A tecnologia blockchain poderia ser aplicada para a emissão de títulos para o varejo, mas essa mudança deve acontecer de forma gradual, “do contrário, vai quebrar a perna de muita gente. Em blockchain se faz tudo online de forma transparente para títulos e investidores. No futuro, os serviços dos bancos vão ter de mudar.”

É o que disse ao Blocknews Alessandro Lombardi, CEO da Piemonte, gestora de recursos que fez a primeira emissão de debêntures em blockchain do Brasil, em dezembro passado.

Lombardi, italiano que vive no Rio de Janeiro, é formado em ciências contábeis. “Por ser uma pessoa que vive no débito-crédito da contabilidade, vi que blockchain é uma contabilidade de operações que é quase uma luz que se acende quando você a descobre”.

Decidiu investir numa plataforma blockchain quando viu a operação de 110 milhões de dólares australianos (cerca de US$ 60 milhões) em títulos emitidos pelo Banco Mundial nessa tecnologia. “Me convenci de que a blockchain é muito boa para o mercado de dívidas.” Então resolveu que tentaria se diferenciar no mercado, se antecipando ao que vê como uma tendência.

A Piemonte usou a plataforma Ethereum, usando o padrão ERC-20, e soluções da norte-americana Horizon Globex para compliance, custódia e negociação. Segundo ele, criar contratos inteligentes (smart contracts) na rede blockchain, com todos os dados dos títulos, envolvidos na operação e regras é a parte mais fácil. Foram criados tokens para a emissão de R$ 66 milhões em 440 títulos de R$ 150 mil, foi a parte mais fácil. Os títulos tiveram o valor de face ajustado alinhado ao câmbio do dólar/real. 

A questão mais difícil em investimentos em blockchain é associar a propriedade de cada token aos investidores que compraram. “Mas isso é possível e deixa o investidor com mais garantias de que o que é seu, ninguém pega e não se perde.”

O gestor diz que depois do lançamento foi procurado por muita gente, de investidores a bancos, que buscaram entender como funcionou a operação. A emissão foi privada para 5 investidores, sem esforço, portanto, de colocação no mercado.

Garantia de propriedade

No sistema da Piemonte, o investidor é cadastrado com seus dados numa carteira. A rede – neste caso de 5 investidores – vê que há carteiras, mas não sabe o que cada um tem. “O investidor tem acesso ao que é dele. Não tem como pensar em um título de investimento sem algo assim. O investidor tem que saber que ele é o dono dela e que só ele pode mexer”.

Na operação, a gestora acabou criando um mercado secundário, que pode ser mais ágil em checagem de dados e transferências de títulos.

Isso também facilita que reguladores tenham acesso aos dados, se necessário. E resolve a questão de cadastros mal feitos. Há diversas investigações de corretoras na CVM (Comissão de valores Mobiliários) por falta de informações completas do investidor, diz Lombardi, e isso o smart contract pode resolver.

Pela blockchain, é possível checar dados dos investidores e emissores, como balanços, com agilidade e maior segurança. Os dados ficam gravados na rede. Corta-se o trabalho do analista do mundo real, por exemplo.

Mesmo com tanta tecnologia, a escritura pública ainda precisa ser feita no mundo offline. No Brasil, a regulamentação ainda abre espaço para emissões públicas de títulos em blockchain, que poderiam cortar ou simplificar diversas etapas do processo.

“Emissão de debêntures públicas no mundo offline, só gigantes podem fazer por conta dos custos”, completa Lombardi. Com blockchain, isso pode mudar.