A estação das DAOs

Carl Amorim: DAOs vão ser destaque na cripto economia em 2022.

Há poucas semanas, publiquei na edição de janeiro de 2022 da Blockchain Business Review meu primeiro artigo sobre DAOs, prevendo que em algum semestre de 2022 iniciaria a mais nova modinha da cripto economia, as Organizações Autônomas Descentralizadas.  

Não sei se foi esse o gatilho, ou só pura sorte de sair primeiro, mas a verdade é que vejo vários colunistas aventurando-se pelo tema. A maioria seguindo a cartilha básica do produtor de conteúdo autopromocional para explicar o básico sobre o tema. E para oferecer uma opinião crítica para assumir a posição de especialista, uma vez que não faz a mais pálida ideia sobre o que está falando.

Novo, isso não é, e não deveria ser um problema. Não fosse o fato, como detalho no artigo, de haver um vasto mal entendido sobre o que é uma Organização Autônoma Descentralizada e a diferença de sua quase homônima, porém totalmente oposta em princípios conceitos e exemplos, as Organizações Autônomas Distribuídas

Fica aqui o primeiro alerta: sim existem dois conceitos, seus nomes são parecidos, mas a partir disso, só o uso do blockchain e de smart contracts permanecem comuns. Todo o resto é completamente diferente, não se combinam, nem podem ser comparadas ou confundidas.

Prepare-se para enxurrada de conteúdos sobre DAOs

O segundo alerta é: preparem-se para uma enxurrada de textos, vídeos e podcasts sobre o tema. Neles, poderemos encontrar tipos como experts legais declarando que DAOs não são possíveis. Os motivos são inexistência de modelo de formalização, dificuldades de regulação, ordenamento jurídico e um falatório típico de quem leu um livro ou dois, tirou uma conclusão precipitada para não perder o timing editorial e saiu dando nome ao bois, sem fazer ideia do tamanho de onde está se metendo.

Há também os técnicos e entusiastas que acreditam que o código é capaz de tudo. Assim, veem nas DAOs a oportunidade de realizar seu sonho de uma organização sem interação humana, onde a perfeição de seus programas, Apps e APIs tornarão o mundo mais justo e a prova de falhas, apesar de nunca terem conseguido entregar nada que cumpra essa última promessa, causando prejuízos terríveis ao longo de décadas.

Por fim, após uma extensa análise de suas ferramentas de monitoramento, virão os marketeiros e os produtores de conteúdo pago, tentando tirar uma casquinha da tendência para vender os produtos de suas empresas. As “academys” vão lançar seus DAO Programs, as universidades criarão departamentos de pesquisa e estudos “descentralizados” e as mídias dependentes, ou seja, produtores de conteúdos comandados por um grupo comercial, explorarão o tema tentando convencer o público que seus patronos estão nessa nova onda antes de todo mundo.

Há projetos de DAOs relevantes já acontecendo

Há diferença entre organização descentralizada e distribuída.

É claro que nesse meio todo há gente boa, com projetos relevantes, que estuda o assunto com seriedade e, por isso, não se manifestou pela seriedade que o tema exige, e por acreditar que seus projetos ainda não apresentaram resultados suficientes para se estabelecer as certezas que já começaram aparecer por aí.

Como tudo que envolve a cripto economia, é importante buscar pessoas com participação em projetos sólidos de DAOs, reconhecidas no mercado por suas realizações na área e manter a mente aberta aos princípios das DAOs. Portanto, desprezando os lacradores arautos das dificuldades ou portadores de soluções baseadas em modelos antigos, capazes de inviabilizar qualquer iniciativa. 

Ao longo dos cinco anos de iniciativas na elaboração de toda uma teoria sobre as Organizações Autônomas Distribuídas (DAOs), de incontáveis horas de discussões e interações com gente no mundo inteiro e várias iniciativas aperfeiçoadas na base da tentativa e erro, pudemos estabelecer alguns princípios sólidos o suficiente para serem considerados como os fundamentos de uma DAO.

Princípios das DAOs

A partir desses princípios é possível identificar os grandes mitos presentes em todos os conteúdos sobre o tema. Sua abordagem aqui vai ajudar a separar o joio do trigo no grande palco de sumidades autodeclaradas, que começam a forçar seu espaço no debate sobre DAOs: 

  1. A formalização, fundação, incorporação de uma DAO como entidade jurídica, seguindo o modelo tradicional, imediatamente mata a DAO e a transforma numa organização comum. Pois exige uma centralização da responsabilidade.
  2. A utilização de processos de governança por eleição, de qualquer tipo, centraliza a DAO no longo prazo e a transforma numa organização comum. Pois o processo eleitoral de tomada de decisão tende a se concentrar nas mãos de poucos.
  3. A formação de fundos centralizados para investimentos em projetos, além de ser extremamente arriscado – vide vários exemplos de desvios, incluindo o da The DAO -, exige um processo eleitoral de escolha, centralizando a organização como tratamos no item 2.
  4. Substituir uma estrutura centralizada em pessoas por uma estrutura descentralizada com um smart contract no centro é trocar seis por meia dúzia eletrônica. Isso coloca toda a organização refém dos desenvolvedores do código, expondo a organização e seus membros a um risco enorme.
  5. Não há cargos, funções ou papéis fixos numa DAO, não há fundadores, conselhos, núcleos, curadores ou qualquer outra classificação capaz de hierarquizar uma DAO. Assim como centralizar sua governança ou exigir processos de admissão ou seleção. Todos podem participar ou deixar uma DAO a qualquer momento sem barreiras.

DAOs são um modelo econômico mais justo

Não há duvida de que as DAOs representam, hoje, a melhor aposta para o futuro do trabalho e um novo modelo econômico, mais justo, capaz de distribuir riqueza, numa evolução do capitalismo atual, acumulador e gerador de desigualdade. 

Porém, para cumprir essa promessa, é preciso começar a explorar novos caminhos. Isso porque desde a atribuição do fracasso da The DAO a um falha tecnológica, a discussão sobre o modelo falho de negócio foi abortada. Toda uma teoria foi construída em cima de um princípio viciado e comprovadamente ineficaz, impedindo o surgimento de alternativas e sacramentando o erro como a única via a ser estudada.

Esperava termos a oportunidade de explorar melhor as DAOs, desde seus fundamentos, até casos e projetos  bem ou mal sucedidos com bastante espaço para aprendizado e questionamento. Infelizmente, a discussão começou mal, pelas mãos e motivos errados. Será necessário muito senso crítico para não se perder no barulho dos lacradores afoitos que se forma no horizonte e ocupará a mídia social nos próximos meses.

*Carl Amorim, colunista do Blocknews, é engenheiro com MBA em Finanças e pós-graduado em Marketing. DAOpreendedor serial, co-iniciador da Prospera, primeira DAO brasileira, co-editor do livro “Blockchain Revolution” e executivo do Blockchain Research Institute no Brasil.

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