Claudia Mancini
é jornalista e cientista política, especializada em negócios, blockchain e economia digital

“DeFi vai acontecer além do Ethereum, com interoperabilidade entre blockchains”

Em entrevista ao Blocknews, Solange Gueiros, desenvolvedora e professora sobre plataformas blockchain na Blockchain Academy e Fiap, fala do crescimento, da segurança e da necessidade de educação financeira relacionada das finanças descentralizadas, que surgiram no mundo dos blocos, conhecidas como DeFi.

A entrevista a seguir faz parte da série sobre os 12 anos de publicação do white paper de Satoshi Nakamoto sobre bitcoin, completados no último dia 31 de outubro.

BN: Qual é o cenário de DeFi no mundo? 

SG: No final de 2019, aproximadamente 3 milhões de Ethers (ETH) estavam alocados em DeFi. Em outubro deste ano, este número já passou de 9 milhões, segundo o site Defipulse, Ou seja, DeFi está em crescimento exponencial. Estamos falando de um movimento mundial e não por país. Os usuários fazem operações usando endereços blockchain, que não tem nenhum KYC (sigla de Know your customer, método de identificação de clientes usado no setor financeiro). Logo não é possível saber de onde eles são.

BN: E qual o cenário no Brasil?

SG: A recuperação do ecossistema cripto culminou neste mês de outubro com o bitcoin atingindo suas máximas históricas no Brasil, embora a valorização do BTC em dólar ainda esteja longe do seu valor máximo, demonstrando a desvalorização do real em relação ao Dólar.

BN: Quais os projetos DeFi que você destacaria?

Os principais que aparecem na lista da Defipulse são Uniswap (US$ 2,79 bilhões), Maker (US$ 2,12 bilhões), WBTC (US$ 1,45 bilhão), Aave (US$ 1,11 bilhão) e Compound (US$ 1,09 bilhão).

Uniswap é um protocolo para troca de tokens baseado em provedores de liquidez e market makers automatizados e pode ser utilizado por qualquer um, é open-source. Podemos dizer que Bitcoin é DeFi, mas eu diria que Bitcoin é o ancestral de DeFi, e que a MakerDAO é o projeto origem de DeFi. É uma plataforma de crédito para emissão de DAI, uma moeda estável cujo valor está atrelado ao dólar americano, hoje colateralizado por ETH e outros criptoativos .

BN: Qual a vantagem de DeFi em relação ao sistema financeiro tradicional?

SG: As diferenças entre DeFi e CeFi podem ser colocadas da seguinte forma:

  • Finanças descentralizadas contra finanças centralizadas;
  • Um opera sem censura e o outro pode ser censurado ou controlado;
  • DeFi é econômico e CeFi é caro;
  • E um sistema é baseado em blockchain enquanto o outro está construído sobre fundações arcaicas.

BN: Quais são as barreiras de entrada em DeFi do ponto de vista dos consumidores?

SG: Uma barreira é a educação financeira, principalmente a conscientização e maturidade necessárias para ser completamente responsável pelo seu próprio dinheiro. Em DeFi a custódia dos seus ativos fica com você, e não com uma empresa ou um banco. E se você perder suas chaves privadas, o que seria o equivalente a perder sua senha em um sistema centralizado, não existe o botão “esqueci minha senha”. Já era, perdeu seu dinheiro.

BN: Uma pesquisa divulgada recentemente mostra que 86% das empresas do setor financeiro tradicional europeu avalia ou planeja ter projetos nessa área. DeFi levará a uma mudança drástica ou ao fim do setor tradicional como conhecemos?

SG: Na minha opinião, DeFi é a mudança! Não acho que seja possível saber se o setor tradicional vai acabar. Mas é fato que DeFi já tem condições de reproduzir praticamente tudo o que existe no setor financeiro tradicional, sem horário bancário e pausas nos finais de semana, ou seja, funcionando 24 horas, 7 dias por semana. Faz total sentido que as empresas de finanças centralizadas pensem em projetos de DeFi, seja pelo custo menor, pela disponibilidade maior ou apenas para não ficarem para trás. 

BN: O que DeFi muda no setor de criptoativos? E isso é bom ou ruim?

SG: As finanças descentralizadas expandem o mundo dos criptoativos, ampliam as possibilidades de utilização, seja como investimentos, empréstimos, seguros, ou ainda a grande variedade em derivativos do sistema tradicional que podem ser reproduzidos em DeFi. É excelente, não há como voltar atrás.

BN: Olhando para os próximos 12 anos (ou até onde vc consegue enxergar), como você imagina o cenário do segmento de DeFi?

SG: Não acho que seja possível falar em um determinado tempo em anos, mas enxergo que DeFi vai acontecer além do Ethereum, com a expansão da interoperabilidade entre blockchains, em um futuro onde redes se complementam e interagem entre si. Acredito no Ethereum e acho fantástico o crescimento de DeFi neste blockchain, mas acredito que haverá mais opções em outros blockchains, principalmente em Bitcoin, como a evolução que já está acontecendo na RSK, por exemplo. 

BN: Há quem diga que DeFi não é seguro porque não se sabe o que está colocado nos smart contracts. Qual sua opinião sobre isso?

SG: Eu penso exatamente o contrário. Em DeFi, praticamente todos os projetos são open source e com smart contracts com o código fonte verificado. Isto significa que o smart contract realmente corresponde ao bytecode (código em linguagem de máquina)  gravado no blockchain.
Ou seja, é possível conferir tudo o que o smart contract faz. Se houve alguma falha, ela está pública e será utilizada para o bem ou para o mal, dependendo de quem encontrá-la. Mas isto é considerado um ponto positivo em segurança. Entidades que não publicam o código fonte de seus smart contracts são menos confiáveis, porque é preciso acreditar no que dizem que ele faz e não conferir no código.

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