Claudia Mancini
é jornalista e cientista política, especializada em negócios, blockchain e economia digital

No novo normal, quase tudo terá versão digital melhorada, da educação escolar ao dinheiro

As guerras do século XXI serão em dados, nas empresas e governos, diz Krajcer.

A virtualização massificada das interações humanas que a atual pandemia vai nos deixar de legado foi o tema de meu artigo anterior – publicado em 25/05. Obviamente, as relações não serão apenas virtuais quando todas as restrições cessarem, mas a experimentação e a perda do medo em operar virtualmente trarão mais amplitude e profundidade no uso das tecnologias.

Um dos subprodutos dessa nova realidade é o que chamo de Omni-content (omni, tudo em latim). Nada novo, mas que será amplificado.

Se para reuniões se falou muito no Zoom, sua prima para propagação de conteúdo foi a live. Live para isso, live para aquilo, uma enxurrada de lives. Aqui foi outra explosão. Pessoas se reúnem virtualmente não só para trabalho, mas também para entretenimento, conteúdo e educação. Virtualizou-se quase tudo.

Se mais de 3 milhões de espectadores assistiram a live de Marília Mendonça no Youtube, mais de 12 milhões de pessoas viram a performance virtual de Travis Scott, um rapper americano, dentro do Fortnite, um dos games mais famosos atualmente. Imaginem os novos modelos de negócio que evoluirão… Imaginem acrescentar realidade virtual a isso tudo…

Chuva de lives

A chuva de lives nessa quantidade talvez não seja sustentável. Mas com certeza irá nos fazer repensar se um evento deve ser físico. Não só de entretenimento, mas de discussão de temas, como seminários e conferências.

Lives de conteúdo estão sendo muito utilizadas. Em geral, são gratuitas. O que é bom, pois traz mais audiência e dá acesso a conteúdos e discussões que muitas pessoas antes não teriam, quer seja pela questão financeira, quer seja pela questão física – a de rearranjos de escritórios, home office, onde empresas se estabelecerão e o impacto disso na dinâmica das cidades é assunto vasto para outra discussão.

A indústria de entretenimento, eventos, feiras de negócio serão chacoalhadas com a viabilidade desses novos formatos e como eles irão conviver com os mais tradicionais. Sem dúvida, essas indústrias precisarão rever seu modelo de negócio.

No banco da escola?

Daí chegamos a uma outra conjunção de extrema relevância: conteúdo e interação humana na educação. E esse é um campo fértil, não só na educação profissional, mas principalmente na educação escolar. Ainda são usados métodos do século passado na educação escolar.

Vivemos uma oportunidade única para evoluir o modelo educacional, aliando o que a tecnologia tem para agregar. Mas na medida correta, pois se por um lado o que se vive atualmente de aulas virtuais não é saudável no longo prazo, por outro há uma grande constatação de que a educação precisa evoluir.

Na maioria dos casos, simplesmente se jogou conteúdo de sala de aula num portal. Isso torna o processo oneroso para todos: alunos, professores e pais de alunos. Realmente espero que educadores, escolas e professores agarrem essa oportunidade e deem uma turbinada de fato em metodologia, conteúdo e ferramentas, em vez de usar a tecnologia para fazer uma gambiarra com o material do século passado para tapar a necessidade que a pandemia nos trouxe.

E quase integre isso a uma verdadeira experiência física, em que se valorize a proximidade e riqueza nas trocas entre alunos, professores, orientadores, dentre outros.

O ensino a distância (EAD), que teve grande crescimento nos últimos anos, deve reforçar sua relevância nos próximos anos. Seu crescimento será pautado por modelos de negócio, quão integrado estará, qualidade no conteúdo, experiência dos alunos e como massificar, dadas as questões de acesso a infraestrutura.

No mundo omni content, empresas terão de rever modelos de negócio

Como já vinha acontecendo no varejo com o conceito de omni channel (integração dos canais físicos e online), teremos o omni content não só na educação, mas em todas as plataformas de conteúdo e entretenimento.

Dado que o digital tem abocanhado um espaço relevante das interações físicas, haverá a necessidade de se pensar numa melhor intersecção de meios. É verdade que há várias iniciativas, inclusive antes da pandemia, mas isso precisará se intensificar.

O distanciamento social também reforçou transações sem contato.

Voltando para as lives de artistas, outra coisa que me chamou a atenção foram os QR Codes no canto da tela. Talvez seja um excelente indicativo da massificação no uso de novos meios de pagamento.

As transações em geral, e os meios de pagamentos dentre eles, devem ganhar um elemento de desburocratização, já que se perdeu o medo “na marra”. Alguém sentiu falta de não ter firma reconhecida em documento? Ou melhor, documentos assinados digitalmente, alguma reclamação? Esse movimento já vinha de antes, mas ainda tímido. Acelerou. E espero que seja mantido e incorporado a esse tal de novo normal.

Papel para quê?

Voltando aos pagamentos, os instantâneos já estavam na agenda. Prova disso eram que o projeto PIX do Banco Central já estava “no forno” e previsto para lançamento em novembro. A proliferação daquelas plaquetas com QR code no pequeno comércio crescendo exponencialmente assim como a profusão de wallets. Wallets das mais variadas: de varejistas, patinete, bancão, big tech, cripto…

A pandemia forçou um uso cada vez maior de pagamentos sem contato, relegando as notas físicas, que já vinham perdendo espaço, a perder ainda mais força. Mesmo o cartão de crédito ou débito teve um reforço para transações por aproximação, evitando que consumidores tenham que tocar nos POS, as maquininhas. Já perdemos o hábito de usar cheques, estamos perdendo o hábito das notas, perderemos no futuro hábito de carregar cartões (por menores e leves que sejam).

Terreno fértil para uma infra-estrutura mais moderna, não só o PIX, mas imaginem virtualizar as moedas nacionais, já que as notas físicas perdem relevância. Nos últimos anos, o debate das CBDCs (sigla em inglês para moedas digitais de bancos centrais), vem evoluindo e o momento atual reforça a relevância. Uma idéia que parecia maluca há alguns anos atrás, parece bastante razoável atualmente… Para quê o apego ao papel moeda?

Vale lembrar que isso já ocorreu, por exemplo, na indústria da informação impressa. Jornais e revistas consistentemente diminuindo circulação de seus veículos impressos, com o avanço e popularização de novas mídias. Portanto, hoje parece bem razoável que esse movimento chegue ao dinheiro também.

Houve um choque de costumes, perdeu-se o medo do virtual e há incentivos em vários participantes dessa indústria de se ganhar eficiência, além do medo de novos formatos ganharem força. Transações mais baratas, rápidas e eficientes. Menos impressão de papel moeda, menos logística e segurança para armazenamento das notas, ou seja, a tecnologia trazendo eficiência para as transações financeiras.

Carteiras que não ficam no bolso

E sobre as cripto moedas? É importante separar o joio do trigo. Sem o Bitcoin, não estaríamos discutindo CBDC, que são moedas tokenizadas por bancos centrais e distribuídas em blockchain, em vez de papel. As cripto foram fundamentais também na forma que as wallets de cripto evoluíram e influenciaram as de moedas fiduciárias, as fiat. Também deverão ganhar relevância e mais adoção, mas as pessoas precisam perder o medo.

Isso significa diminuição de fraudes, uma experiência de usuário menos técnica e mais simples para o usuário comum, além da diminuição de volatilidade para um uso mais corriqueiro (desassociando do investimento que beira especulativo). CBDC’s e stablecoins (criptomoedas atreladas a moedas ou cesta de moedas nacionais que mitigam a volatilidade) serão elementos fundamentais para uma nova primavera cripto.  Sem contar o potencial que projetos como a Libra (cripto moeda do Facebook) podem gerar quando (e por que não se) forem lançados.

Independente de quais sejam os modelos de negócio e tecnologia vencedoras, pagamentos instantâneos e sem contato vieram par ficar e o distanciamento social apenas acelera o ritmo de adoção.

Stephan Krajcer trabalhou por mais de 15 anos no setor bancário e em 2018 fundou a Cuore, startup baseada no Canadá que desenvolve soluções tecnológicas de digitalização e automação para mercado financeiro, além de outras iniciativas com uso de tecnologias emergentes como AI e blockchain.

1 Comentários

  1. Muito importante a ressalva da educação de gambiarra que estão sendo utilizadas.
    É necessária uma revolução completa nesse quesito.
    Aqui no Brasil o que é imprescindível levar a internet com qualidade para TODOS.
    Será interessante que os pais também se reciclem nos seus conhecimento.
    Talvez uma assistência pedagógica para pais.
    Acredito que EDUCAÇÃO SERÁ A GRANDE REVOLUÇÃO PARA NOS BRASILEIROS, NÃO PODEMOS PERDER ESSA GRANDE OPORTUNIDADE.

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