Drex: desafios e soluções de privacidade, primeira fase do piloto chegando ao fim

Luiz Fernando Ribeiro Lopes da Tecban. Foto: Tecban.

O Drex, a moeda digital brasileira em desenvolvimento pelo Banco Central (BC), se aproxima do fim de sua primeira fase de piloto, iniciada em março de 2023. Como líder de uma das empresas participantes do projeto, tivemos a oportunidade de vivenciar os desafios e aprendizados dessa jornada, com foco nas soluções de conectividade, escalabilidade, segurança, privacidade, entre outros.

A iniciativa do BC de impulsionar a tokenização através do Drex é fundamental para a modernização do sistema financeiro brasileiro. Mesmo que a implementação em larga escala ainda não seja uma realidade imediata, o piloto já demonstra um papel crucial na movimentação do mercado em direção à tokenização de ativos, inovação tecnológica e segurança jurídica neste setor.

O Drex atua como um catalisador para a modernização do sistema financeiro nacional. Sua infraestrutura digital com a adoção de novas tecnologias abre caminho para a criação de produtos e serviços financeiros mais eficientes, acessíveis e inclusivos. Essa transformação digital beneficia tanto os consumidores quanto as instituições financeiras, impulsionando a competitividade e a geração de valor no setor.

Impulsionando o mercado de tokenização

Apesar do escopo limitado com a simulação da tokenização do Título Público Federal, o Piloto Drex serve como um campo de testes para o desenvolvimento e experimentação de soluções de tokenização, que é o processo de conversão de ativos físicos ou digitais em tokens digitais e que tem o potencial de revolucionar diversos setores da economia, desde o mercado de capitais até o agronegócio. O Piloto Drex, ao explorar as possibilidades da tokenização, contribui para a construção de um ecossistema mais robusto e seguro para essa nova modalidade de investimento.

O Banco Central, ao liderar o Piloto Drex, demonstra seu compromisso em estabelecer um ambiente regulatório claro e seguro para as moedas digitais. Essa clareza jurídica, fundamental para o desenvolvimento sustentável do mercado, atrai investimentos e abre portas para a participação de novos players, impulsionando a inovação e a competitividade do setor.

O Piloto Drex, mais do que um teste técnico, representa um investimento estratégico no futuro do sistema financeiro brasileiro. Ao impulsionar a modernização, a tokenização e a segurança jurídica, o projeto abre caminho para um futuro mais inovador, eficiente e inclusivo para todos.

Desafios e aprendizados

O Piloto Drex proporcionou à TecBan um ambiente rico em aprendizados, principalmente no que se refere aos desafios de implementar uma moeda digital com foco na privacidade. Afinal, como conciliar a natureza aberta e transparente da tecnologia blockchain com a necessidade de proteger a privacidade dos usuários?

Entre os principais desafios, podemos destacar:

  • Garantir a privacidade dos usuários: encontrar soluções que protejam a identidade e os dados transacionais dos usuários em um ambiente digital é crucial para a adoção do Drex;
  • Combater crimes financeiros: a implementação de mecanismos robustos para combater lavagem de dinheiro e outros crimes financeiros é essencial para garantir a segurança e a confiabilidade da moeda digital.
  • Interoperabilidade entre diferentes sistemas: assegurar a interoperabilidade do Drex com os sistemas financeiros existentes é fundamental para sua ampla utilização.
  • Educação e conscientização do público: a familiarização da população com o Drex e seus benefícios é fundamental para sua adoção em massa.

Soluções de privacidade

A busca por privacidade em uma rede como o Drex é um desafio complexo. Por um lado, a natureza descentralizada da blockchain garante a transparência e a rastreabilidade das transações, pilares fundamentais para combater crimes financeiros e garantir a confiabilidade do sistema. Por outro lado, essa mesma transparência pode expor dados sensíveis das transações.

Ao desenvolver o Drex, o BC busca inspiração em Finanças Descentralizadas (DeFi), um movimento que defende a democratização do acesso a serviços financeiros através da tecnologia blockchain. Nas DeFi, as transações são realizadas de forma direta entre usuários, sem a necessidade de intermediários. No entanto, o DREX se diferencia de DeFi ao se inserir no contexto do CeFi (Centralized Finance), onde as instituições financeiras assumem um papel central na operação da moeda digital. Essa adaptação é necessária para garantir a segurança e a estabilidade do sistema, além de atender às regulamentações em vigor.

O piloto DREX utiliza a blockchain Hyperledger Besu em um modelo de configuração de rede privada e permissionada. Mesmo que o acesso à rede blockchain seja restrito, permitido apenas às Instituições Financeiras reguladas pelo Banco Central, os participantes podem enxergar as transações de todos os outros participantes.

Desta forma, é criada a necessidade de ferramentas de privacidade e anonimização de dados de transações para garantir que apenas os participantes envolvidos em uma transação tenham conhecimento dos dados privados. Uma solução de privacidade executa exatamente essa função, geralmente através de smart contracts e provas de conhecimento zero (ZKP).

Para conciliar a natureza aberta com a necessidade de proteger a privacidade das transações, algumas soluções foram exploradas até o momento no piloto Drex:

  • Anonymous Zether: é uma ferramenta na plataforma Ethereum (Hyperledger Besu é compatível com o Ethereum) que permite transações privadas e anônimas através da criação de um ambiente privado dentro do ambiente público. O Anonymous Zether usa contratos inteligentes customizados e criptografía homomórfica para anonimizar as transações, além de usar o ZKP para garantir que apenas o remetente e destinatário conheçam as informações privadas da transação. Além disso, o Anonymous Zether utiliza um conceito de pacote de anonimização, onde diversos endereços aleatórios são inseridos em uma transação para embaralhar e ocultar o remetente e destinatário, dificultando ainda mais a possibilidade de identificação.

Para transacionar com o Anonymous Zether é necessário fazer um registro de uma carteira digital em um contrato do Zether. Com o registro, a carteira é habilitada no ambiente privado. Para fazer uma transação, a carteira precisa adicionar fundos no contrato Zether. Esses fundos serão utilizados nas transações Zether em nome da carteira digital que fez o depósito, e garantem a anonimização da transação. O dono da carteira digital pode fazer o saque dos fundos que depositou no contrato Zether a qualquer momento.

  • Starlight: é uma ferramenta de privacidade similar ao Anonymous Zether, que também utiliza a tecnologia de contratos inteligentes e o ZKP, porém criando canais de pagamento fora da cadeia (off-chain). A Starlight modifica contratos inteligentes desenvolvidos em Solidity (linguagem de programação) aplicando anotações que identificam os parâmetros do contrato que o usuário deseja anonimizar e a partir desses contratos modificados cria uma aplicação com infraestrutura completa para operar transações de forma privada e anônima.

Para que as transações se tornem privadas, a Starlight utiliza componentes off-chain. O usuário precisa estabelecer um banco de dados local, fora da cadeira, que será responsável por lidar com as informações privadas da transação e sincronizar as informações privadas locais de uma transação, com as informações públicas (para os demais participantes) na rede do DREX. Fora isso, o comportamento de uma transação é similar ao Zether: o usuário interage com um contrato inteligente privado, adicionando fundos ao contrato. A partir do depósito, o usuário pode realizar transações de forma privada. Assim que finalizar as transações privadas, ou quando for conveniente, o usuário pode sacar o saldo restante do contrato inteligente privado.

Para concluir, vale dizer que o projeto do Piloto Drex, mesmo em sua fase final, representa um marco importante para o futuro da moeda digital no Brasil. Os desafios e aprendizados vivenciados pelas empresas participantes em conjunto com o Banco Central, com foco nas soluções de privacidade, serão essenciais para o desenvolvimento de um DREX seguro, confiável e que atenda às necessidades da população brasileira.

*Luiz Fernando Ribeiro Lopes é Gerente de Plataformas Digitais na TecBan.

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