Claudia Mancini
é jornalista e cientista política, especializada em negócios, blockchain e economia digital

Citibank adere à Contour, rede de bancos que usam blockchain em comércio exterior

O Citibank anunciou que fará parte da Contour, rede de financiamento de comércio exterior (trade finance) em blockchain, antes conhecida como Voltron. A rede digitaliza cartas de crédito, um processo feito ainda em papel, e permite o compartilhamento de dados de forma eficiente e mais transparente entre os membros da Contour.

A Contour começou como um projeto dentro do consórcio R3, utilizando a plataforma Corda. A rede foi lançada em Singapura em abril de 2018 e depois de realizar pilotos em 14 países, entrou em operação comercial no mês passado, sendo agora um negócio independente.

O Citi está investindo no projeto por meio da Citi Ventures. Dentre as instituições que fazem parte estão o HSBC, ING, Standard Chartered, Bangkok Bank, SEB (da Suécia), BNP Paribas, e a Bain & Company.

Os pilotos feitos pela Contour incluíram a simulação de transações digitais de cartas de crédito em 27 países de seis continentes, uma transação comercial totalmente integrada e sem uso de papel entre a Rio Tinto e a Cargill, o primeiro desse tipo nessa indústria, e o processamento de uma carta de crédito em iuan, também pioneira por ser na moeda chinesa e na tecnologia blockchain.

AXA e Santander cancelam produtos lançados em plataformas blockchain

A AXA, uma das maiores seguradora do mundo, deixou de usar sua plataforma em blockchain Fizzy,  de pagamento automático de seguro para voos cancelados ou atrasados, depois de um ano e meio de uso. O Santander cancelou o bônus de um ano lançado por meio de blockchain, apenas 3 meses depois da emissão. E a Sareb, criada em 2012 para ajudar sanear o sistema financeiro espanhol depois da crise que estourou em 2008, deixou em suspenso a venda online de empréstimos feita por essa tecnologia, conforme noticiou o Blockchain Economía, site parceiro do Blocknews.

A Fizzy usava estatísticas de voos para rastrear e reembolsar automaticamente os passageiros. Laurent Benichou, responsável pelo projeto na AXA, disse que  entre os motivos para o fim do produto está o desempenho do mercado de viagens. Fato é que o produto automaticamente fazia as companhias ressarcir os passageiros por atrasos e cancelamentos.

Embora muitas gostem de se dizer responsáveis, nem sempre querem isso na prática e fogem de processos mais transparentes e que criem uma nova relação de confiança com seus clientes e consumidores.

Benouche, head da Fizzy e de cripto na seguradora, disse que a empresa não vai desistir de projetos que envolvam criptografia e proteção das pessoas.

Um porta-voz do Santander na Espanha afirmou que o banco viu que a tecnologia blockchain funciona para para lançamento de bônus, e por isso não havia razão para expandi-lo. O banco afirmou que foi cancelado porque foi um êxito.

A Sareb disse que seu projeto em blockchain para venda de empréstimos vai atrasar porque há muita concorrência no mercado nesse segmento e a empresa vai se concentrar em outros produtos. Mas continua a analisar blockchain para pagamento de impostos e outras ações vinculadas a registro de propriedade.

Ônus e bônus do novo

Por ser uma tecnologia ainda nova, blockchain está sendo testada em diversos processos, alguns deles que parecem ter características condizentes com a tecnologia e outros que obviamente não se adaptam a ela. Mas como tudo o que é novidade, atraiu muita atenção e testes.

Tanto usuários quanto fornecedores de plataformas acreditam que o mercado ainda está na curva de aprendizado, mas caminhando mais para uma solidificação do que para um desmoronamento. Há diversos projetos em curso e com resultados interessantes. Por isso, tanto os que são bem sucedidos, quanto os mal sucedidos, servem para o amadurecimento de blockchain.

A questão toda é se as empresas vão querer se modernizar não apenas tecnologicamente, mas também na forma de lidar com relações mais transparentes com toda a sua cadeia de fornecedores e com seus clientes. Blockchain envolve uma mudança de mentalidade para algo muito mais alinhado às demandas das novas gerações.

Santander contrata executiva especializada em pagamentos P2P

O banco Santander anunciou ontem a contratação de Trish Burgess como nova líder global de pagamentos peer to peer (P2P), um cargo que acaba de ser criado. Sua missão é expandir os serviços de pagamentos feitos diretamente entre clientes para que o banco crie uma rede internacional de pagamentos.

A contratação faz parte da estratégia do Santander de investir 20 bilhões de euros em ações digitais e tecnologia num período de 4 anos para se tornar a melhor plataforma de serviços financeiros abertos do mundo.

A executiva veio da Apple, onde foi responsável pelo Apple Card, além de lançar o Apple Pay na Europa e Ásia. Ela fará parte de um time de executivos que mistura experiência em tecnologia e serviços financeiros, com profissionais vindos de empresas como Google, PayPal, Facebook e Amazon.

EUA, maior mercado mobiliário do mundo, tentam entender uso de blockchain no setor

Nenhum país lidera hoje a tecnologia blockchain para títulos mobiliários digitais. O maior mercado de capitais em dólar e volume é o dos Estados Unidos (EUA) e o país ainda está tentando entender como fazer a emissão de títulos respeitando o compliance e negociar os títulos de forma digital com segurança, diz Brian Collins, CEO da Horizon Globex, startup norte-americana focada em soluções em blockchain para o setor mobiliário.

A Horizon Globex deu o suporte para o lançamento privado das primeiras debêntures em blockchain no Brasil. A emissão de R$ 66 milhões foi feita pela gestora carioca Piemonte, em dezembro passado.

Os reguladores de mercados mobiliários não querem barrar a inovação no setor, mas têm o dever de proteger os cidadãos de golpes, afirma o executivo.

A maioria das negociações de valores mobiliários já é digital, agora, a tecnologia nos mercados financeiros deve avançar na transparência e em fechamentos de contratos de forma instantânea, completou

Segundo ele, tanto a SEC, a comissão de valores mobiliários dos EUA, quanto a Finra, a autoridade regulatória do setor financeiros norte-americano, têm avançado nessa direção, mas a CVM também. “O Brasil não está atrás de nenhum outro mercado. É uma questão de alinhamento regulatório associado à educação do investidor.

Artigo Deloitte: Transformação digital: como blockchain pode agregar valor para líderes de finanças

A transformação digital segue a passos largos, passando pelos processos em startups e no core business das organizações em direção às áreas de back office.

Desafios relacionados a gestão eficiente dos dados com massa crítica de dados, desestruturação, confiabilidade e falta de ferramentas de análise frente a necessidade imediata para tomada de decisões estão no dia-a-dia de todos os líderes de negócios e podem ser solucionados com apoio da tecnologia, seja de forma isolada ou agregada.

Com base na pesquisa Global Blockchain Survey, realizada pela Deloitte em 2019, os executivos brasileiros responderam que 47% dos projetos de blockchain estão já em fase de produção, 23% acima ao dado global, enquanto 43% entrarão em produção nos próximos 12 meses, 2% acima ao dado global, o que sinaliza o quanto o blockchain está na pauta de transformação digital das empresas locais.

Além disso, 79% dos executivos brasileiros salientaram que estes projetos de blockchain estão entre os 5 mais críticos no portfólio da empresa – 26% acima ao dado global – e 35% destes projetos terão investimentos aproximadamente entre US$ 1 milhão e US$ 5 milhões.

Solução blockchain

O blockchain tem duas aplicações principais:

  • Público: Permite negociar criptoativos como o Bitcoin;
  • Privado: Permite gerenciar transações relacionadas aos negócios, incluindo processos financeiros como contas a pagar e receber, contabilidade e compliance.

Blockchain privado pode operar como solução isolada. Entretanto, é possível ampliar e potencializar sua utilização combinando o uso de outras tecnologias, como: analytics avançado, visualizadores, computação cognitiva, Robotics Process Automation (RPA), processamento in-memory ou inteligência artificial, para reestruturar o processo de ponta a ponta. Os casos listados na imagem abaixo possuem demonstrações tácitas dos possíveis benefícios do blockchain:

Independente do segmento de atuação e porte de uma empresa, a transformação digital é uma realidade para todas as organizações e impacta todas as áreas. Os líderes de finanças que embarcaram nessa jornada já percebem os ganhos em performance e melhoria de eficiência, e certamente se destacarão como catalisadores para a transformação dos negócios em suas empresas.

O blockchain às vezes pode parecer complexo e longe da realidade, porém os resultados da pesquisa da Deloitte citada anteriormente demonstram a eminência e aplicabilidade desta tecnologia em diversas indústrias no Brasil. Mais importante que ter o domínio técnico do assunto é concentrar esforços em estabelecer um projeto piloto na empresa, avaliando o fit-and-gap das soluções tecnológicas.

Por onde começar

Tornar blockchain real é a melhor maneira de torná-lo compreensível.

*Sérgio Biagini é sócio da Consultoria Empresarial e líder da Indústria de Financial Services da Deloitte Brasil.

*Arthur Nerath é grente em Finance & Enterprise Performance da Consultoria Empresarial da Deloitte Brasil.

JP Morgan negocia fusão da Quorum com a Consensys, do co-fundador da Ethereum

O JPMorgan Chase, maior banco dos Estados Unidos, está negociando a fusão de sua unidade de blockchain Quorum com a Consensys, startup para aplicativos e outras atividades criada por um dos fundadores da Ethereum, Joseph Lubin. A informação foi divulgada pela agência de notícias Reuters nesta manhã (11).

A Consensys desenvolve aplicações e ferramentas para desenvolvedores, investe em outras startups e promove cursos sobre blockchain. A sua reestruturação, anunciada na semana passada, pode ser o sinal de que a empresa se prepara para um novo sócio ou parceiro e a fusão com a Quorum poderia dar maior força ao seu braço de desenvolvimento de softwares.

A startup anunciou que demitiria 14% de seus funcionários devido a uma reestruturação para separar seu braço de desenvolvimento de softwares de suas atividades de investimentos (venture).

A Quorum, assim como a Consensys, também opera com Ethereum, usada na sua Rede de Informações Interbancárias (Interbank Information Network, IIN), que inclui cerca de 320 bancos. A Quorum também tem feito outros testes, como o de empréstimos para carros usando blockchain. O banco já demonstrava querer um spin off da Quorum.

A informação chama a atenção por significar uma operação entre um dos bancos mais tradicionais do mercado financeiro global com uma startup de uma tecnologia que a princípio foi criada para acabar com a intermediação bancária.

Mas o CEO do JPMorgan, Jamie Dimon, há muito tempo se mostra interessado na tecnologia e investiu nela, com a Quorum. Do que ele parece não gosta mesmo é de criptomoedas como bitcoin, que chamou de fraude, em 2017. Há um ano, o banco anunciou que iniciaria testes de sua própria moeda para pagamentos instantâneos. Dimon disse que que a JPM Coin não tem nada a ver com bitcoin.

Visa lança programa de aceleração; soluções em blockchain estão incluídas

Startups que atuam em blockchain estão na lista de interesse do Programa de Aceleração Visa 2020. O programa vai escolher as que estão em fase de crescimento ou escala, têm uma base de clientes e geram receita.

A Visa vai dar recursos não-financeiros, como local de aceleração, consultoria digital, mentoria e duas semanas no Vale do Silício para que as startups façam contatos com investidores, interessados em seus produtos e serviços e validem seus modelos de negócios.

Além de blockchain, a Visa vai escolher empresas que tenham soluções para pagamentos, transações, gestão financeira, big data, machine learning, inteligência artificial, automação comercial, gestão de vendas, melhorias de processos, CRM e mobilidade urbana.

As inscrições vão até o próximo dia 13 de março e são feitas pela plataforma da StartSe.

Primeira bolsa de commodities em blockchain deve entrar em operação comercial neste ano

Está prevista para entrar em operação no segundo semestre deste ano a primeira plataforma digital do país para negociações de commodities com o uso de blockchain. A Gavea Marketplace vai realizar transações entre os participantes da rede e rastrear commodities negociadas desde a operação comercial até o pós-venda.

Segundo Vítor Uchôa Nunes, fundador da Gavea, a plaforma permite redução de custos e burocracia e, com negociações diretas, sem intermediários, pode aumentar a margem dos participantes,

A Gavea foi um dos 20 projetos selecionados pelo LIFT (Laboratório de Inovações Financeiras e Tecnológicas) do Banco Central e está sendo desenvolvida há um ano.

A bolsa vai usar a plataforma Corda, da R3, especializada em instituições financeiras. Segundo Uchoa, a Corda foi escolhida por questões como interoperabilidade.

A plataforma começa a ser apresentada em março para parceiros e o piloto começa em julho em algumas regiões do país, com soja e milho. Primeiro será no sul. A expectativa é entrar em operação comercial em setembro.

Interoperabilidade e simplicidade são tendências de 2020, diz estudo da R3

2020 vai ser um ano de bons resultados para as empresas que passaram 2018 e 2019 trabalhando em projetos que usam a solução blockchain. Quem teve como meta o sucesso no final deste ano e em 2021, vai aprender com o o que aconteceu com os primeiros que adotaram a tecnologia para identificar o seu melhor uso.

Quem diz isso é o relatório Blockchain: 2020 Vision, da R3, empresa de software blockchain para instituições financeiras. A pesquisa entrevistou membros do ecossistema da R3.

Os usuários também vão estar melhor informados para fazerem as perguntas certas aos fornecedores. Em entrevista ao Blocknews nesta semana, Keiji Sakai, responsável pela R3 na América Latina, afirmou que as áreas de negócios dos bancos começam a entender melhor a tecnologia.

Outros dos pontos levantados pelo relatório é a busca por mais simplicidade para buscar maior privacidade. E as organizações estarão focadas em governança da rede, conectividade e a melhor forma de expansão. Isso, por sua vez, vai puxar a volta da preocupação com interoperabilidade.

R3 será mais agressiva no mercado brasileiro em 2020, diz Keiji Sakai

A R3, empresa de software blockchain, que foca em instituições financeiras como bancos e seguradoras com sua plataforma Corda, começa 2020 com o plano de ser mais agressiva. Na prática, isso significa colocar não apenas o time local, mas também o internacional para trabalhar com mais detalhamento no desenho de soluções para o mercado brasileiro e alguns dos países latino-americanos, disse ao Blocknews Keiji Sakai, country head da empresa na região.

Sakai, que já passou por diversas instituições financeiras, resolveu mudar o curso da sua carreira depois que tirou um sabático, foi estudar fora (na Singularity University) e conheceu a tecnologia blockchain. Na entrevista a seguir, o executivo, de fala mansa, conta que agora a R3 foca nas áreas de negócios das empresas, e não de tecnologia.

BN: Qual era o cenário de blockchain quando a R3 se instalou aqui?

KS: O escritório foi instalado no final de 2017 e eu entrei na R3 em 2018, um ano que ainda era de estudo e desenvolvimento do mercado. O conhecimento não era tão amplo e choviam eventos em blockchain. Era uma fase de evangelização, principalmente de bancos, independentemente de plataformas. Isso porque se via que os bancos poderiam se beneficiar de blockchain e estavam à frente no uso da tecnologia. A Febraban (Federação Brasileira de Bancos), por exemplo, já estava estudando o assunto.

A R3 começou a ter seus primeiros casos concretos em 2017 e em 2018 começaram a aparecer mais lá fora. No Brasil, nessa época, começaram a surgir mais soluções B2C em blockchain. Em B2B havia provas de conceito (PoCs) dos grandes bancos que até chegaram a virar pilotos, mas não tivemos grandes lançamentos em 2018.

BN: E o que mudou desde então?

KS: Em 2019, comecei achando que blockchain ia estourar no país e no mundo. Estourou no mundo, mas no Brasil a adoção ainda está um pouco lenta, principalmente em comparação com Ásia e Europa. Estamos um ano atrás deles em termos da discussão com as áreas de negócios para identificar os benefícios da tecnologia. A gente deveria esquecer a blockchain e pensar em como resolver problemas que não foram resolvidos. A tecnologia é um meio para isso e estamos olhando como um fim. A coisa tem que ser mais natural, o problema tem que se encaixar numa oportunidade de usar blockchain. Lá fora isso está mais maduro, com a discussão focada no que vamos resolver.

BN: Na prática, o que isso significa?

KS: Nossa tática é falar mais com a área de negócio do que com a de tecnologia. No começo era com o time de tecnologia, porque era quem conhecia o assunto e tentava empurrar os projetos dentro das organizações. Mas hoje há mais conhecimento das áreas de produtos, do benefício da adoção de blockchain e de como utilizá-la. Tem muita gente de produtos que foi fazer cursos, inclusive como pessoa física, para tentar entender o assunto, principalmente no mercado financeiro. Há um ano eu diria que o conhecimento dessa área era nota de 1 a 2, numa escala de 1 a 10. Hoje é nota de 4 a 6. É uma indústria mais madura. O setor de seguros também está amadurecendo. Em algumas outras indústrias, a discussão é bem incipiente, porque para as áreas de negócios, ainda não é tão óbvio enxergar os benefícios.

BN:Qual é o cenário em seguros no Brasil?

KS: Muitas seguradoras estão amadurecendo. No mundo inteiro há projetos e consórcios que surgiram para discutir projetos em blockchain, como na Índia, Itália e o B3i (consórcio no qual o IRB Brasil Re está).

BN: Qual sua expectativa para 2020?

KS: Este ano, estamos mais agressivos. Aqui (São Paulo) é o quarto escritório global (os anteriores em cronologia foram Nova York, Londres, Singapura e depois do Brasil, abriu-se um em Hong Kong). A R3 é uma empresa global de cerca de 300 funcionários, no Brasil somos 5, porque somos uma representação comercial, mas a empresa é uma startup. Então, conseguimos navegar nela e discutir cada oportunidade que aparece com todos os executivos sêniores. Com isso, submeti uma proposta de ser bastante agressivo no Brasil, apoiando potenciais projetos que estão nascendo e eventualmente colocando gente nossa para ajudar a desenhar, a estruturar a solução, e consegui esse apoio. Com apoio do time global, alocando pessoas do mundo todo, posso fazer isso.

Quanto aos projetos, há casos para serem anunciados neste ano.

BN: Essa tática de maior agressividade é para a América Latina toda?

KS: O Brasil está um ano atrás do resto do mundo, mas o resto da América Latina está um pouco mais atrás ainda no entendimento de blockchain e no conhecimento geral da plataforma Corda . Há alguns locais onde há um pouco mais de maturidade, como México, Colômbia, Chile e Peru. Nesses 4 mercados já devemos realizar negócios. Precisamos fazer um trabalho de evangelização na região, onde estamos trabalhando desde o final de 2018, porque temos clientes que eram membros do consórcio R3. Em 2019, nossa dedicação já foi bem maior nesses mercados.

BN: Como vai o negócio R3 no Brasil e na região?

KS: Meu planejamento é em receita. Não abrimos isso ainda, mas em algum momento podemos falar porque no futuro a empresa pode abrir capital. Há projetos para serem anunciados neste ano. Até 2019, não tínhamos tanto casos de uso, o ano de fato é 2020. Um dos cases de uso é o da B3, que fez uma simulação completa da implementação dentro do próprio data center. A grande maioria utiliza ambientes na nuvem. Estruturas de mercado financeiro geralmente preferem, para dados críticos, utilizar seu próprio ambiente. Para dados não críticos, concordam em utilizar cloud. No Lift (Laboratório de Inovações Financeiras e Tecnológicas , da Fenasbac, a da associação dos servidores do Banco Central e do banco) há 3 desenvolvidos em Corda. Apoiamos também o projeto do Banco Maré, um banco social, no qual a Multiledgers faz as implementações de soluções na plataforma R3.

BN: O que diferencia a plataforma Corda?

KS: Tínhamos desenvolvido solução para os bancos e reguladores usando outra tecnologia, mas não atendia alguns requisitos, principalmente o de privacidade. Todas as tecnologias partem do princípio de que a informação é compartilhada com todos. Isso gera um risco de segurança da informação, de confidencialidade e até em relação à LGPD (a lei de privacidade de dados do Brasil). Os bancos disseram que não conseguiam usar a tecnologia porque uma das coisas fundamentais para eles é a privacidade, não permitir que o ledger de um seja distribuído para todos. E aí o consórcio* decidiu criar uma plataforma que endereçasse esse e outros problemas levantados. Existiam mais de 100 bancos e reguladores no consórcio, indicando quais os requisitos fundamentais para que uma tecnologia blockchain fosse utilizada pelo mercado financeiro.

Corda é a terceira geração de blockchain. A primeira foi a de bitcoin, a segunda foi de processamento de smart contracts e de redes permissionadas (fechadas) e a terceira criou a privacidade e interoperabilidade entre as redes. Corda foi construída para atender a privacidade da informação e só distribui o dado para quem está autorizado a vê-lo. Se é um contrato entre 5, só os cinco veem.

BN: E qual é a vantagem?

KS: Você tem uma rede gigantesca e pode operar com todos, pode ter o que for comum a todos, mas quando faz transação com um ou mais entes, os outros nem sabem que ela foi executada.  Essa solução é eficiente porque mantém todos sincronizados, todos com a mesma versão mais recente (do software), todos com cópias iguais e não se consegue deletar ou alterar dados. Mesmo uma operação entre duas entidades traz muitos benefícios. Se for feita uma operação por telefone, por exemplo, uma parte digita o acordado de um lado e a sua contraparte do outro digita com um zero a mais ou a menos e isso pode gerar contestação. O custo dela é altíssimo, até descobrir onde está a diferença, ouvir a gravação…, isso leva tempo, dinheiro e pode gerar disputa de questões legais e regulatórias. Além disso, blockchain elimina processos intermediários. Um dos casos mais bem sucedidos de blockchain é em trade finance (comércio exterior) porque a troca de documentos é tão grande que demora de 5 a 10 dias para concretizar a formalização e um caso usando uma plataforma blockchain conseguiu resolver isso em algumas horas. Você reduz de até 10 dias a algumas horas. Em seguros isso faz muito sentido. Tudo o que tem muito trabalho, muito controle de papel, de documentação indo de um lado para outro, atualização de dados, validação, vai e volta, por correio e email, começa a se resolver com uma tecnologia que todo mundo tem a última versão e as informações são compartilhadas.

BN: Usar blockchain é buscar eficiência e redução de custos…

KS: O que a gente promove é eficiência, a redução de custo é consequência. Tem muita ineficiência em todo o mercado, porque têm muitos processos desenhados na década de 90, por exemplo. Têm coisas que pararam no tempo porque não doíam e as tecnologias disponíveis não traziam soluções eficientes. Mas, hoje o volume transacional aumentou muito e aquilo que não doía, começa a doer. Além disso, a tecnologia está cada vez mais barata. Não digo que blockchain é barata, mas a tecnologia em si é mais barata, como storage, servidor, processador… Ficou mais acessível, então certas coisas que ficaram esquecidas porque não atrapalhavam, hoje poderiam ser mais eficientes. Blockchain traz isso à tona a partir do momento em que começamos a provocar essa discussão: por que preciso disso? Como fazer  em maneira segura? Como manter a integridade das informações?

*A R3 nasceu como um consórcio global de bancos e outras participantes do sistema financeiro, como reguladores. Mais tarde tornou-se uma empresa, com alguns desses participantes se tornando-se sócios. Bradesco, Itaú e B3 estão entre os sócios.