Claudia Mancini
é jornalista e cientista política, especializada em negócios, blockchain e economia digital

Yuan, dólar e nada: as moedas estáveis (stablecoins) que pautarão as disputas entre os países

Para Laender, blockchain é onde o sistema financeiro vai disputar poder.

Naquele 23 de outubro do ano que antecedeu a pandemia, a única coisa que parecia anormal era ver Mark Zuckerberg de terno e gravata. Desde o escândalo da Cambridge Analytica, nenhuma novidade havia em assistir congressistas democratas atacando o Facebook em razão de alguma das inúmeras controvérsias envolvendo a rede social. Dessa vez, a discussão girava em torno do projeto Libra.

Anunciado como uma plataforma de pagamentos global, movimentado inicialmente por uma criptomoeda ancorada em uma cesta de moedas tradicionais (ou fiat, no jargão cripto), o projeto Libra causou estardalhaço porque, ao ser liderado pelo Facebook, teria o potencial de alcançar os dois bilhões de usuários daquela rede social. Uma criptomoeda estável, com facilidade de uso e possível adoção por dois bilhões de pessoas teria potencial para competir com yen, euro e dólar. Não era à toa que os congressistas estavam preocupados.

Durante as seis horas de seu depoimento ao Congresso dos EUA, Zuck respondeu às perguntas com três mantras. O primeiro era “o Facebook não controlará o projeto Libra”, o segundo era “a Libra apenas será lançada se aprovada pelas autoridades regulatórias americanas” e o terceiro era “se não fizermos, a China fará antes”.

Esta semana, uma notícia passou aparentemente despercebida. A China anunciou que o renminbi digital, a criptomoeda oficial do banco central chinês, será utilizada pela Didi Chuxing, a versão chinesa do Uber. Em breve, yuans (a moeda se chama renminbi, mas é contada em yuans) sob o registro da blockchain oficial chinesa estarão nas carteiras digitais dos mais de 500 milhões de usuários da Didi. Para fins de comparação, isso é dez vezes mais do que todos os usuários de bitcoin hoje.

Instabilidade é problema no bitcoin

Criptomoedas como a Libra ou o renminbi digital resolvem um problema que ficou aparente após a experiência de uma década do bitcoin: a volatilidade. Se um bitcoin vale 50 mil reais às 13:43, 53 mil às 14:03 e 47 mil às 18:32, vender ou comprar qualquer coisa usando bitcoin é um problema. Por isso, criptoativos como a Libra ou o renminbi digital, cujo valor é vinculado ao valor de moedas tradicionais, são chamadas de stablecoins.

As stablecoins não são todas iguais. A primeira a ganhar notoriedade, o Tether, adotou o que podemos chamar de método convencional para as stablecoins: cada USDT (a unidade do Tether em dólares) corresponde a um dólar depositado em conta corrente. É, portanto, uma criptomoeda com lastro – diferentemente do bitcoin e do ether, por exemplo.

O fato de se basear em um lastro controlado por uma entidade central joga pela janela a ideia de descentralização, tão cara à maioria dos projetos envolvendo blockchain. Não obstante, o Tether ganhou imensa popularidade e é ainda hoje a stablecoin mais utilizada no mundo.

Outra stablecoin com a mesma abordagem é a USDC, emitida por uma joint venture entre a Coinbase (a maior exchange dos EUA) e a Circle (uma fintech americana bancada por nomes tradicionais do mercado financeiro – Goldman Sachs – e do mercado de venture capital – Accel, General Catalyst). A CENTRE é baseada nos EUA e faz questão de obedecer rigorosamente a todos os requisitos do confuso espaço regulatório norte-americano. Isso fez com que o USDC ganhasse espaço diante de diversos escândalos envolvendo o Tether, incluindo acusações de manipulação de mercado na bolha cripto de 2017 por meio da emissão de Tether USDT sem lastro.

Seguir regulação é bom marketing

De modo similar à estratégia que caracteriza a exchange Gemini (dos irmãos Wrinklevoss, os mesmos que investiram no Facebook) no mercado norte-americano, a CENTRE usa a regulação dos EUA como instrumento de marketing para afirmar ser mais segura do que as alternativas. Tanto assim que na semana passada, a CENTRE foi notícia por ter bloqueado US$ 100 mil de uma conta em USDC em razão de um pedido das autoridades policiais norte-americanas.

Uma abordagem diferente para as stablecoins foi a adotada pela MakerDAO. A proposta da MakerDAO é ser completamente descentralizada. Hoje há uma fundação que gerencia o projeto, mas essa fundação tem tomado passos efetivos para se tornar uma organização descentralizada autônoma (ou DAO – decentralized autonomous organization, uma entidade gerida não por um conjunto de executivos, mas por smart contracts rodando em uma blockchain pública).

A governança da MakerDAO é instrumentalizada pelo MKR: quem tem esse token, tem voto sobre as decisões envolvendo a gestão do sistema. Em outra oportunidade vamos falar um pouco mais sobre a governança do protocolo Maker e sobre DAOs.

A MakerDAO gere a emissão de uma stablecoin chamada DAI. Tal qual o USDC e o USDT, um DAI equivale a US$ 1,00 dos EUA. Os DAIs, porém, não são lastreados em moeda tradicional (fiat), mas em criptoativos. Atualmente, podem servir de lastro o ether (ETH), o basic attention token (BAT), o bitcoin e o USDC. O lastro não é controlado por uma entidade, mas por smart contracts na blockchain Ethereum.

Por seu caráter mais descentralizado, os DAIs tiveram bastante aceitação, especialmente na comunidade Ethereum – atualmente cerca de 2% de todo o ETH em circulação está sendo usado em smart contracts para lastro de DAI. Todavia, a decisão de aceitar o USDC como lastro tem sido questionada por colocar em risco a descentralização do protocolo Maker.

Stablecoins a partir do nada

O projeto Maker, porém, não é o único com pretensão de criar uma stablecoin descentralizada. Outros projetos, como a PegNet e o Synthetix, usam tokens conhecidos como ativos sintéticos. Por meio de smart contracts chamados de oráculos, os preços de ativos negociados em mercados tradicionais são trazidos para a blockchain e servem como base de precificação dos ativos sintéticos. Desse modo, o ativo sintético do dólar, por exemplo, terá o seu preço em ETH denominado pela média de mercado do valor de compra e venda do ETH nas exchanges tradicionais.

Não há lastro, apenas conversão de ativos (você pode converter ETH em seu equivalente em dólares sintéticos, e vice-versa). O sistema é resguardado por provedores de liquidez – usuários que depositam criptoativos em carteiras compartilhadas conhecidas como pools. Como criptomoedas como o bitcoin e o ether também não têm lastro, os ativos sintéticos são uma forma de produzir stablecoins a partir do nada.

As stablecoins são a pedra fundamental da DeFi – decentralized finance, a proposta de trazer serviços financeiros tradicionais para blockchains públicas, com destaque para a blockchain Ethereum. Hoje, serviços como Compound, Uniswap, Synthetix e o próprio Maker (por meio do app Oasis) tornam possível realizar empréstimos, financiamentos e criar derivativos com base em stablecoins e outros criptoativos.

Porque esses serviços são smart contracts em uma blockchain pública (Ethereum), não são controlados por nenhuma entidade. Qualquer pessoa com um criptoativo na carteira pode usá-los sem a necessidade de criar uma conta. E outros serviços podem ser construídos em cima daqueles (o que se chama de money legos).

O potencial transformador desse ecossistema é gigantesco e tem chamado atenção de governos e grandes corporações. Por isso, o Facebook criou a Libra, e por isso o governo chinês criou o Renminbi digital. Entre dólares, yuans e o nada, a disputa geopolítica que irá pautar o sistema financeiro internacional do século XXI já tem sua arena: blockchain.



Gabriel Laender é advogado do FCM Law e membro da Silicon Valley Blockchain Society (SVBS). Baseado na Califórnia, foi visiting scholar sobre blockchain e política pública na University of Southern California (USC). É doutor em Direito e Regulação pela Universidade de Brasília.

O colunista escreve todas as segundas-feiras.



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