Claudia Mancini
é jornalista e cientista política, especializada em negócios, blockchain e economia digital

Em 2020, mandamos a SpaceX ao espaço, mas ainda matamos George Floyd(s)

Katherine Johnson, a mulher negra que levou o homem ao espaço.

SpaceX mandando astronauta para a estação espacial internacional; o Covid-19 (ele, de novo) e a morte de George Floyd. Misturando os assuntos das últimas semanas, a gente acha uma grande correlação entre eles. Quer ver?

O assassinato de George Floyd foi o estopim de uma onda de protestos varrendo os Estados Unidos (EUA) e se propagando por outros países. As imagens mostram claramente que a abordagem policial foi completamente enviesada, desumana e inconcebível. Racismo em sua essência.

Não é razoável que a cor da pele, local de nascimento, gênero, opção sexual ou crença religiosa seja motivo para tratamento diferente. Foi assim desde que o mundo é mundo. É assim em pleno século XXI. Conseguimos tantos avanços tecnológicos, mas ainda precisamos nos esforçar para lidar bem com nosso semelhante e sermos uma sociedade mais inclusiva, o que inclui também a área de tecnologia, onde claramente há um desequilíbrio de raças.

Obviamente há todo um histórico de racismo. O modus operandi da escravidão, promovida pelos europeus, continuou operando na América mesmo depois da independência. Um histórico tão carregado, que apesar de direitos civis iguais pelas leis, ainda não há igualdade para todos.

Além de toda a questão política e social, ainda há a humana: o preconceito implícito, em que o inconsciente das pessoas tenta simplificar o entendimento de sua realidade, gerando pré-conceitos para rápida – e muitas vezes erroneamente – tentar entender os fatos ao redor. Esse “entendimento” gera um conforto e também preconceitos e esteriótipos, o que deve ser combatido.

Não vou me estender sobre as origens e motivos do racismo, um problema que precisa ser encarado de frente e resolvido. Mas deixo 2 links no final deste artigo de ícones que admiro da NBA, a liga norte-americana de basquete. Um é do Kareem Abdul-Jabbar, lenda como jogador, e o outro é de Masai Ujiri, presidente do Toronto Raptors e responsável pelo atual título da NBA de seu time.

Covid e racismo

Junte-se a esse contexto as restrições impostas pelo Covid-19, que colocaram a situação das famílias no limite. E nas famílias com menos oportunidades, boa parte delas negras, o limite é muito mais restritivo. Nos EUA, passou-se o número de 40 milhões de desempregados, com taxa de desemprego de 14,7% ao fim de abril. Nas populações negras e hispânicas esses percentuais foram piores: 16,7% e 18,9%, respectivamente.

Nesse caldeirão de desespero, a morte chocante de George Floyd foi o estopim para demonstrar as inequalidades e o racismo que foram severamente catalisados pelo Covid-19. Para piorar a cena política americana, seu presidente jogou mais lenha na fogueira (qualquer semelhança com o Brasil não é mera coincidência…)

Dragon Crew

E eis que no meio desse mar de notícias ruins, surge a Dragon Crew e seu envio exitoso de dois astronautas americanos para a estação espacial internacional. A mídia deu bastante atenção a esse fato, especialmente a americana. Desde 2011, a maior potência mundial e espacial tinha que  vexatoriamente pedir uma “carona” para a agência espacial russa, arqui-inimiga da guerra-fria, para levar seus astronautas à estação espacial.

Se a mídia mundial destacou essa última informação acerca do lançamento, e a americana o fez com um tom patriótico, destacaria outras 2 características muito mais relevantes.

A primeira grande característica é que o foguete Falcon 9, que venceu a gravidade terrestre para colocar os astronautas em órbita, voltou à Terra, num pouso milimétrico. Isso mesmo, estamos acostumados a ver foguetes historicamente colocarem tripulações em órbita para em seguida virarem lixo espacial. O Falcon 9, como boa parte dos foguetes da SpaceX, não só retornou à Terra, como será reutilizado em futuras missões. Que bela forma de aplicação da tecnologia: mais barata e com menos consumo de recurso.

A segunda grande característica da missão é que pela primeira vez uma empresa privada levou gente para fora do nosso planeta. Reparem: uma startup com menos de 20 anos conseguiu esse feito com segurança, menor custo e menor uso de recursos. Acompanho a Spacex há algum tempo e vi que o sucesso não veio repentinamente. Foram feitos vários testes, missões não tripuladas e foguetes explodidos no meio do caminho.

O maior simbolismo para mim é o do acesso às tecnologias revolucionárias. Esse acesso não está mais restrito aos programas militares, agências nacionais e universidades de ponta. Pessoas comuns estão fazendo coisas extraordinárias.

E como juntar as histórias de Elon Musk (fundador da Spacex) e George Floyd? Personagens tão distintos, mas que orbitaram sentimentos tão antagônicos simultaneamente em nós recentemente.

A realização de Musk nos fez sentir sucesso, orgulho, euforia. O trágico assassinato do George nos fez sentir raiva, indignação, consternação. Acredito que precisaremos usar tudo isso para de fato melhorarmos.

Musk chegou até o espaço porque Katherine Johnson, junto com Mary Jackson e Dorothy Vaughan, as três matemáticas afro-americanas que ficaram conhecidas como “computadores de saia”, trabalharam nos programas espaciais Redstone, Mercury e Apollo para a Nasa.

Isso tudo lá na década de 60, em plena era de segregação racial nos EUA. Elas trabalhavam na divisão segregada de computadores da área oeste da Nasa. Mesmo esse absurdo de segregação não foi capaz de tirar a confiança de John Glenn, reconhecido astronauta branco da Apollo 11, em fazer questão de ouvir Katherine mostrar seus cálculos e confiar neles.

Naquela época, o cálculo era quase todo manual, o poder computacional era ínfimo comparado aos dias atuais. Hoje, a tecnologia está aí e acessível. As inequalidades e o racismo infelizmente também continuam aí e visíveis. Se o viés implícito muitas vezes é inconsciente, o menor acesso dos negros às oportunidades, não é.

Do que adianta aula virtual para quem não tem microcomputador e nem acesso à internet? Que tal lockdown sem água tratada nem esgoto? Se o acesso à infra-estrutura sempre foi importante, imagina nos tempo de Covid? E no pós-Covid?

Cada vez mais os empregos no futuro se deslocarão para setores de tecnologia. Mesmo os tradicionais terão uma pitada maior de tecnologia, tipo home-office – acho que a essa altura muitos já entendem isso, certo? E estes empregos cada vez mais se distanciarão dos empregos estritamente manuais, o que aumentará cada vez mais o abismo de renda e oportunidades entre as pessoas.

Dados nos Estados Unidos mostram que 20% dos formados em ciência da computação nos são negro e latinos. Mas eles são apenas 6% dos indústria de tecnologia.

O caminho deverá passar por uma universalização do acesso a infra-estrutura e tecnologia. Isso de fato dará condições a populações que vêm sofrendo racismo sistêmico a se colocarem de melhor forma no novo mercado de trabalho que se desenha. E de empreender. Afinal de contas, empreendedorismo e criatividade já são marcas dessas populações que têm que driblar a falta de recursos e oportunidade com muito “jogo de cintura” e com os mais variados negócios próprios. Imaginem todo esse potencial, esse diamante bruto de criatividade, com os devidos recursos?

O próprio setor de tecnologia deveria repensar seu papel. Não só no acesso, mas na representatividade. Quantos venture capitalists, fundadores, executivos do setor são negros, mulheres e nordestinos?

Acesso e combate ao viés implícito com diretrizes de acesso, oportunidades de trabalho, fundos específicos para populações menos favorecidas empreenderem podem ser bons caminhos.

Além disso, foi muito legal ver a união da sociedade civil para atacar a pandemia. Mais do que doações em dinheiro, doações em máscaras, luvas, equipamentos, seria mais legal ainda estender essa boa vontade, por exemplo, em doações de computadores e acesso à internet para as crianças que não têm condições. Algo que seria usado para além da pandemia. Uma máscara salva a vida no pico da pandemia. Um computador pode transformar uma vida para sempre.

Artigo de Kareem Abdul-Jabbar no LA Times: https://www.latimes.com/opinion/story/2020-05-30/dont-understand-the-protests-what-youre-seeing-is-people-pushed-to-the-edge

Artigo de Kareem Masai Ujiri no The Globe and Mail: https://www.theglobeandmail.com/opinion/article-masai-ujiri-to-overcome-racism-we-need-to-be-more-than-merely-good/

Link de artigo muito sucinto com dados de desemprego dos EUA em tempos de Covid: https://www.theguardian.com/business/2020/may/28/jobless-america-unemployment-coronavirus-in-figures

https://www.theguardian.com/business/2020/may/28/jobless-america-unemployment-coronavirus-in-figures

Stephan Krajcer trabalhou por mais de 15 anos no setor bancário e em 2018 fundou a Cuore, startup baseada no Canadá que desenvolve soluções tecnológicas de digitalização e automação para mercado financeiro, além de outras iniciativas com uso de tecnologias emergentes como AI e blockchain.

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