Claudia Mancini
é jornalista e cientista política, especializada em negócios, blockchain e economia digital

É lançada a Oyx, criptomoeda de povos indígenas, para resolver problemas básicos nas comunidades

Foi lançada, ontem (11), a criptomoeda Oyx, pelos povos indígenas Surui Paiter e Cintas-Largas. O objetivo é arrecadar recursos para ações como garantia de renda mínima, resgate de suas culturas e outros projetos relacionados a necessidades básicas das tribos, que ficam em Mato Grosso e Rondônia e que somam 4 mil pessoas.

O idealizador da moeda é Elias Oyxabaten Surui, que trabalha no Distrito Sanitário da Saúde Indígena e ajuda a desenvolver projetos na região. “Na nossa aldeia, ninguém é assalariado. Todos têm condições precárias de vida. Pelo governo, a gente não tem direito a nada. Pelo contrário, limitam os nossos povos e a nossa produção. Durante a pandemia, sofremos muito”, afirma.

Com o token, busca-se dar autonomia para o povo suruí-cinta-larga para captação e gestão de seus recursos financeiros, diz o white-paper. E “é uma ideia minha de união. A intenção é trabalhar com os dois povos e mostrar serviço para auxiliar as duas comunidades”, diz Surui.

Foram criadas 100 milhões de Oyx, ao preço de R$ 10 cada, o que somará R$ 1 bilhão se todos forem vendidos. “O dinheiro vai ficando no caixa e sendo usado a partir do momento em que cada projeto tenha sido desenhado e aprovado. Queremos que seja uma arrecadação enorme, mas que seja gradativa, porque temos que resolver questões como saneamento e material para prevenção contra Covid-19. A ideia é resolver primeiro os problemas mais básicos”, disse ao Blocknews Adriana Siliprandi, advogada e administradora, especialista em blockchain e administradora da Oyxabaten, empresa criada para gerenciar o projeto.

Quem compra o token estará fazendo uma contribuição direta, sem intermediários, para a causa das comunidades, que além das ameaças com garimpo ilegal e desmatamento, são afetadas pela falta de apoio para atingirem condições mínimas de vida. Salário ou outro tipo de renda garantida não é algo comum nesses locais, onde a existência se dá muito em função da pesca, agricultura e artesanato.

Foi criada empresa para gerenciar o negócio. Foto: Anápuáka Muniz Tupinamba Anápuáka, Pixabay

O lançamento foi ontem, na Blockchain Connect, às 18 horas. Até 10h desta quinta-feira (12), 80 pessoas tinham se cadastrado para comprar as moedas. Após cadastro no site do projeto, é preciso baixar a carteira Metamask, que armazena tokens da Ethereum.

A Oyxabaten é uma MEI – que vai se tornar Eirele – no nome de Surui, com pessoas que cuidam da área administrativa, marketing e atendimento ao cliente. Surui faz a ponte entre a empresa e os índios e também cuida dos recursos. Segundo Adriana, toda a contabilidade será publicada mensalmente na exchange. A Tokefy é quem faz a tokenização. Adriana é co-fundadora da empresa, com Leandro Mazzetto, que também atua na Oyxabaten.

Num passo seguinte, depois de sanear necessidades básicas das comunidades, a ideia é começar a empreender, por exemplo, para usar o tokens para o pagamento de recursos dessas terras indígenas, dentro do que a legislação permite. Isso eliminaria a extração ilegal de recursos, acreditam os idealizadores do projeto. E protegeria os interesses da União, diz o white paper da Oyx.

A Oxy não se trata, portanto, de investimento financeiro. Está numa categoria de projetos com foco social, para a revitalização ou desenvolvimento econômico de comunidades vulneráveis. O fato de que em blockchain é possível registrar a doação e saber onde foi parar o dinheiro tem sido usado por várias ONGs no mundo para dar mais segurança aos doadores e incentivá-los a colocar recursos em seus projetos.

O projeto começou a se tornar realidade quando o empresário Augusto Marques, que conhecia Adriana e Surui, apresentou os dois. O empresário ajudou a financiar o plano de lançar a Oyx.

Os cintas-largas têm, há muito tempo, discutido com o governo federal sobre maneiras de evitar o garimpo ilegal ao leste de Rondônia . “Queremos tentar dar autonomia aos indígenas para usufruir de todos os recursos naturais em suas terras”, diz Surui.

2 Comentários

  1. Tenho sempre os pés atrás com estes Projeto a saber quem está por trás? Tem empresários ou ONGs, não sou contra ONGs mais desconfio das reais Intenções.

    Já vi ONGs ganhando dinheiro, usando os Povos Tradicionais, Indígenas, Ribeirinhos etc.
    No entanto se for Beneficiar de Fato as Comunidades Indígenas somos totalmente a Favor. Os Indígenas são abandonados pelo Estado em Políticas Públicas, então se há uma forma de retirá-los do fator de Vulnerabilidade Social é salutar que se desenvolva esse mecanismo de Direitos.

    1. Olá, Justino. Realmente, qualquer projeto que envolva vulneráveis, incluindo os indígenas, precisam ser muito bem acompanhados. E quanto a ONG, temos as boas e as ruins. Vamos aqui acompanhar o caso da Oyx e mantendo os leitores informados. Abs.

Deixe um comentário

XHTML: Você pode usar estas tags: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>