Claudia Mancini
é jornalista e cientista política, especializada em negócios, blockchain e economia digital

Brasileiros desenvolvem projetos de tokens de energia no exterior

Tokens substituem dinheiro na compra de energia. Crédito: Seagul. Pixabay.

Num futuro que pode não ser muito distante, comprar e vender eletricidade pode passar longe de boletos das distribuidoras e pagamentos nos bancos. Se as regulações no país permitirem, tokens, espécie de fichas de quermesse, podem ser a moeda nesse mercado.

Essa foi a conclusão do painel “Tokenização e  Certificação” do 1º Simpósio – O Potencial da Blockchain no Setor Energético, realizado pelo Blocknews e pela Mentors Energy Consulting no último dia 7.

O token é digital, mas representa um ativo no mundo real, como um diamante, um pedaço de um imóvel ou a eletricidade. Ainda não se tem notícia de um projeto que use token em energia elétrica, porém há brasileiros trabalhando nisso no exterior.

Rocelo Lopes, fundador e CEO do Stratum Blockchain Group, que vai de mineração de criptomoedas a criação de tokens, está desenvolvendo um projeto a partir de energia solar na África do Sul. Como naquele país o sistema é descentralizado e a energia pode ser pré-paga, é possível criar uma “comunidade” que compra e vende eletricidade entre si.

Para isso, um relógio inteligente em teste em residências quem medem o quanto há de energia disponível para uso. Se for preciso comprar mais, digita-se um código e são descontados da carteira digital do proprietário os tokens Solars, gerados pela empresa na rede Ethereum e equivalentes à energia comprada. A ideia é que a residência também venda sua energia em excesso.

O mesmo token para geradora e supermercado

Entre as vantagens do token estão pagar pela energia um valor que não vai mudar mesmo que o governo aumente o preço da eletricidade. Lopes trabalha ainda para devolver sobras de energia ao sistema e para que o token seja aceito em locais como supermercados.

“Já que o supermercado também pode usar minha energia, isso vai fazer com que o ecossistema todo funcione”. Outras vantagens são rapidez, controle e registro mais seguro em blockchain de tudo o que foi transacionado.

Segundo Lopes, fazer algo do tipo no Brasil seria inviável hoje. Primeiro, porque não há o benefício fiscal para importação de equipamentos solares que existe na África do Sul – o imposto lá é de 14%. E a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) teria questionado o projeto. Isso porque o token de energia elétrica gera dividendos depositados na carteira do detentor de tokens, explicou.

A CVM não permitirá isso sem licença específica, diz ele, algo que na África do Sul também será necessário para a distribuição de dividendos. Outro motivo é que o sistema no Brasil não é descentralizado a ponto de se poder comercializar energia entre casas vizinhas, por exemplo. Tokenização vai ser um desafio muito grande no país, completa, porque além da regulação, “os brasileiros são acostumados a  lidar com CNPJ e 0800”. E completou: Será que os órgãos reguladores estão preparados para perder o poder da caneta? Acho difícil isso”.

Em 5 anos, tudo tokenizado

A questão regulatório também levou a Sppyns, marketplace de investimentos em criptoativos, a ter base no Crypto Valley, na Suíça, onde a legislação é receptiva a esse tipo de negócio.

Para o fundador e COO da empresa, Rodrigo Czismar Borges, a disrupção do mercado com os tokens será muito forte. E citou a frase do ex-presidente da Nasdaq, Roberto Greifeld, de que 100% das ações e bonds em Wall Street podem ser tokenizados e que em 5 anos, 100% será tokenizado. A frase é de novembro de 2017.

É a oportunidade de pegar ativos negociados de forma centralizada no mundo e passar a token e descentralizado, com custo mais baixo e redução da burocracia, afirmou.

A Sppyn tem dois projetos de financiamento de energia com criação de token. Ao comprar o ativo digital, ao comprador se torna sócio do projeto. Ele exemplificar a possibilidade de a fazenda onde passa a pandemia vender energia solar tokenizada para a vizinhança, citou que a infraestrutura, se possível no Brasil, poderia ser uma DAO (Descentralized Autonomous Organization).

Esse tipo de organização é uma rede em que os participantes fazem transações entre si, sem um ente central e um comando único. Tudo, claro, na blockchain.

Certificados em blockchain

A energia também pode fazer parte de um ecossistema de certificados de crédito de carbono, mostrou Heloisa Ceni, diretora de desenvolvimento de negócios da CoinFabrik, desenvolvedora de soluções em blockchain. Num projeto apresentado na Colômbia, a empresa criou um sistema em que uma indústria que emite dióxido de carbono compra créditos usando a plataforma.

Esse crédito pode vir, por exemplo, de um gerador de energia renovável, “abrindo um ecossistema lucrativo, cooperativo, sustentável onde qualquer integrante pode participar”, afirmou.

“Esse projeto é de uma plataforma B2B que poderia unir B2C, integrando os tokens do Rocelo e do Rodrigo”, completou. Como o sistema é auditável, controlável, transparente e acessível, o estado ou um consumidor pode saber se uma empresa cumprindo a redução de emissão de dióxido planejada pelo país. Os valores de um projeto como esse variam conforme suas características, segundo Heloísa.

O passo seguinte de um projeto como esses é haver um validador, que checa de onde vem o crédito, se é confiável, certifica e tokeniza, evitando a duplicação dos certificados. Essa validação está em linha com o que faz o Instituto Totum, emissor do IREC, certificado de energia renovável, que passou a usar blockchain neste ano.

Cada certificado representa 1 MWh, que é comprado por consumidores de energia. A usina tem que ser habilitada. Essa checagem e habilitação eram manuais. Registrada, havia a auditoria nos dados de geração enviados pela empresa, com checagens manuais e controle de saldo em excel. A cobrança era emitida manualmente.

Origem garantida

Com blockhain, a elegibilidade é manual, mas o resultado é registrado na rede da tecnologia. A auditoria de dado de geração está automatizada, com controle automático dos saldos. Os certificados são gerados com esses dados e tudo isso fica registrado em blockchain. A emissão do IREC fica no registro único. Ao final, cada emissão gera uma hash com os dados do certificado.

“Em um ano vamos convidar geradoras a serem nós validadores. Vamos captar dados por internet das coisas (IoT), o que hoje vem consolidado da Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE), com atraso de 45 a 60 dias”, disse Lopes.

As geradoras vão captar os dados em tempo real e o certificado será emitido imediatamente. “Estamos estudando tokenizar operações para que a compra e venda de certificados seja por token. E vamos criar um marketplace onde daremos acesso a B2B e B2C para quem quiser comprar IRECS”, completou.

Devem ser emitidos 5 milhões de IRECs neste ano no Brasil, quase o dobro do ano passado. A segurança que blockchain dá ao processo deve ajudar a fomentar esse mercado.  

Reportagem atualizada às 16h35 de 14/07/20 com novas informações sobre o projeto da Stratum na África do Sul.

Mais sobre o simpósio em :

Blockchain com IoT e IA podem criar caminho para cidades inteligentes

Novas tecnologias pressionam por mudança na regulação de energia

2 Comentários

  1. Não há economia de mercado de energia sem um governo forte, juridicamente estabelecido e capaz de regular a atividade econômica. A atividade financeira de um país tem que ser regulada juridicamente pela Lei.

    1. Dra. Ana, obrigada por seu comentário. A discussão inovação-regulação é sempre muito calorosa. Certamente veremos um grande debate sobre como permitir atividades econômicas inovadoras e que sejam reguladas de forma a permitir inovação e ao mesmo tempo garantir os direitos dos usuários. Vamos acompanhar.

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