Claudia Mancini
é jornalista e cientista política, especializada em negócios, blockchain e economia digital

Redes públicas e privadas se alimentarão umas das outras, porque negócios transitam entre ambas, diz especialista

Para Suzana Maranhã, a participação da academia em estudos de redes públicas deve ser considerado.

Os estudos sobre padronização e interoperabilidade de redes blockchain avançam na União Internacional de Telecomunicações (ITU, na sigla em inglês), com o envolvimento de centenas de participantes de todo o mundo e do Brasil que trabalham para facilitar e aumentar o uso da tecnologia. Na questão da interoperabilidade, “em grandes linhas, o modelo prevê subredes em qualquer protocolo, por exemplo, Hyperledger Fabric, Ethereum e Corda, que se comunicam por um protocolo comum”, diz Suzana Maranhão Moreno, vice-coordenadora do grupo de DLT/Blockchain no ITU, em entrevista exclusiva ao Blocknews.

Para a especialista, governos têm um papel importante como habilitadores de novos modelos de negócios usando a tecnologia tanto no setor público, quanto no privado. E para o futuro, a cientista de dados e economista visualiza uma alimentação mútua entre redes públicas e permissionadas, “visto que as aplicações e modelos de negócios muitas vezes são transportados entre os dois mundos.

A entrevista é a última da série sobre os 12 anos do lançamento do white paper de Satoshi Nakamoto sobre o bitcoin, em 31 de outubro de 2008. A seguir, a conversa com Suzana:

O ITU investiu fortemente para criar estudos sobre a tecnologia, antes de propor padronizações. A partir de 2017, os esforços foram ampliados com iniciativas específicas como o ITU FG DLT, que envolveu centenas de pessoas e do qual acabei me tornando vice-líder mundial. Produzimos documentos como termos e descrições, casos de uso e barreiras de implantação, componentes de arquitetura técnica, descrição de plataformas segundo essa arquitetura, levantamento de critérios para comparação de plataformas e discussão de desafios regulatórios.

Essas linhas se alimentam, visto que as aplicações e modelos de negócios muitas vezes são transportados entre os dois mundos.

BN: Os governos começam a descobrir os benefícios de blockchain. Quais serão os maiores casos de uso da tecnologia no setor público nos próximos anos? Por quê?

SM: Existem vários estudos interessantes sobre o potencial de blockchain no setor público, como o relatório do Observatory and Forum e o documento de casos de uso do grupo sobre tecnologia de registro distribuído da União Internacional de Telecomunicações (ITU FG DLT). No Brasil, destacam-se o recente relatório do Tribunal de Contas da União (TCU) e o resultado da ação 8 da Estratégia Nacional de Combate à Corrupção e à Lavagem de Dinheiro (ENCCLA), que deve ser lançado em breve. Alguns exemplos são rastreio de gasto público, casos de uso que aumentem a confiança da sociedade nas ações do governo, registro de imóveis, identidade, redução de burocracia com compartilhamento de informações entre diferentes instituições e mesmo com outros países.

BN: O que os governos, no Brasil e fora, precisam considerar antes de se decidirem por blockchain? Há diferenças, nesse sentido, entre governos e empresas?

SM: Empresas possuem diferentes aptidões ao risco e à inovação. Algumas investem pesadamente, com grande tolerância a falhas, que ocorrem tantas vezes no processo de inovação. Em relação ao governo, acredito que está cada vez mais claro para a sociedade que precisamos lidar com a economia digital com mais tecnologia e inovação.  Governo e empresas precisam considerar o resultado possível de ser alcançado com a tecnologia, sempre considerando os riscos envolvidos. Por outro lado, o governo também precisa se posicionar como habilitador de novos modelos de negócios usando a tecnologia para o setor público e privado, considerando aspectos regulatórios, tecnológicos e de promoção de ecossistema.

BN: Será possível ter resultados como transparência e eficiência para benefício dos cidadãos, mesmo sendo fechadas as redes de governo?

SM: Sim, só precisamos escolher quem são as entidades que achamos confiáveis para formar redes que executem os casos de uso de governo. Aliás, o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) está executando um projeto chamado Rede Blockchain Brasil (RBB), que objetiva criar uma rede de blockchain para o Brasil, dentro de um ecossistema de redes públicas, em linha com a Estratégia de Governo Digital . A proposta é que os nós da rede possam ser divididos entre instituições de diferentes poderes do governo, o executivo, o legislativo e o judiciário, e em diferentes níveis, o federal e estadual. Sendo assim, a confiança fica compartilhada entre as representações que já estão definidas para a nossa república. Além disso, o BNDES vislumbra que, no futuro, qualquer um possa ser um nó leitor, de forma a conferir as computações realizadas dentro da rede blockchain, com “seus próprios olhos digitais”. Alguém poderia argumentar que academia e algumas instituições privadas deveriam participar dessas redes de transparência e eficiência. Certamente, é um tópico bastante relevante e que merece ser amadurecido.

BN: Falta de padronização e interoperabilidade ainda são grandes obstáculos para o uso de blockchain?

SM: Sim e não. As iniciativas mais inovadoras não esperam padrões e são muito importantes para trazer avanço de tecnologia e modelos de negócios necessários para criar maturidade de mercado. Projetos que envolvem um grupo restrito também definem conjuntamente requisitos, conseguindo evoluir sem padrões.

Padrões chegam num segundo momento, documentando os ensinamentos dessas experiências e pavimentando um caminho para o investimento de outras organizações, abrindo novos mercados e novos produtos. Padrões promovem concorrência de mercado, aumentam a clareza ao compatibilizar linguagens e provocam a institucionalização da indústria ao aumentar a confiança de leigos nas novas possibilidades tecnológicas.

BN: Como estão as discussões sobre padronização no ITU? Em que ponto estão e onde se pretende chegar?

SM: O ITU investiu fortemente para criar estudos sobre a tecnologia, antes de propor padronizações. A partir de 2017, os esforços foram ampliados com iniciativas específicas como o ITU FG DLT, que envolveu centenas de pessoas e do qual acabei me tornando vice-líder mundial. Produzimos documentos como termos e descrições, casos de uso e barreiras de implantação, componentes de arquitetura técnica, descrição de plataformas segundo essa arquitetura, levantamento de critérios para comparação de plataformas e discussão de desafios regulatórios. Todos estão públicos no site do ITU. O grupo agora ganhou status de padronização e está trabalhando, por exemplo, em interoperabilidade e no uso da tecnologia em determinados domínios, como o financeiro. Em especial, o ITU está agora, junto com a Universidade de Stanford, com um grupo focado em moedas digitais, incluindo as de banco central, CBDC.

BN: E como estão as discussões sobre interoperabilidade?

SM: Estamos num trabalho específico de interoperabilidade no ITU, que envolve de requisitos a definições técnicas, assim como governança. A Multiledgers, startup brasileira de gestão de infraestrutura blockchain, é uma das líderes desses estudos no ITU. Outras instituições estão fazendo trabalhos fantásticos sobre o tema, como um recente relatório do World Economic Forum e o Internet Engineering Task Force (IEFT).

MIT (Massachusetts Institute of Technology), IETF e ITU estão todos com estudos que se baseiam no desenvolvimento da internet para inspirar como criar a interoperabilidade de redes blockchain. Em grandes linhas, o modelo prevê subredes em qualquer protocolo, por exemplo, Hyperledger Fabric, Ethereum e Corda, que se comunicam por um protocolo comum.

O ITU tem promovido meetups mensais e focamos em interoperabilidade em muitos deles. Já chamamos MIT, CAICT, Consensys, Hyperledger Cactus, SiaChain, BSN e vários outros. Todos os vídeos e apresentações estão disponíveis no site do ITU.  

BN: O que atraiu você para o mundo blockchain? Qual sua história nesse mundo dos blocos?

SM: Sou formada em ciência da computação e economia, trabalho em banco, gosto de matemática e novos modelos de negócios. Em 2016, já estudava o assunto e já tinha realizado transações com bitcoin. Em 2017, o BNDES realizou um concurso de inovação chamado ideiaLab e meu grupo foi um dos vencedores com o projeto do BNDESToken, que é o projeto de representar os desembolsos financeiros do BNDES em um token, de forma a aumentar a confiança da sociedade no uso gasto dos recursos do banco.  Em 2018, resolvi começar a contribuir com grupo de DLT da ITU/ONU e aprendo muito até hoje por lá, acabei virando a vice-coodernadora do grupo (na linguagem do ITU, Associate Rapporteur). Hoje, também estou envolvida no PhD sobre o tema na Universidade de Genebra.

BN: Como você imagina o uso de blockchain nos próximos anos?

SM: É provável seguirmos com duas grandes linhas de evolução. De um lado, o mundo das blockchains públicas e não permissionadas, com inovação aberta e repleta de projetos como DeFi, criptomoedas, jogos e apostas. De outro lado, temos as redes permissionadas e reguladas, atualmente de pequenas a médias. Essas redes estão implantando cada vez mais projetos, como a rede de bancos do JPMorgan, soluções para cadeia de suprimentos, como MarcoPolo, e algumas iniciativas que buscam criar redes públicas, ou seja, que qualquer pessoa pode enviar e ler transações, como LACChain, Alastria, EBSI (European Blockchain Services Infrastructure) e a própria RBB.

Essas linhas se alimentam, visto que as aplicações e modelos de negócios muitas vezes são transportados entre os dois mundos. Como foi o caso da Libra, proposto a partir das ideias do mundo das criptomoedas. A tendência é que com maior capacitação das pessoas, melhoria de ambiente regulatório, maior maturidade de modelos de governança, padronização, interoperabilidade, melhoria tecnológica e efeito de rede, seja cada vez mais atraente para determinados casos de uso fazer algum uso desse ecossistema de soluções descentralizadas. ]

Outros conteúdos da série 12 anos de bitcoin em:

“DeFi vai acontecer além do Ethereum, com interoperabilidade entre blockchains”

Se criptografia é avessa à regulação, por que regulação favorável ajuda os criptoativos?

Parceria entre empresas e governo fez da Suíça um hub em criptos e blockchain

Negócio todo baseado em blockchain está próximo de surgir e trará enxurrada de possibilidades, diz Magaldi

0 Comentários

Deixe um comentário

XHTML: Você pode usar estas tags: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>