou os 350% de valorização!

Mas, como diria o tio Ben: “com grandes poderes vêm grandes responsabilidades”*.

Toda essa valorização das ações reflete a influência crescente que as empresas e suas tecnologias têm em nossa sociedade.

Em nossa experiência recente, ainda sob efeitos da pandemia, a tecnologia suportou bastante nossa sociedade em não parar. Já falei disso em artigo anterior, o isolamento social foi abrandado pela webconferência, compras em portais, delivery de comida, pagamentos digitais e sem contato, e por aí vai.

Mas todo esse poderio tem (ou deveria ter limites)? Será que além de impactos positivos, há impactos negativos ou grandes riscos advindos do uso massivo da tecnologia?

Bom, nessa mesma semana, os líderes da Amazon, Google, Facebook e Apple prestaram depoimento ao Senado americano. Há investigações sobre monopólio, abuso de poder e práticas antitruste. Antes disso, há toda uma controvérsia do papel das mídias sociais e plataformas de busca em nossa sociedade. Será que são ou foram tendenciosas? Será que influenciam a opinião pública em temas relevantes (um exemplo é a eficácia da hidroxicloroquina) removendo ou fazendo uma curadoria dos posts ou buscas? E o escândalo da Cambridge Analytica e a potencial interferência nas eleições americanas passadas?

Acredito que muita água ainda vai passar por baixo dessa ponte. E devemos, enquanto sociedade, acompanhar isso de perto.

Nem vou entrar no mérito da polarização política das redes no Brasil, escritório do ódio, projeto de lei das fake news etc. Esses temas merecem reflexões maiores que não caberiam aqui. Mas vale a reflexão do papel das tecnologias e seus impactos no cotidiano das pessoas. Há uma linha tênue entre a comodidade e capacitação que nos prestam e o abuso de influência.

Essa preocupação só tende a aumentar com o avanço tecnológico em várias frentes. Por exemplo, na mobilidade urbana, os veículos guiados por computação, até onde podem ou devem chegar? No reconhecimento facial, até onde ele facilita ações de segurança e até onde não invade nossas privacidades ou são usados de forma abusiva? Na biotecnologia, até onde vão os limites éticos relacionados à manipulação da vida?

Na segunda metade do século XX, o grande temor do mundo era a hecatombe nuclear, com duas potências claras tendo capacidade de destruir o planeta múltiplas vezes. Eu diria que atualmente, o mundo deveria ter duas grandes preocupações: os efeitos acumulados da exploração dos recursos naturais em nosso planeta – que é bem extenso e não vou entrar nessa discussão aqui – e os impactos do uso errado ou abusivo da tecnologia em suas mais variadas nuances. As guerras do século XXI serão em dados, tanto nas empresas, como nas nações.

E se vocês acham que isso é coisa do futuro, basta acompanhar os recentes ataques cibernéticos entre Irã e Israel. Sem enviarem nenhuma tropa ao outro país, nesses últimos meses têm se enfrentado virtualmente tentando entrar em sistemas vitais um do outro e em alguns casos, conseguindo impactar fisicamente instalações importantes.

Num desses casos, Israel alegou que o Irã tentou invadir sua infraestrutura de água impactando basicamente civis. Aparentemente, revidou atacando os sistemas de um importante terminal portuário iraniano.

O futuro do livro 1984 de George Orwell ou do filme Jogos de Guerra parece ter chegado e cada vez mais temos de nos relembrar da frase do tio Ben.

 * Essa frase foi alavancada ao imaginário dos quadrinhos quando o tio Ben, Benjamin Parker, a disse a seu sobrinho Peter Parker. E o influenciou para usar seus poderes recém adquiridos para o bem ao se tornar o Homem-Aranha. 

*Stephan Krajcer é fundador da fintech Cuore, no Canadá. Depois de trabalhar em bancos, decidiu empreender, desenvolvendo soluções para setores como o financeiro.

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Nos últimos anos, tenho visto muitos negócios grandes se posicionando em ter centralidade no cliente. Ou seja, em vez da visão tradicional de se construir todo um negócio e sua estrutura em volta de um produto, a visão de centralidade do cliente muda esse conceito, passando a criar-se negócio e se estabelecer toda a estrutura em torno do cliente, suas necessidades e vontades.

Essa abordagem foi um dos grandes responsáveis pelo boom tecnológico do Vale do Silício, tendo seu ecossistema bebido da fonte da escola de design de Stanford, IDEO, dentre outras fontes que deram forma ao design thinking nas décadas de 90 e começo dos anos 2000.

Afinal, no manual do “startupeiro” e dos venture capitalists, algumas das peças-chave incluem o problema que sua startup resolve e quem tem esse problema (persona). Para daí partir para o tamanho da oportunidade, mercado endereçável e por aí vai.

Como esse modelo tem experimentado sucesso incontestável por já algumas décadas, muitos negócios se renderam a ele e buscam o Santo Graal da centralidade do cliente. Tarefa difícil para quem começa já com essa filosofia, mais difícil ainda, diria hercúlea, para quem não nasceu assim.

De minhas observações, aprendi algumas coisas:

No começo, muita gente achou que centralidade no cliente era fazer um app bacana, ouvindo o cliente na usabilidade. Isso é importante, mas não suficiente. Muitas iniciativas ficaram no meio do caminho quando o app trouxe tráfego, mas o back office não deu vazão ou não estava preparado a fazer as tarefas de forma diferente.

Daí a importância de se estruturar toda a máquina para a jornada do cliente, não apenas a entrada. Tem havido crescente interesse em empresas e startups facilitadoras da transformação de back office. Isso não só resolve o problema imediato da experiência do cliente do começo ao fim, mas também dá escala e redução de custos. Stripe e Plaid são excelentes exemplos de fintechs de infraestrutura que facilitam os back office de um monte de empresas. São unicórnios. Inclusive, a Plaid recentemente foi adquirida pela Visa.

Em geral, o ciclo de venda de uma fintech de back-office B2B é mais difícil. Seus clientes potenciais ou estão mais preocupados com o front ou tem tanto dever de casa no back office que torna tudo mais lento para se encaixar ao legado. Ah, e tem o fator organizacional também. Há casos em que a empresa cliente genuinamente quer trabalhar com startups para melhorar seus processos, mas internamente ainda não evoluíram suas estruturas e cultura para tal.

Acredito bastante que o reforço dos processos tem sim impacto no usuário final, muito além da melhoria apenas nos indicadores operacionais.

Uma de minhas iniciativas, por exemplo, é uma plataforma de voto eletrônico. E nos esforçamos em gerar os benefícios em todos os espectros, conciliando o usuário final (que vota) e os processos das instituições que nos contratam (que organiza a votação). A ideia é acrescentar a experiência do usuário e seu engajamento aos tradicionais indicadores operacionais de custos, acurácia e tempo de processamento.

Atualmente vejo grandes oportunidades para fintechs de infraestrutura, em segmentos da moda como pagamentos, open banking, crédito, investimentos, inteligência artificial e criptoativos e outros como documentação, cartórios e registros, integração de informações, automação de processo (RPA), gestão de times, workflows financeiros e seguros.

Há ainda algumas barreiras, mas sem dúvida há grandes oportunidades para novos modelos de negócios que podem ser criados ou suportados pelas fintechs de infraestrutura, quer seja atuando independentemente ou em parcerias com instituições estabelecidas.

Links de interesse:

https://dschool.stanford.edu/

https://www.ideo.com/

*Stephan Krajcer é fundador da fintech Cuore, no Canadá. Depois de trabalhar em bancos, decidiu empreender, desenvolvendo soluções para setores como o financeiro.

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