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Aguardando a PornoDAO …

Carl Amorim, country head do Blockchain Research Institute Brasil.

Em junho de 2011, o canadense Patchen Barss publicou o livro “The Erotic Engine – How Pornography has Powered Mass Communication, from Gutenberg to Google (O motor erótico – como a pornografia empoderou a comunicação de massa, de Gutenberg ao Google), mostrando como a indústria pornográfica foi o motor que puxou o desenvolvimento da tecnologia, da comunicação e da internet desde o início dos tempos.

Em 2014 Bruce Schneier da publicação Wired, em “How Changing Technology Affects Security (Como a mudança tecnológica afeta a segurança)”, fala sobre como o crime é mais ágil na adoção de uma tecnologia que o aparato de segurança e a sociedade, pela ausência de processos burocráticos.

Assim tem caminhado a humanidade. A cada nova tecnologia, vemos o crime – organizado ou não – e a indústria pornográfica incorporando as novidades em seus modelos de negócios. De certa forma, também auxiliando a indústria da inovação a ganhar corpo até chegar ao mercado.

No blockchain não foi diferente. Piramideiros fizeram as grandes fortunas bem antes dos traders e das exchanges. A Silk Road – um “e-commece na darknet” – levou o bitcoin para o submundo bem antes de qualquer empresa de e-commerce. Profissionais do entretenimento adulto adotaram pagamento em cripto, coisa que o varejo e as empresas patinam até hoje. Tokens não-fungíveis (NFTs) e smart contracts também não são exceção.

Tenho falado aqui e em enventos que as DAOs precisam urgente de intervenção regulatória pois, além do terrível desvio conceitual entre descentralizado e distribuído, a esmagadora maioria apresenta um risco enorme de lesar seus investidores pela forma como estão sendo formadas.

Eis que nos ultimos 7 dias tive três indícios de que, infelizmente, as previsões mais pessimistas estão perto de se transformar no famoso “eu avisei” que sabemos que vai chegar, mas que não gostamos quando acontece. O primeiro foi uma notícia de uma disputa de poder entre grandes investidores e os minoritários na Maker DAO. A mudança de postura do “fundador” (ah, esse cargo maldito) que, graças a seus 30 e tantos porcento de tokens, evitou um situação que lesaria os minoritários. Palmas para o cidadão que desenvolveu uma consciência. Mas, fica o alerta da centralização absurda que um projeto descentralizado “bem sucedido” oculta de seus investidores.

O segundo alerta foi um evento privado onde um outro desses “fundadores de DAOs” participou de um bate papo com um grupo de pesquisadores sobre suas experiencias com Organizações Descentralizadas. Fui convidado para contribuir com comentários e visões diferentes sobre o tema, esquentando o debate. Entrei mudo e, pelo rumo absurdo que a conversa tomou, saí calado. Isso porque a única alternativa seria desqualificar o convidado, algo que a educação não me permitiria naquela situação. 

Quem me conhece sabe o quanto gosto de uma boa discussão conceitual sobre o tema, mas quando deparei-me com conceitos que podem ser traduzidos como, por exemplo, violação das leis trabalhistas, subremuneração do trabalho, abuso da comunidade como recurso gratuito, centralização seletiva em decisões estratégicas e não formalização como forma de evitar regulamentação de captação de recursos, concluí que nada de bom sairia de um aprofundamento ou contribuição às ideias propostas ali.

Eis que depois de o Blocknews publicar o caso, as DAOs chegam ao Jornal Nacional, da TV Globo, num segmento intermediário, bem longe do momento das boas notícias, entre os mortos pós-Covid e a inflação crescente. Pois o Ministério Público Federal está cobrando explicações de uma DAO que vendeu NFTs representando áreas em terras indígenas. Fizeram isso sob o pretexto de arrecadar dinheiro para investir em projetos de desenvolvimento sustentável e social na região. Como sempre, a reportagem afirma que os responsáveis não haviam sido localizados até o momento para prestar declarações.

E assim segue o curso de desenvolvimento de DAOs na “Bananalândia”. Organizações inexistentes, projetos que não se sustentam, “fundadores democráticos” com poderes de decisão centralizados e sempre, dinheiro captado sem qualquer controle ou proteção aos investidores. Assim como acontece na Minerworld, Atlas, Bitcoin Banco, Luna, entre outras, investidores ignoram todos os sinais de alerta e compram tokens que nada valerão em um curto espaço de tempo.

Acredito que todo mundo é livre para botar seu dinheiro onde quiser, confiar em qualquer um e correr o risco que achar aceitável. O problema da total incompreensão sobre o que é uma DAO, do viés dos processos de tomada de decisão por voto e o que o blockchain é realmente capaz de fazer, leva a conclusões precipitadas e decisões de investimento fadadas ao fracasso.

O hype ainda faz com que inúmeros eventos sobre DAOs e Metaversos espalhem ainda mais a ignorância sobre o tema, levando as pessoas à ansiedade pelo Medo de Ficar de Fora, ou Fomo, na sigla em inglês, e à tomada de decisões precipitadas. O silêncio dos reguladores, ocupados em erguer barreiras de mercado a serviço das exchanges nacionais de baixa competitividade, é impressionante, pois se o objetivo é proteger a população, já passou da hora de se prender uma dúzia desses fundadores.

Enfim, não vou mais me alongar repetindo o que está nos artigos que escrevi aqui. Só me resta aguardar uma SexDAO surgir, cumprindo o rito da adoção da tecnologia e, na sequência, começar a chegar gente séria pois, até agora, só um dos tipos de novo entrante estabeleceu-se no mercado e está se esbaldando com dinheiro alheio. 

*Carl Amorim, colunista do Blocknews, é engenheiro com MBA em Finanças e pós-graduado em Marketing. DAOpreendedor serial, co-iniciador da Prospera, primeira DAO brasileira, co-editor do livro “Blockchain Revolution” e executivo do Blockchain Research Institute no Brasil.

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