Claudia Mancini
é jornalista e cientista política, especializada em negócios, blockchain e economia digital

Uma nova internet: o que blockchain significa na prática

Para Laender, blockchain é onde o sistema financeiro vai disputar poder.

O debate sobre blockchain é muitas vezes árido e permeado por conceitos extremamente complexos de múltiplas áreas de conhecimento. Um exemplo: na última terça-feira (23), no ótimo debate promovido pelo Blocknews e pela Mentors Energy, um tema técnico gerou divergência entre nós: blockchains são ou não um banco de dados?

A resposta a essa pergunta envolve compreender a forma como blockchains registram dados, confrontar com a forma como bancos de dados tradicionais funcionam e tomar uma posição fundamentada. Isso em um debate conduzido por juristas e cujo tema geral – segurança cibernética, smart contracts e questões legais – era mais afim ao direito do que à ciência da computação.  

Para alguém que acompanhou a evolução da Internet comercial, a sensação de deja vu é inevitável. Assim como ocorre com blockchain hoje, falar sobre internet nos anos 90 era ingressar em uma arena de temas espinhosos como o funcionamento de redes por pacotes, estabilidade e segurança de redes estatísticas versus redes determinísticas, regulação em camadas, entre outros tantos. Hoje os aspectos técnicos estão longe de ocupar espaço central, embora nunca tenha se debatido tanto sobre Internet.

Com blockchain, ao que tudo indica, esse será o caminho. Os aspectos técnicos serão ainda muito importantes (e determinantes para separar especialistas de charlatões), mas o sucesso das blockchains implicará a naturalização da tecnologia. É provável que no futuro, internet e blockchain sejam sinônimos para o grande público e que a diferença permaneça na cabeça dos especialistas.

Por isso, resolvi dedicar esta coluna ao propósito de descrever como essa nova internet está mudando o mundo hoje e tentar imaginar, junto com vocês, como será a internet do futuro.

Um fenômeno exponencial

Em todas as métricas, falar de blockchain é falar de um fenômeno exponencial. No Vale do Silício, há um ditado corrente que explica o impacto de tecnologias exponenciais: gradually, then suddenly. Dizer que blockchain é uma tecnologia com crescimento exponencial é dizer que os próximos dois anos trarão mais mudanças do que os últimos dez.  Embora ainda seja longo o caminho para a maturidade de tecnologias baseadas em blockchain, a mudança, quando vier, será abrupta.

E o como será essa internet do futuro? Há hoje múltiplas respostas. O principal movimento por trás do grupo de desenvolvedores que deu origem ao Bitcoin, os cypherpunks, querem que blockchain sirva de base para que cada pessoa escolha como e o que de sua vida privada deve ir a público, sem depender de governos ou corporações para proteger sua propriedade e sua privacidade – mas sem tanta preocupação assim com inclusão social ou desigualdade social.

Há ainda grupos ativos de desenvolvedores que veem blockchain como uma tecnologia de governança capaz de ampliar a participação social e tornar corporações e governos mais transparentes e justos. E também há estados autoritários que enxergam na blockchain a possibilidade de controle social absoluto.

Nas próximas colunas, vou contar um pouco de como a tecnologia tem avançado nessas três frentes, com exemplos práticos do que você já pode fazer hoje – e do que podem fazer com você. Saber disso é fundamental para construir um amanhã onde você poderá acordar e olhar no celular quanto você ganhou de créditos pelo uso dos seus dados pessoais por empresas como Google e Facebook, poderá usar esse saldo de créditos para comprar o café da manhã de um vizinho chef de cozinha, que lhe entregará a comida por meio de um drone de propriedade conjunta de todos do seu condomínio.

E que, nesse amanhã, ninguém esteja olhando a blockchain para saber que você fez tudo isso.

Gabriel Laender é advogado do FCM Law e membro da Silicon Valley Blockchain Society (SVBS). Baseado na Califórnia, foi visiting scholar sobre blockchain e política pública na University of Southern California (USC). É doutor em Direito e Regulação pela Universidade de Brasília e procurador do Espírito Santo.

A partir de hoje (29), Gabriel Laender terá uma coluna semanal sobre tecnologia e transformação digital no Blocknews.

3 Comentários

  1. Gabriel, sua comparação com a Internet no início é totalmente pertinente. As discussões hoje ainda tem um caráter bastante técnico porque estamos ainda construindo a infraestrutura e estamos aprendendo, tateando ainda como usar essa arquitetura. A maioria das discussões é como transferir aplicações de outras áreas para dentro do Blockchain e temos poucas aplicações puramente blockchain. Ainda não sabemos pensar Blockchain. A meu ver também existe a falta de uma camada intermediária (middleware) que isole a camada de aplicações da camada de infraestrutura. Quando tivermos essa camada talvez tenhamos uma explosão de soluções destinadas ao público final, sem tanto tecnicismo envolvido. Novamente, como estamos ainda no nascimento dessa arquitetura, estamos ainda sofrendo as dores do parto.

    1. Caro Afonso, muito obrigada por seu comentário. É uma realidade que há dores do parto neste momento. Estamos na cursa de aprendizado e ainda vem muita coisa pela frente! Att. Redação.

  2. Olá Afonso,
    Minha startup BlockNobre está fazendo exatamente isso, uma camada intermediária (middleware) que isole a camada de aplicações da camada de infraestrutura. Qualquer desenvolvedor podera usar blockchain via simples chamada API na sua aplicação.
    Abraço,
    Andrews

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