Claudia Mancini
é jornalista e cientista política, especializada em negócios, blockchain e economia digital

Paraná começa a implantar com IBM sistema para controle de licitações

Projeto deve ficar pronto em um ano e custará R$ 25 milhões.

A Celepar, empresa de tecnologia do governo do Paraná, começa a implantar, em julho, uma plataforma de fiscalização de processos de licitação do estado. O objetivo é diminuir em 97% as irregularidades nos processos, segundo o controlador-geral do Estado, Raul Siqueira.

Chamado de Harpia, o projeto está sendo feito com a IBM, segundo anúncio da Controladoria-Geral do Estado (CGE). A previsão é de que esteja todo implantado em um ano.

A plataforma permite o monitoramento em tempo real das licitações e compras. Um sistema de QR Code mostrará o custo, quem forneceu, quem comprou e responde pela compra e a data da aqusição. Essas informação serão compartilhadas com agentes de controle externo, incluindo o Tribunal de Contas do Estado do Paraná (TCE-PR) e o Ministério Público do Paraná (MP-PR).

O valor do projeto é de R$ 25 milhões, bancados com recursos do Fundo Estadual de Combate à Corrupção, cujos recursos vêm de acordos de leniência e multas em processo de corrupção. O projeto está sendo desenvolvido há cerca de um ano.

A Celepar vai dominar a tecnologia e poderá fazer sua atualização e ampliação, disse o diretor de Hybrid Cloud Integration da IBM, Guilherme Novaes Procópio de Araújo.

11 Comentários

  1. O Governo do Paraná flerta com o desperdício de recursos públicos pela teimosia de seus departamentos técnicos. Vai investir numa solução proprietária, ficar refém de um único fornecedor de tecnologia em parceira com uma empresa estatal de reconhecida falta de qualidade e nível de serviços.
    Monta uma infraestrutura sem consulta à iniciativa privada e isolada dos outros estados, num total desconhecimento, para não dizer desrespeito aos princípios da adoção do blockchain no mundo.
    Tudo isso para criar uma barreira de entrada para outras tecnologias, criando um monopólio para uma empresa estatal ineficiente e, a reboque, jogando no lixo os esforços de inovação de outras agências.
    Mais uma vez os governos brasileiros deixam o bonde da história passar por desejarem se isolar do mundo e manter as capitanias hereditárias.

    1. Caro Carl, obrigada por seu comentário. Um ponto interessante para se refletir. Já pedimos entrevista à Celepar e à CGE. Vamos abordar esse ponto com eles.

    2. Prezado Carl,

      A sua observação é extremamente válida e oportuna. Acredito que esteja devidamente bem informado e, de longe, muito melhor preparado que eu para uma tomada de posição nesse, ou qualquer outro sentido. Mas numa reflexão de sensatez e raciocínio lógico me permito a algumas considerações nem fórum aberto com vista um debate construtivo. Inclusive, que pode dar aso a um desenvolvimento de novas matérias e investigações pelo veículo da Blocknews.

      Acho que pontou muito bem essa preocupação, mas não deixou de me parecer que levanta uma certa poeira de polêmica. Sua colocação, na minha opinião, carece de uma maior sustentação com a vista a se tornar válida e construtiva.

      Essencialmente, eu fico curioso de conhecer a sua visão de quais seriam as alternativas que você propõem para um projeto deste âmbito, importância e magnitude.

      Será que você propõem a alternativa de desenvolvimento interno da Celepar OU com outro(s) fornecedores tecnológicos?

      Quando você comenta que a Celepar é “reconhecida falta de qualidade e nível de serviços”, como é que então esta empresa “incompetente” poderia atender organicamente e com recursos internos ou de outros parceiros privados ao desafio e missão a que se propõe no controle de licitações?

      Um projeto desta magnitude precisa de, obrigatoriamente, atender a elevados padrões de seriedade e um acérrimo compliance de segurança. Do pouco que conheço das soluções de blockchain da IBM, esta é uma plataforma avançada e de implementações globais com provas já dadas, em sistema financeiros, logísticos, contratos inteligentes, supply chain, entre muitos outros.

      Quais seriam efetivamente as suas propostas de alternativas no curto, médio e longo prazo? Desenvolvimento de raiz de uma plataforma de blockchain? Outras empresas concorrendo ao projeto? Quanto tempo de estimativa de projeto? Nada impede. Mas quanto custaria e quanto tempo demora um projeto igual com outro fornecedor?

      Não necessariamente precisa ficar refém de um único fornecedor. Até porque estamos falando de blockchain, cuja premissa é descentralizar, flexibilizar e ser compatível com demais sistemas. Mais que a parceria com um único fornecedor de renome e âmbito global – neste caso a IBM – o importante é efetivamente a relação do custo-benefício. E, claro, a eficácia do sistema no cumprimento desta importante missão.

      Fico atento ao desenrolar desta interessante troca de ideias.

      1. Caro Nuno, os comentários a esta reportagem mostram a importância de blockchain nos governos e como, neste momento em que os benefícios da tecnologia começam a ser descobertos, é muito válido um debate sobre quais as melhores saídas para cada caso. Muito obrigada, vamos continuar falando sobre o assunto.

      2. Caro Nuno,
        Obrigado por sua resposta e a provocação para o aprofundamento do debate, é assim que construímos entendimento e sim, há um ar de polêmica pois acho o assunto de uma relevância extrema e o tom de matéria decidida da notícia me trazem muita preocupação.

        Durante todo o ano de 2019, visitei diversas vezes órgãos de administração do Estado do Paraná apresentando o que há de mais recente no desenvolvimento do Blockchain no mundo. O BRI cedeu gratuitamente ao Estado do Paraná um Membership para acesso a nossos pesquisadores e pesquisas e realizamos diversas palestras e o Blockchain Connect, um evento de grande porte de dois dias para tratar do tema.

        É entendimento geral de todos os grandes projetos estruturadores de Blockchain, que trata-se de uma tecnologia a ser desenvolvida coletivamente, pelas cadeias de valor, a partir de uma consórcio de governança, responsável pelo estabelecimento de padrões de dados, das escolhas das múltiplas plataformas (pois uma adoção de blockchain não está restrita a esse ou aquele fornecedor de tecnologia, mas a uma combinação de tecnologias DLT) e, mais do que tudo no envolvimento de todos os stakeholders daquela solução pois diversos sistemas deverão ser conectados à plataforma blockchain adotada.

        Assim formaram-se consórcios como o Blockchain in Transport Alliance, o Oil & Gas Blockchain Consortium, o Chamber of Digital Commerce, a Government Blockchain Association e a Enterprise Ethereum Alliance, cujos objetivos incluem o estabelecimento dessa governança, pois perceberam que o Blockchain não é uma tecnologia a ser desenvolvida e adotada individualmente, mas em cooperação dentro de toda a cadeia de valor. Publicamos e compartilhamos com o Governo do Paraná o estudo INDUSTRY ECOSYSTEMS AND BLOCKCHAIN – What Enterprise Leaders Should Know about Consortia de Anthony Williams, que analisa dezenas de diferentes consórcios de governança em tecnologia (14 de blockchain) e sua importância no desenvolvimento e adoção massificada de uma tecnologia como o Blockchain, como é o projeto Harpia.

        Sob essa ótica, num projeto de Blockchain que atenda às necessidade do projeto Harpia, o primeiro passo seria formar um consórcio de Governança do Blockchain de Contratação Pública do Estado do Paraná, que envolvesse não só a CGE, mas todas as instâncias do poder executivo, agencias reguladoras, poderes legislativo e judiciário, ministério público e setores da iniciativa privada que firmam contratos com a administração pública, essa articulação é necessária não só para desenvolver os padrões dos dados, mas também para envolver todos os futuros usuários no uso da plataforma para acelerar sua adoção por todos.

        Outro ponto importante a ser levantado é o fato do Blockchain não ser uma revolução tecnológica, mas de modelo de negócios, permitindo novas formas de atuação que ainda estão sendo exploradas, como processos distribuídos, unificação de papéis de produtor e consumidor dos dados pelos participantes e formas de contratação pelo tráfego de dados ou registro de transações. O que significa uma mudança na forma de contratação da plataforma tecnológica, fora do modelo Setup/manutenção/upgrade, tradicional de soluções tecnológicas do passado. Isso poderia reduzir a ZERO o custo inicial desse projeto e transferindo a responsabilidade do custeio da plataformas para todos os usuários e não concentrando o custo no orçamento público e nas costas da CGE que será o usuário com maior responsabilidade e menor uso de registro de dados.

        Apesar do modelo de Consórcio de governança representar um início de menor velocidade de desenvolvimento, ele garante a adoção em prazo acelerado e permite a formação de um ecossistema de inovação em torno da plataforma, permitindo que novas soluções e aplicativos sejam desenvolvidos por dezenas de integradores de sistemas, startups e empresas de aplicativos, criando um ecossistema que garante a expansão do projeto para outras áreas do governo.

        Isso posto, acredito ter aprofundado o porque a contratação está sendo feita às pressas, de forma isolada, concentrando em único fornecedor de uma unica tecnologia, sem a articulação com principais usuários, sob o fraquíssimo argumento de cumprir a legislação e o processo de licitação atual do estado aliado à pressão por apresentar algum resultado em curto prazo.

        A CELEPAR pode poder ter excelentes quadros técnicos de desenvolvimento de diversos sistemas de gestão pública, mas sistemas e processos de outras gestões tem cobrado seu preço, Em diversas interlocuções no estado, recebi feedbacks sobre o SLA abaixo do esperado de algumas soluções, o que não é segredo para ninguém.

        Também é inegável que a CELEPAR tem competência técnica para desenvolvimento de sistemas, mas não tem competência para modelagem de negócios distribuídos baseados em Blockchain e, por isso é incompetente para a tarefa que assumiu isoladamente, seguindo a cartilha antiga, apresentando uma solução centrada num único fornecedor confiável, numa relação custo-benefício calculada com viés tecnológico, sem considerar todos os participantes do sistema e a inclusão ou compartilhamento da estrutura com outros estados ou a união. Criando um Blockchain proprietário, isolado, sem a adesão da sociedade, num modelo de cima para baixo. Fechando-se em Copas na questão, para garantir seu negocio de tecnologia sem levar em consideração o interesse público. Dos caminhos possíveis para a implantação de Blockchain, a CELEPAR escolheu o mais óbvio, mais inadequado, mais custoso pela incapacidade de considerar os aspectos de negócio além de seu muros, o que é compreensível, mas não é aceitável.

        O Blockchain Research Institute do Brasil vem oferecendo apoio ao Governo do Estado do Paraná, investiu capital intelectual disponibilizando, sem custos, pesquisas e eventos para o governo, bem como capital social, mobilizando parceiros e empresas de tecnologia para a articulação do ecossistema de blockchain no estado em torno de um Hub de Inovação que reuniria a Governança, Capacitação e Desenvolvimento de soluções com foco no projeto Harpia.

        Não posso deixar de manifestar publicamente a discordância e insatisfação com essa noticia, pois, em fevereiro de 2019, foi noticiado que a CELEPAR, em nome do Governo do Estado do Paraná, havia se filiado ao BRI e por um ano, publicamente, defendemos o projeto Harpia e buscamos apoio para ele, apresentando uma alternativa de contratação que garantisse, baixo investimento inicial, autonomia tecnológica e capacidade de formação do ecossistema. Uma contratação como a noticiada pode deixar subentendido o apoio do BRI Brasil nesse processo, ou o favorecimento a dois membros (CELEPAR e IBM), comprometendo nossa isenção em relação à tecnologias específicas e credibilidade de nossa pesquisa e serviços.

        Estou sempre a disposição para o debate no que tange o bem público e a melhoria dos processos e serviços públicos, trazendo para o governo experiências bem sucedidas pelo mundo, e de projetos similares que desenvolvi em minha experiencia de 20 anos com inovação, organizações distribuídas e articulação de ecossistemas.

        1. Caro Carl, muito obrigada por compartilhar tantas informações. O Blocknews, desde sexta-feira, solicitou entrevista à Celepar. Estamos no aguardo de um retorno para entendermos melhor o funcionamento da plataforma que será adotada no Paraná. Att., Redação.

    3. Importante reflexão Carl,
      Sua contribuição sempre foi muito importante no processo de construção desse modelo. A CGE vai levar em consideração sua visão. Todos nossos diálogos sempre se pautaram na mais absoluta transparência e integridade, foco do nosso Governo. Já lhe apresentei o modelo e tenho certeza que compartilha do brilhantismo e da inovação do desenho proposto.

      1. Prezado Raul, o passo dado pelo governo do Paraná, que até onde conheço é o único do Brasil, certamente será considerado um divisor de águas e será citado como um dos primeiros projetos do tipo no Brasil. Gostaria muito de conhecer mais detalhes do funcionamento da plataforma, uma vez que os leitores do Blocknews têm mostrado muito interesse no assunto. Att., Redação.

      2. Dr. Raul,

        Já comentei diversas vezes que nosso investimento de tempo e conhecimento no Paraná se deve ao ambiente inovador e a mentalidade de transparência do Governador e de sua equipe da APD, da CGE e outras agencias e secretarias, a concessão de um Membership do BRI em fevereiro de 2019 foi na certeza que colocaria o Estado do Paraná na liderança do Blockchain no Brasil e a escolha de Curitiba como a cidade para lançar o Blockchain Hub Brasil, o primeiro do modelo na América Latina é fruto desse entendimento.

        Acredito que o projeto Harpia pode ser a espinha dorsal da maior mudança que a gestão pública do Brasil sofrerá desde a chegada da Familia Real e deixo claro em todas as oportunidades, sempre evidenciei o orgulho de vivenciar esse processo e oferecer nosso apoio.

        Vejo no HARPIA a possibilidade de desenvolver um ecossistema de empresas e startups, criando modelos de negócios que se conectariam ao HARPIA permitindo funções e alternativas que vão além dos pregões eletrônicos, com potencial de gerar desenvolvimento econômico e social locais com aplicação dos recursos nos locais onde as contratações acontecem. Cito por exemplo o uso do blockchain para distribuição e impressão local de livros didáticos ou contratação de projetos e serviços de engenharia e fiscalização de uma rede distribuída de engenheiros e técnicos, entre outros modelos que temos acompanhado e desenvolvido ao longo de 20 anos de empreendimentos em rede e ambientes distribuídos de inovação.

        A crítica que faço é exclusiva ao processo de contratação e desenvolvimento, pois é evidente a ameaça ao potencial que essa modalidade de contratação trará ao projeto, tirando ele do papel de pedra fundamental da criação de um Blockchain de gestão pública que integre o governo e a iniciativa privada, podendo ser expandido para a área fiscal reduzindo os custos de arrecadação, para a saúde trazendo eficiência e eficácia para os custeio do sistema e para a recuperação econômica pós COVID19. Reduzindo-o à mais um sistema de uso obrigatório que levantara dezenas de questionamentos judiciais e entraves para os processos de contratação pública.

        Blockchain não é uma tecnologia que se desenvolva em duas camadas, uma de aplicação e uma de usuários, como são os sistemas centralizados de fornecedor único. Ele é composto por três camadas, a da Plataforma comum distribuída de dados, a das Aplicações que utilizam esses dados para atender as necessidades do Ecossistema de usuários.

        Essa nova camada da Plataforma requer uma governança formada representantes de todos os interessados em sua existência. Essa governança define os parâmetros de desenvolvimento e os princípios para escolha das tecnologias Blockchain ou DLT a serem combinadas para atender essas necessidades. Isso garante a adoção em massa e interoperabilidade dos sistemas e asim tem sido feito por diversos países e cadeias de valor inteiras pelo mundo.

        Desta forma, no papel institucional de aconselhamento do BRI Brasil e ter empenhado nossa credibilidade no esforço do Governador Carlos Massa Ratinho Jr e do governo do Estado Paraná. Sou crítico ao fato do HARPIA, apesar da transparência e foco do governo exemplares e muito bem colocados em seu comentário, estar sendo colocados em risco pelo processo de desenvolvimento da tecnologia. Pois usa uma metodologia antiga, inadequada para um projeto em Blockchain, que precisa de processos diferentes pois não se trata de uma tecnologia centralizada baseada em princípios de desenvolvimento de sistemas proprietários fechados, mas de uma tecnologia distribuída, baseada em princípios de compartilhamento de dados entre os sistemas.

        Quando nos comprometemos como o BRI Brasil tem feito com o Estado do Paraná, abrindo uma empresa em Curitiba, trazendo para a cidade um evento de 2 dias, abrindo as portas de nossos eventos exclusivos em Toronto e disponibilizando, sem custo, nosso banco de conhecimento e contato com nossos pesquisadores, passa ser nosso dever nos manifestarmos numa situação que vai no sentido contrário de tudo foi colocado à disposição do Estado. No mínimo para não sermos responsabilizados quando as altas expectativas geradas não se materializarem.

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