Bancos e criptoativos: uma relação que tem tudo para ser de ganha-ganha

Eduardo Carvalho, CEO da Dynasty Global.

É inegável que os criptoativos já superaram a fase inicial de desconfiança e se tornaram uma realidade para uma boa parte de investidores no país. Os números não me deixam mentir: hoje já há mais brasileiros que investem nesse tipo de ativo do que em ações na Bolsa de Valores, segundo um levantamento recente encomendado pelo Mercado Bitcoin para a consultoria Mosaiclab. O estudo aponta que 10 milhões de brasileiros já operam com criptomoedas, superando os 9,3 milhões de investidores na bolsa de valores. Outro dado, este da Receita Federal, revela que somente no mês de junho, 3,2 milhões de pessoas físicas e 89 mil pessoas jurídicas realizaram operações no mercado cripto – um recorde absoluto. 

Mesmo diante desse contexto favorável, ainda é perceptível que os bancos mais tradicionais permanecem receosos de atuar com esses ativos. Isso acontece muito em decorrência da estrutura complexa de operação e governança presente nas instituições. A burocracia existente, e obviamente necessária, exige que a adaptação a inovações demande tempo e investimento, sendo imprescindível um certo nível de segurança para iniciar o investimento em pesquisa e desenvolvimento de novos produtos, assim como a adequação às normas nacionais e internacionais.

No entanto, com o nível de maturidade dos criptoativos no momento atual, acredito que a aproximação entre as partes nunca esteve tão iminente. E isso seria extremamente benéfico para todos os envolvidos, caso o cenário se transforme em realidade num futuro próximo. Até porque já se tornou evidente que o potencial trazido por essa tecnologia tem tudo para inovar e impulsionar ainda mais as três principais funções e serviços de um banco: a custódia, a gestão de ativos e as operações financeiras.

Pensando no fator protetivo, os criptoativos atuam de forma única e inovativa ao utilizar o seu próprio banco de dados, o chamado registro distribuído, em inglês “Ledger”, para catalogar todas as transações, carteiras e seus respectivos saldos de forma permanente, descentralizada e imutável. Assim, essa custódia dos ativos digitais ocorre de forma transparente, permitindo que qualquer participante da rede ou pessoa que deseje validar a informação possa efetuar de forma simples, com poucos cliques, por meio das plataformas de monitoramento de transações. 

Já com relação à gestão de ativos, a criação dos contratos inteligentes, introduzidos em larga escala principalmente pela plataforma Ethereum, uma das mais populares do mundo cripto, torna possível automatizar pagamentos, transferências e relatórios, além de implementar regras de governança. Para isso, basta programá-los de acordo com a intenção do gestor. Dessa forma, o banco passaria a ter um software capaz de, não apenas transferir criptoativos, mas também de controlar todo o funcionamento do ecossistema gerado a partir das preferências definidas pela própria instituição. 

Se tratando da função estratégica dos bancos atuarem como sistema de pagamentos, a introdução da tecnologia blockchain nessa equação torna possível simplificar todos os tipos de transações, desde micropagamentos até elevadas movimentações internacionais. Isso porque esse tipo de ativo digital possibilita efetuar pagamentos a partir do endereço de destino e com a chave privada, que nada mais é do que a autenticação necessária para assinar e concluir a transação. Além disso, vale ressaltar que é possível ativar o modo multisig, denominação para a validação por meio de duas ou mais assinaturas para a efetivação da transferência, o que ajudaria ainda mais os bancos a garantir a segurança aos usuários. 

Em outras palavras, a aproximação entre as instituições financeiras e os produtos relacionados a criptomoedas significa um movimento vantajoso para ambos. Pelo lado do banco, passar a se apropriar desse ativo simboliza oferecer novos serviços e mais segurança aos clientes, o que resulta no aumento da afinidade e fidelidade do relacionamento. Já para as criptos, por mais que num primeiro momento essa relação possa ser vista como um paradigma, uma vez que o seu propósito passa justamente por propiciar que o usuário não dependa de terceiros para efetuar transações, agora elas passariam a ter a custódia de marcas fortes e reconhecidas pelas pessoas. Assim, a participação do banco acaba por agregar uma camada protetiva importante, atingindo principalmente a parcela dos usuários que não desejam realizar a gestão de suas chaves privadas por conta própria.

Primeiros passos

A partir desses efeitos, não é difícil compreender os motivos que levam as criptomoedas a já serem distribuídas por bancos mundo afora. No Brasil essa integração não deve demorar a acontecer. O primeiro passo para uma aproximação efetiva entre as partes é entender qual criptoativo tem potencial e capacidade de ser incorporado a uma oferta de produto pelo banco. Nesse caso, o fator primordial passa pela jurisdição na qual esse ativo foi emitido. No entanto, aspectos como procedimentos de identificação dos usuários e regras de governança em compliance também serão avaliados. 

Uma vez superados todos esses pré-requisitos, o desafio passa a ser algo muito mais atrelado à implementação tecnológica. Isso engloba a configuração da custódia, o estabelecimento dos procedimentos de protetivos, e a integração nas plataformas, tanto de backoffice, quanto para a interação com os clientes. 

A grande verdade é que a tecnologia blockchain já foi testada e comprovada nos últimos anos. Agora chegou a hora de dar os próximos passos. Isso significa apresentar o seu potencial para um público cada vez maior e iniciar o processo de escala. A união entre bancos tradicionais e criptomoedas será fundamental para popularizar o mercado no Brasil.

*Eduardo Carvalho é CEO e cofundador da Dynasty Global AG.

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