Claudia Mancini
é jornalista e cientista política, especializada em negócios, blockchain e economia digital

Corrente de Mulheres: Dari Santos, do Instituto Alinha, eleva renda de costureiras

Dari Santos, do Instituto Alinha, está melhorando a cadeia de produção da moda. Foto: Instituto Alinha

Dando continuidade à série Corrente de Mulheres em blockchain, eu, Liliane Tie, do Women in Blockchain (WIB) Brasil, que fui entrevistada pela fundadora do Blocknews, Claudia Mancini, agora entrevisto a Dari Santos, presidente do Instituto Alinha.

O Alinha usa blockchain para rastrear roupas e garantir que são produzidas em condições justas de trabalho. Para isso, conecta oficinas de costura, confecções e estilistas. Além disso, dá apoio como o de regularização da oficina.

Por que escolhi a Dari como entrevistada? Porque fiquei pensando quem melhor representaria, através do seu negócio inovador, o impacto da tecnologia na vida de mulheres que não tiveram as mesmas oportunidades que nós.

Quantas de nós somos filhas de mães que sonharam e lutaram para que tivéssemos uma vida diferente das delas? Por exemplo, uma costureira que não conseguia juntar economias suficientes para enviar à mãe na Bolívia através dos bancos. Mas que com bitcoin, há cerca de quatro anos, quando a conheci, passou a enviar cerca de R$ 20 através da sua comunidade.

Ou ainda uma jovem numa faculdade pública de tecnologia, também boliviana, que me contou o sonho de ter uma profissão melhor que de seu pai e sua mãe, costureiros de oficina. Para entrarem no Brasil, os pais a colocaram, junto com a irmã, no porta-malas de um carro com um pedido: “não façam barulho ao respirar”.

E, finalmente, uma empreendedora social, a Dari Santos, que na entrevista abaixo conta como blockchain entrou na sua vida e na vida destas pessoas.  Dari busca resolver o problema do trabalho análogo à escravidão, como também mostra o documentário Linhas Tênues.

Estima-se que haja 40 milhões de pessoas nessa situação. O segundo setor que mais explora mão-de-obra nessas condições é a indústria da moda. Por isso, o Alinha pergunta: “Que história você quer vestir?”

Instituto Alinha quer transparência

LT: Dari, qual a sua história com a tecnologia blockchain?

DR: Minha história foi uma causalidade intencional. Eu já havia trabalhado com desenvolvimento de tecnologias na área de produtos de um banco, antes de me tornar empreendedora social. Por conta do histórico de desenvolvimento de produtos sempre pautados em tecnologia, quando comecei a empreender o Instituto, essa pauta já estava no DNA.

Antes de pensarmos em blockchain, trabalhamos quase 4 anos construindo as pontes para as relações mais justas de trabalho. Assessoramos mais de 120 pequenas oficinas de costurar, tornando-as mais formalizadas e seguras. E ainda conectando-as com marcas e estilistas que buscam garantir condições mais justas de contratação.

A tecnologia foi a forma de garantir que além de fazermos a ponte entre oficinas e marcas, os consumidores fossem incluídos. Assim, pudessem, com o auxílio da transparência, incentivar marcas que valorizam a relação com seus fornecedores.

LT: O desafio então passou a ser a confiabilidade das informações fornecidas?

DR: “Descobri” o blockchain em 2017,durante uma maratona de desenvolvimento de soluções tecnológicas que promovesse impacto social. Foi um evento promovido pela SAP. Já tinha desenhado a arquitetura de como gostaria que a transparência da produção funcionasse e na competição, entendi que o blockchain seria perfeito para essa solução.

A ideia nasceu tão promissora que ficou em primeiro lugar nas eliminatórias de São Paulo e em segundo na competição América Latina. Foi um “carimbo” importante que me impulsionou a tirar a ideia do papel.

Entendi que a tecnologia apresentava os recursos que estávamos buscando: descentralização, imutabilidade, e criptografia, que combinados, garantem a confiabilidade das informações. O desenvolvimento e a implementação aconteceu em 2018, quando conseguimos um financiamento via Laudes Foundation Brasil (antigo Instituto C&A).

Blockchain para rastrear produção

LT: Como blockchain está sendo aplicada ao seu negócio e qual o impacto no setor como um todo?

DS: Segundo dados da ABVTEX (Associação Brasileira de Varejo Têxtil) há 30 mil empresas produzindo vestuário no país para abastecimento local, sendo 90% micro e pequenas empresas. A ABVTEX representa 24% do mercado e os outros 76% trabalham sem conformidade e fiscalização. Entendemos que a informalidade aumenta casos de exploração, conhecidos como escravidão moderna. Se uma oficina é informal, é invisível, o que dificulta muito o combate a condições precárias de trabalho.             

Hoje, marcas alinhadas podem disponibilizar aos consumidores um código com as informações da peça salvas em blockchain. Isso torna transparente informações como preço, prazos oferecidos na produção, além de conhecer a história de quem fez a peça.

LT: Como é feita a checagem das etiquetas?

DS: Primeiro, marcas e estilistas se cadastram e aderem a um dos planos Alinha para ter acesso às oficinas e a plataforma de rastreamento com blockchain. A partir daí, buscam oficinas cadastradas e que atendam suas demandas. A negociação é direta com o dono da oficina escolhida.

A marca cadastra no sistema as informações sobre as peças, como ficha técnica e valor de remuneração por etapa e informa a oficina. Então, o sistema notificação para os donos das oficinas, caso a peça passe por mais de uma oficina. Os donos analisam se informações batem com as condições de contratação. Todas as oficinas citadas veem as informações da sua etapa e precisam confirmar as informações, Se houve alguma divergência, a marca é notificada e a TAG não é gerada até que tudo esteja de acordo.

Com a validação de todos os envolvidos na produção, as informações são gravadas em um sistema blockchain e é gerado um código impresso na TAG Alinha) para rastreamento e consulta das informações. As marcas fazem o download da TAG Alinha com o código de rastreamento para inserir na peça. E assim o consumidor adiciona o número do código no site da Alinha e conhece a história da peça.

Informações sobre a produção da peça ficam em blockchain e consumidores podem consultá-las. Foto: Instituto Alinha

LT: Qual tem sido o impacto da TAG Alinha?

DS: Um exemplo claro de impacto social é a comparação do valor de remuneração da mão de obra. Em 2018, iniciamos a assessoria para a formalização da pequena oficina da costureira Alícia, na Zona Norte de São Paulo. Na época em que iniciamos as visitas à oficina dela, ainda sem nenhum tipo de formalização, Alícia costurava um vestido de festa e ganhava R$ 10 por isso. Fizemos um story mostrando e fazendo uma dinâmica que chamamos de “quiz do preço justo”.

Já alinhada, a oficina recebeu, no ano passado, a produção de uma marca também alinhada, que utilizou blockchain para transparência. Se nota a diferença clara de remuneração, dessa vez para um vestido de modelagem até mais simples. A costureira recebeu R$ 50 reais. Um claro impacto do trabalho do Instituto Alinha e da transparência, garantindo melhor qualidade de trabalho e de vida, frutos de uma remuneração justa.     
Razões que nos fazem ter certeza de que a transparência é necessária e urgente!

LT: Como está sendo para você e para os colaboradores do Instituto Alinha se reinventarem durante essa pandemia?

DS: Esse momento tem sido muito desafiador! Já passamos por momentos hiper emergenciais com a diminuição drástica das produções. Por exemplo, uma vaquinha virtual que ajudou a manter 32 famílias de costureiros por 6 meses, até a reestruturação completa da metodologia de trabalho do Instituto.

A pandemia nos obrigou a repensar nosso modelo de assessoria. Antes, começávamos com uma visita presencial à oficina para a criação de um plano de ação indicando as melhorias necessárias para que se tornasse alinhada. Depois, havia de uma série de idas ao local para acompanhar essa evolução. Hoje, transformamos tudo em uma assessoria virtual.

Essa assessoria é “gameficada” e dividida em 8 módulos. Os temas são formalização, relações de trabalho, estrutura da oficina, instalações elétricas, gestão, saúde, higiene e limpeza, segurança do trabalho e organização.

Com a diminuição de visitas, conseguimos esse custo em recompensa para as oficinas. A plataforma premia as conquistas com moedas. Conforme a oficina responde corretamente aos exercícios ou cumpre objetivos, pode trocá-las na loja digital por ferramentas e objetos que vão ajudá-la a conquistar as melhorias necessárias para se tornar uma Oficina Alinhada. Temos tentado ao máximo garantir que essa crise não traga mais precarização para as costureiras e costureiros.

LT: Você acredita que a pandemia acelerou uma moda fígital (físico + digital) e/ou exclusivamente digital?

Expansão para outras cidades

DS: Acredito que sim, pelo próprio exemplo da nova metodologia que citei. Acho difícil ainda ser completamente digital, mas sem dúvida nenhuma houve uma aceleração muito grande dessa transição no último ano.

LT: Quais os planos do Instituto Alinha para 2021?

DS: Para além de sobrevivermos aos muitos desafios institucionais que a pandemia e a crise impuseram, nossos planos incluem uma expansão territorial. Isso porque atendemos apenas oficinas na cidade de São Paulo e na região metropolitana. Com a nova metodologia virtual, poderemos atingir outras regiões que concentram pequenas oficinas informais de costura.

Também estamos iniciando um projeto que visa contabilizar os impactos ambientais da produção das roupas. E também contaremos com o auxílio do blockchain. É um projeto ambicioso de pensar que, para além de vestirmos uma peça que respeitou as pessoas envolvidas na produção, poderemos escolher uma peça que produziu o mínimo de impacto ambiental.

LT: Como nós consumidores podemos contribuir com uma cadeia da moda mais justa e sustentável?

DS: O desenvolvimento de uma solução para a rastreabilidade foi uma demanda que nasceu ao entendermos quão central é o papel do consumidor para a mudança da moda. As nossas escolhas de consumo influenciam a forma de produção das marcas e estilistas. Isso impulsiona a missão do Instituto Alinha em garantir condições justas de trabalho e de vida para quem faz nossas roupas.

Para além de perguntar “quem fez nossas roupas”, temos que perguntar a história por detrás de cada peça. Por exemplo, quanto a costureira ganhou, quantas pessoas foram envolvidas na confecção da peça etc. Felizmente, temos marcas que perceberam o valor de ser pioneiros e iniciar essa implementação de cadeias de produção mais transparentes.

A pesquisa “Global Consumer Pulse” da Accenture Strategy mostrou que 83% dos consumidores brasileiros preferem comprar de empresas que defendem propósitos alinhados aos seus valores de vida. Muitas marcas já se deram conta deste dado e é uma questão de alinhar discurso e prática. Como consumidores, temos que pressionar as marcas a fazerem essa transição não somente para a transparência, mas incluir a rastreabilidade na conta.

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