Claudia Mancini
é jornalista e cientista política, especializada em negócios, blockchain e economia digital

CIP, B3, CERC e CRDC vão testar blockchain para checagem dos registros de duplicatas

A CIP (Câmara Interbancária de Pagamentos), a bolsa B3, a CERC (Central de Recebíveis) e a CRDC (Central de Registros de Direitos Creditórios), todas registradoras de ativos, vão iniciar nas próximas semanas um teste com blockchain para verificação de que uma duplicata seja registrada apenas uma vez.

Com isso, as empresas atendem a regra do Banco Central (BC) de implantarem a interoperabilidade entre as empresas do segmento. E no futuro, tudo dando certo, poderão usar a mesma infraestrutura para outros dados.

Hoje, não é possível saber se uma duplicata está registrada em mais de uma empresa. Se houver duplicidade, ganha quem descontar a duplicata primeiro, o que vai contra a natureza do registro, que é dar segurança.

Mas, segundo Aldo Chiavegatti, superintendente de infraestrutura do mercado da CIP, o que motivou o projeto é mais a questão da interoperabilidade do que as fraudes.

Isso porque o BC tem andando na direção da interoperabilidade e recebíveis de cartões de crédito, por exemplo, vão entrar na lista. “Isso vai passar a ser rotina”, completou. Portanto, se dados como os de cartões ou outros passarem no teste, as empresas poderão usar a mesma arquitetura e ganhar escala.

A circular 3.968 do BC, de outubro do ano passado, estabelece a interoperabilidade entre sistemas de registro que ofertam o serviço de um mesmo tipo de ativo financeiro para ônus e gravames sobre esses ativos.

Já as fraudes não são gritantes no registro de duplicatas, disse o executivo, porque quando há duplicidade, em geral decorrerem de erro, uma vez que quem registra são as instituições financeiras.

Dados em casa

Com blockchain, cada registradora é um nó e todas poderão verificar os registros num banco de dados comum. “Mas somos competidores, então podemos preservar os dados em casa e cada uma transmite o que as outras precisam ver”, disse Chiavegatti. Um banco de dados central tradicional teria mais brechas de segurança, completou.

Como o BC está abrindo o mercado a mais registradoras, com empresas aguardando autorização para operar, as novas poderão se juntar à rede criada pelas 4 empresas. Mais empresas e novos produtos farão o projeto ser menos custoso. O custo atual é similar ao das soluções centralizadas existentes, segundo o executivo.

As empresas começaram a discutir o projeto no final de 2018 e fizeram a prova de conceito (POC). Vão usar a solução Corda, da R3. Estão em processo de contratação de solução de desenvolvimento e de operação de ambiente. Com isso fechado, poderão saber exatamente o valor do investimento, que não foi revelado.

Ao mesmo tempo em que estão cuidando da infraestrutura, as empresas cuidam da governança da rede, sendo apontada como uma questão delicada por fornecedores e usuários da tecnologia blockchain. “Governança é uma questão sensível desse tipo de projeto”, afirmou o executivo. Todas as 4 são responsáveis pela, mas ainda há pontos a serem definidos.

Os testes começam na segunda quinzena de abril e devem durar de 30 a 60 dias. A expectativa é que as 4 empresas tenham feito os ajustes para começarem ao mesmo tempo. Mas se duas estiverem prontas, o teste já pode ser feito. O número de transações por segundo foi revisada, não foi revelada. De acordo com Chiavegatti, a rede pode se adequar a novos membros e a mais dados.

Além do custo e da governança, um outro desafio de se implantar uma solução blockchain hoje é a falta de experiência do mercado com projetos grandes, com interoperabilidade dos nós e validação da solução, afirmou o executivo.

Bancos

As instituições financeiras analisam o uso de blockchain para outras operações. No ano passado, 9 bancos, com CIP e Febraban, formaram a Rede Blockchain do Sistema Financeiro Nacional (RBSFN) e implantaram na checagem de fraudes por celular. Se algo errado é detectado, uma instituição avisa a outra.

A RBSFN também analisa implantar, ainda neste ano, o uso de blockchain para compartilhamento de procurações e poderes de clientes.

Santander estende prazo para inscrição no hackathon The Code Force

O Santander estendeu em dois dias, até amanhã (12), as incrições do 2º The Code Force – Hackathon. O desafio é encontrar soluções para os problemas levantados pela emDia, Pi e SIM, novas ventures do Grupo Santander.

Os desafios incluem soluções de negociação de dívidas de inadimplentes de forma mais simples e digital, facilitação da escolha de um investimento por um cliente e ajuda ao cliente para análise de seus créditos e quitação de dívidas.

A inscrição é feita pelo site da competição, o https://www.thecodeforce.com.br/

Stablecoins deverão superar obstáculos de liquidez em negociações intraday

As stablecoins (moedas estáveis criptogradas) privadas, que têm se proliferado pelo mundo, deverão enfrentar obstáculos técnicos, incluindo a necessidade de liquidez nas negociações intraday, afirma o relatório anual do J.P. Morgan sobre a evolução da tecnologia blockchain e dos criptoativos, divulgado na semana passada.

O J.P. Morgan criou a Quorum, uma rede de informações interbancárias com 320 bancos e, segundo notícias do mercado, estaria comprando a Consensys. Segundo a instituição financeira, blockchain já ultrapassou a barreira da experimentação para pagamentos, com bolsas de valores abraçando a eficiência que a tecnologia fornece em fechamentos/clearing e gerenciamento de colaterais.

Soluções para comércio exterior e pagamentos são as que mais entregam eficiência aos bancos, em comparação ao uso para outras áreas, mas a implementação se espalhará em pelos menos 3 a 5 anos, diz o relatório.

Banco Topázio, do RS, vai usar blockchain em pagamentos internacionais

O banco digital Topázio, sediado em Porto Alegre, fechou um acordo com a Nium (ex-InstaReM), plataforma de pagamentos digitais internacionais que faz parte da rede Ripple.

A solução da Ripple é conhecida no mercado por ser mais rápida e mais barata do que as soluções tradicionais de transferências de recursos.

Os serviços serão inicialmente para transferências entre o Brasil e o Canadá e Estados Unidos, mas a expectativa é expandir para outros mercados.

A plataforma Nium está sediada em Singapura e opera em mais de 55 países.

Bancos que atuam nos Emirados Árabes criam platorma para troca de informações sobre clientes

O Departamento de Desenvolvimento Econômico de Dubai (Dubai Economy), o banco Emirates NBD, o Emirates Islamic, o HSBC, o RAKBANK, o Abu Dhabi Commercial Bank (ADCB) e o Commercial Bank of Dubai (CBD), formaram o Consórcio KYC Blockchain,  para compartilhamento de informações Know Your Customer entre eles e com autoridades regulatórias dos Emirados Árabes Unidos.

Dubai tem se movimentado para ser referência no uso de blockchain no mundo e tem desenvolvido uma série de ações nesse sentido em diferentes áreas, em especial em instituições do governo.

Segundo o consórcio, a plataforma terá uma funcionalidade de conta instantânea digital, o que, espera-se, poderá ajudar a atrair investimentos para a região.

PIX, novo sistema de pagamento, pode ser início de transformação digital do sistema financeiro

Desde que assumiu o Banco Central do Brasil (BC) em 2019, o presidente da instituição, Roberto Campos Neto, indicou que faria uma transformação do sistema financeiro para torná-lo mais moderno e alinhado às novas tecnologias. O lançamento do sistema de pagamentos instantâneo, chamado de PIX e anunciado ontem, é um importante começo nesse caminho.

O PIX, que começa a operar em novembro, no esquema 24×7, “vai ser o embrião do que acredito que será uma transformação total no sistema financeiro do país”, disse o presidente do BC, que citou ainda os movimentos de outros bancos centrais na busca por alternativas melhores ao sistema tradicional.

Por ser mais ágil e inclusivo, está mais alinhado ao que tem aparecido no mercado de pagamentos brasileiro e global, por atores fora do sistema financeiro tradicional, como as fintechs.

Há alguns anos, o Brasil ficou conhecido no mundo por ter criado um sistema financeiro ágil, desenvolvido por conta dos custos que a alta inflação representava nas operações bancárias. Agora, o BC parece ter se dado conta de que se não correr, o sistema brasileiro vai passar de referência de moderno, a referência de obsoleto.

O BC garante que será um sistema barato, rápido, transparente e seguro, os mesmos conceitos que fizeram nascer a bitcoin.

Mas o PIX não pode ser comparado ao que a blockchain trouxe com a moeda bitcoin, porque depende de instituições financeiras e de pagamentos intermediando as negociações. É um sistema centralizado, como frisou o BC, e se é seguro como o que a blockchain oferece, ainda não se sabe.

A parte inclusiva fica por conta da possiblidade de participação de todos os agentes do mercado financeiro e de quem não tem conta em banco. As grandes instituições financeiras são obrigados a aderir, o que ajuda a garantir o sucesso da operação, a torna ampla e provavelmente tão grande que será difícil ser desmantelada (too big to fail). Mas isso também reforça o caráter centralizado e não peer-to-peer (transações entre pessoas).

De acordo com o BC, o ecossistema do PIX é aberto e inclui as instituições financeiras e de pagamento, a plataforma onde será feita a liquidação das transações desses participantes e o diretório de identificadores de contas transacionais, que vai armazenar as informações das chaves ou apelidos para identificação das contas dos usuários recebedores. Toda a parte das instituições financeiras, de pagamentos e do diretório são operadores e geridos pelo BC.

10 segundos

Desnecessário lembrar que uma operação feita em até 10 segundos, a promessa do PIX, é muito ágil. Nem a rede bitcoin consegue tanto.

Sim, a TED já é instantânea. Mas não é 24 horas. Para permitir pagamentos assim, fora do horário normal de transações executadas no mesmo dia, como é hoje, as instituições poderão utilizar compulsórios sobre depósitos à vista, a conversão de títulos públicos federais ou mecanismos privados de provimento de liquidez. “Alguma instituição poderá querer prover liquidez para os participantes, já temos conversas sobre isso”, disse o presidente do BC.

Há ainda um outro ponto pouco comentado ontem. Não é só pagamento instantâneo entre pessoas ou empresas, mas até pagamento de taxas poderão ser feitas pelo PIX, já que a Secretaria Nacional do Tesouro está no sistema. Isso inclui, por exemplo, a do passaporte.

O sistema vai permitir o uso de QR Code ou informação de dados para realizar os pagamentos. Em seguida, deve vir a possibilidade de pagamento por aproximação.

Se continuar assim, vem muita novidade por aí.

Citibank adere à Contour, rede de bancos que usam blockchain em comércio exterior

O Citibank anunciou que fará parte da Contour, rede de financiamento de comércio exterior (trade finance) em blockchain, antes conhecida como Voltron. A rede digitaliza cartas de crédito, um processo feito ainda em papel, e permite o compartilhamento de dados de forma eficiente e mais transparente entre os membros da Contour.

A Contour começou como um projeto dentro do consórcio R3, utilizando a plataforma Corda. A rede foi lançada em Singapura em abril de 2018 e depois de realizar pilotos em 14 países, entrou em operação comercial no mês passado, sendo agora um negócio independente.

O Citi está investindo no projeto por meio da Citi Ventures. Dentre as instituições que fazem parte estão o HSBC, ING, Standard Chartered, Bangkok Bank, SEB (da Suécia), BNP Paribas, e a Bain & Company.

Os pilotos feitos pela Contour incluíram a simulação de transações digitais de cartas de crédito em 27 países de seis continentes, uma transação comercial totalmente integrada e sem uso de papel entre a Rio Tinto e a Cargill, o primeiro desse tipo nessa indústria, e o processamento de uma carta de crédito em iuan, também pioneira por ser na moeda chinesa e na tecnologia blockchain.

AXA e Santander cancelam produtos lançados em plataformas blockchain

A AXA, uma das maiores seguradora do mundo, deixou de usar sua plataforma em blockchain Fizzy,  de pagamento automático de seguro para voos cancelados ou atrasados, depois de um ano e meio de uso. O Santander cancelou o bônus de um ano lançado por meio de blockchain, apenas 3 meses depois da emissão. E a Sareb, criada em 2012 para ajudar sanear o sistema financeiro espanhol depois da crise que estourou em 2008, deixou em suspenso a venda online de empréstimos feita por essa tecnologia, conforme noticiou o Blockchain Economía, site parceiro do Blocknews.

A Fizzy usava estatísticas de voos para rastrear e reembolsar automaticamente os passageiros. Laurent Benichou, responsável pelo projeto na AXA, disse que  entre os motivos para o fim do produto está o desempenho do mercado de viagens. Fato é que o produto automaticamente fazia as companhias ressarcir os passageiros por atrasos e cancelamentos.

Embora muitas gostem de se dizer responsáveis, nem sempre querem isso na prática e fogem de processos mais transparentes e que criem uma nova relação de confiança com seus clientes e consumidores.

Benouche, head da Fizzy e de cripto na seguradora, disse que a empresa não vai desistir de projetos que envolvam criptografia e proteção das pessoas.

Um porta-voz do Santander na Espanha afirmou que o banco viu que a tecnologia blockchain funciona para para lançamento de bônus, e por isso não havia razão para expandi-lo. O banco afirmou que foi cancelado porque foi um êxito.

A Sareb disse que seu projeto em blockchain para venda de empréstimos vai atrasar porque há muita concorrência no mercado nesse segmento e a empresa vai se concentrar em outros produtos. Mas continua a analisar blockchain para pagamento de impostos e outras ações vinculadas a registro de propriedade.

Ônus e bônus do novo

Por ser uma tecnologia ainda nova, blockchain está sendo testada em diversos processos, alguns deles que parecem ter características condizentes com a tecnologia e outros que obviamente não se adaptam a ela. Mas como tudo o que é novidade, atraiu muita atenção e testes.

Tanto usuários quanto fornecedores de plataformas acreditam que o mercado ainda está na curva de aprendizado, mas caminhando mais para uma solidificação do que para um desmoronamento. Há diversos projetos em curso e com resultados interessantes. Por isso, tanto os que são bem sucedidos, quanto os mal sucedidos, servem para o amadurecimento de blockchain.

A questão toda é se as empresas vão querer se modernizar não apenas tecnologicamente, mas também na forma de lidar com relações mais transparentes com toda a sua cadeia de fornecedores e com seus clientes. Blockchain envolve uma mudança de mentalidade para algo muito mais alinhado às demandas das novas gerações.

Santander contrata executiva especializada em pagamentos P2P

O banco Santander anunciou ontem a contratação de Trish Burgess como nova líder global de pagamentos peer to peer (P2P), um cargo que acaba de ser criado. Sua missão é expandir os serviços de pagamentos feitos diretamente entre clientes para que o banco crie uma rede internacional de pagamentos.

A contratação faz parte da estratégia do Santander de investir 20 bilhões de euros em ações digitais e tecnologia num período de 4 anos para se tornar a melhor plataforma de serviços financeiros abertos do mundo.

A executiva veio da Apple, onde foi responsável pelo Apple Card, além de lançar o Apple Pay na Europa e Ásia. Ela fará parte de um time de executivos que mistura experiência em tecnologia e serviços financeiros, com profissionais vindos de empresas como Google, PayPal, Facebook e Amazon.

EUA, maior mercado mobiliário do mundo, tentam entender uso de blockchain no setor

Nenhum país lidera hoje a tecnologia blockchain para títulos mobiliários digitais. O maior mercado de capitais em dólar e volume é o dos Estados Unidos (EUA) e o país ainda está tentando entender como fazer a emissão de títulos respeitando o compliance e negociar os títulos de forma digital com segurança, diz Brian Collins, CEO da Horizon Globex, startup norte-americana focada em soluções em blockchain para o setor mobiliário.

A Horizon Globex deu o suporte para o lançamento privado das primeiras debêntures em blockchain no Brasil. A emissão de R$ 66 milhões foi feita pela gestora carioca Piemonte, em dezembro passado.

Os reguladores de mercados mobiliários não querem barrar a inovação no setor, mas têm o dever de proteger os cidadãos de golpes, afirma o executivo.

A maioria das negociações de valores mobiliários já é digital, agora, a tecnologia nos mercados financeiros deve avançar na transparência e em fechamentos de contratos de forma instantânea, completou

Segundo ele, tanto a SEC, a comissão de valores mobiliários dos EUA, quanto a Finra, a autoridade regulatória do setor financeiros norte-americano, têm avançado nessa direção, mas a CVM também. “O Brasil não está atrás de nenhum outro mercado. É uma questão de alinhamento regulatório associado à educação do investidor.