Claudia Mancini
é jornalista e cientista política, especializada em negócios, blockchain e economia digital

Lift Lab anuncia 25 escolhidos para o programa de inovação deste ano

A Fenasbac, federação dos funcionários do Banco Central, e o Banco Central, anunciaram os escolhidos para o LIFT Lab 2020, programa de inovação com empresas e startups que desenvolvem soluções para o sistema financeiro. Esta é a terceira edição do programa.

São 25 escolhidos, que terão mentoria de empresas como R3 e Multiledgers, ambas com foco em blockchain, Microsoft, Cielo, IBM, AWS, Microsoft, Celer. A lista da empresas está em https://bit.ly/3gC3hC4.

Discovery Science exibe primeiro seriado financiado com criptomoeda

O Discovery Science dos Estados Unidos vai ser o primeiro canal a cabo a transmitir o primeiro documentário 100% financiado com criptomoedas. Como não poderia deixar de ser, o tema é o mundo cripto, mais especificamente a historia da plataforma blockchain Dragonchain, desenvolvida pela The Walt Disney Company em 2014 e que depois se tornou open source e foi lançada em 2017. O seriado Open Source Money estreia dia 4 de julho.

A produção de cinco capítulos custou US$ 1 milhão. De acordo com a Vision Tree Media, Open Source Money conta a história de Joe Roets, fundador da Dragonchain, empresa que ajudou a aumentar o interesse mundial por criptomoedas. Para isso, será contada também a história da blockchain e das criptomoedas e entrevistará outros empreendedores do mundo cripto, incluindo o Facebook.

A Vision Tree, que há 65 anos produz filmes, também é co-produtora do filme “Atari: Fistful of Quarters”, junto com a produtora do ator Leonardo di Caprio. O filme foi tokenizado pela TZERO. Os tokens Bushnell dão direito a parte dos ganhos do filme e outros benefícios, como votar no trailer e ajudar a escolher o elenco. A produção é sobre um dos criadores do primeiro vídeo game do mundo, Nolan Bushnell. O Atari, para quem não se lembra ou não sabe, é o pai dos jogos eletrônicos.

Fale mal (Goldman Sachs), mas fale de mim (Bitcoin)

A expectativa era de uma história de amor com final feliz, mas foi a briga da semana no mundo cripto. Quando o Goldman Sachs, um dos maiores bancos do mundo, chamou um call com investidores para falar da economia dos Estados Unidos (EUA) e suas implicações em inflação, ouro e bitcoin, muita gente acreditou que sairia dali uma recomendação de compra da moeda digital. Que nada. Foi um desfile de críticas à criação do incógnito Satoshi Nakamoto.

Na sequência, houve outro desfile de críticas do mundo cripto ao banco em sites e redes sociais, incluindo acusações de que a recomendação foi feita porque bitcoin não está no portfolio do banco, portanto o GS não ganha com sua negociação, de que o banco não sabe fazer análise e de que o GS não tem moral para falar que bitcoin é coisa de criminoso.  

Mas afinal, o que aconteceu? Temor do banco de perder clientes por conta da alta da moeda ou análise com fundamento econômico?

Cronologicamente falando, o otimismo com o call veio do forte entusiasmo com bitcoin que o Goldman já teve. Nos idos de 2017 e início de 2018, quando o preço subia aos céus, teve até relatório de recomendação dizendo que a moeda era dinheiro. O entusiasmo acabou quando a cotação embicou para baixo.

Outros fatos podem ter ajudado, como a notícia de que em 2019 o valor dos ativos sob gestão de fundos de hedge focados em criptos dobrou para mais de US$ 2 bilhões, segundo a PWC e a Elwood Asset Management. Além disso, Paul Tudor, o bilionário investidor e administrador de fundos de hedge disse que já tem quase 2% de seus ativos em bitcoin. Pode ter contado até a decisão do JP Morgan de aceitar como clientes duas exchanges – o JP está em blockchain com a plataforma Quorum para o mercado financeiro, mas desviava da demanda do mercado cripto.

A apresentação do GS usada no call defende que bitcoin não gera fluxo de caixa, como os títulos conseguem, e que não é classe de ativos, o que muita gente contesta com base em decisões de órgãos reguladores nos Estados Unidos. Também não gera benefícios porque é instável e tem uma volatilidade histórica de 76%. Para completar, disse o Goldman Sachs, não há evidência de que é um bom hedge, ou proteção, contra a inflação. Este último é que parece ser o ponto central.

O economista Gustavo Cunha, estudioso de criptoativos e moedas digitais de governos, as CBDCs, diz que há uma linha de pensamento hoje de que neste mundo com pandemia, os ativos são os mesmos, mas há mais dinheiro disponível para investimento por dois motivos: as políticas monetárias dos governos pelo mundo, que colocaram recursos nas economias para reativá-las, e porque quem tem dinheiro sobrando não necessariamente vai consumir. Portanto, vai ter de investir, o que deve gerar um aumento do valor dos ativos, uma inflação. “É uma discussão muito em voga no setor econômico”, diz ele.

Ouro e bitcoin são ativos limitados e escassos e por isso, o preço poderia subir mais. Nakamoto avisou que liberaria 21 milhões de bitcons e hoje cerca de 18 milhões estão em circulação. Poderia haver uma corrida à moeda. Até houve recentemente, em boa parte por conta do halving, ou divisão pela metade da recompensa na mineração da cripto, o incentivo usado para a colocação de mais delas na rede.

Mas o que o GS disse é que ouro e bitcoin não mostram retornos no longo prazo que compensam os riscos. “Acreditamos que um ativo cuja valorização é primariamente dependente de alguém querer pagar um preço mais alto por ele, não é um investimento adequado para nossos clientes”, apesar dos movimentos de alta da moeda. E completou – praticamente respondendo a quem fala sobre os movimentos dos fundos de hedge, que buscam ganhos na volatilidade -, que “esse olhar não é um racional viável de investimento”.

Seria esse um sinal de temor do GS de que pode perder ou já perdeu clientes para bitcoin, moeda que está num mercado hoje (29) avaliado em US$ 262 bilhões segundo o CoinMarketCap? Cunha acha que não. E será que os movimentos do JP e dos hedges pode ser um indício de que Wall Street, coração do mercado financeiro global, vai entrar no mundo cripto?

“Ainda não. E não dá para falar se vão entrar algum dia, depende muito do uso da moeda no futuro”, diz ele. Bitcoin tem 11 anos e como meio de pagamento não se consolidou, por questões como a regulatória e experiência do usuário, que não é simples e requer muita adaptação, completou.

Fato é que mesmo falando mal, o Goldman Sachs falou da moeda e para ninguém menos do que seus investidores e num call. E só isso já gerou um buzz e certamente curiosidade e pesquisa sobre o assunto. É a máxima do fale mal, mas fale de mim.

Programa da Telefónica dará acesso gratuito a soluções para startups e PMEs

A Telefónica anunciou o lançamento do Activation Programme, que selecionará startups e pequenas e médias empresas que poderão ter acesso gratuito a novas tecnologias, incluindo Internet das Coisas (IoT), blockchain, big data e inteligência artificial, para que se desenvolvam. Segundo a empresa, o programa será lançado também no Brasil, mas ainda não há data anunciada.

O programa inclui a realização de pilotos para a Telefónica e seus clientes e até investimento do Wayra, hub de inovação da empresa.

Em blockchain, será dado acesso à sua solução TrustOS.

Google Cloud se torna nó validador da rede de distribuição de vídeos Theta

O Google, por meio do Gloogle Cloud, deu um passo de aproximação com blockchain. A empresa fechou um acordo com a Theta Labs, plataforma global de distribuição descentralizada (P2) de vídeo e que tem nós inclusive no Brasil. O Google Cloud vai ser um nó validador na rede Theta na Europa, a partir da Irlanda, e vai oferecer um serviço que permite aos usuários da plataforma para implantarem nós da rede Theta.

O nó validador aprova se uma transação pode ser fechada – outros tipos de nós têm outras funções. Segundo o Google, esse é um dos seus primeiros nós validadores e é um passo além da inclusão de dados do Bitcoin, Ethereum e outras 6 cripto moedas através de seu programa público.

Com a entrada do Google Cloud, redes da Theta em diversas partes do mundo estarão mais livres para os vídeos. Nela, os vídeos estão distribuídos a partir de diversos pontos e não apenas a partir de um banco de dados centralizado, de onde se “puxa” o vídeo quando alguém quer acessar, como acontece com Netflix, por exemplo. Cada vez que um grupo de usuários assiste ao mesmo vídeo praticamente ao mesmo tempo, apenas o primeiro acessa o banco de dados e a imagem passa de um para outro. Isso reduz custos de infraestrutura.

Por isso, quanto mais usuários, mais eficiente é a rede. E ainda é possível “alugar” sua banda larga na rede blockchain, com pagamento feitos com o token Gamma. Samsung e Sony são alguns dos nós validadores, que agora são 12. Samsung é também um dos investidores na empresa.

CoinShares cria índice que une ouro e criptoativos para equilibrar volatilidade

A CoinShares, que oferece investimentos em criptoativos, lançou o índice CoinShares Gold and Cryptoassets Index (CGCI), o primeiro que segue a regra EU Benchmark Regulations (EU BMR), da União Europeia, para a indústria de ativos digitais. Ao combinar ouro e criptoativos, o índice combina a baixa volatilidade e maior segurança do metal com a alta volatilidade do criptos.

No último rebalanço do índice, em 30 de abril, os criptos eram 31,75% do índice e o ouro representava os restantes 68,25%. O CGCI foi elaborado com o suporte do Imperial College London, que avaliou que aliar os dois ativos é menos arriscado do que ter um dos dois apenas. “O CGCI é o produto de quase dois anos de pesquisa, desenvolvimento e experiências com a CoinShares”, disse Will Knottenbelt, diretor do Imperial College Centre for Cryptocurrency Research and Engineering.

O índice pode ser acessado pelo Bloomberg Terminals and Refinitiv. O chairman executivo da CoinShares, Daniel Masters, afirmou que índices de produtos baseados em pesquisa e bem documentados foram os catalisadores da adoção das commodities como investimentos pelas empresas. A Coinshares criou, em 2014, o primeiro fundo de Bitcoin regulado.

Accenture, Deloitte e Colômbia assinam declaração de direitos do blockchain

Accenture, Deloitte, a presidência da Colômbia estão entre os 53 signatários da declaração de direitos do Blockchain, a Presidio Principles: Foundational Values for a Descentralized Future, lançada pelo World Economic Forum Blockchain Council. A maioria deles já nasceu no mundo blockchain.

O objetivo é ter um guia que preserve os direitos dos usuários ao se desenvolver aplicativos para as plataformas. A tecnologia muitas vezes é questionada sobre a proteção de dados dos usuários, como mandam as leis LGPD, prevista para entrar em vigor no Brasil em agosto, e a GRPD, da União Europeia.

Com a pandemia do Covid-19, espera-se um aumento do uso de tecnologias e esses questionamentos podem crescer. O documento foi desenvolvido por um ano.

Os princípios são divididos em 4 pilares: transparência e acessibilidade, referente ao direito à informação sobre o sistema; privacidade e segurança, que trata do direito à proteção de dados; agência e interoperabilidade, o direito dos indivíduos de terem a propriedade e o gerenciamento de seus dados; e accountability (prestação de contas) e governança, que é sobre o direito dos usuários do sistema de entender os recursos da plataforma.

Instituto Totum emite certificado de energia renovável com blockchain

O Instituto Totum, especializado em certificação, começou a usar blockchain nos certificados de energia renovável de padrão internacional, os I-RECs, comprados por empresas para demonstrar que usam ou incentivam esse tipo de geração. O objetivo é garantir que um certificado será utilizado apenas uma vez, sem duplicação de venda ou manipulação de dados para reuso.

” Queríamos colocar uma segunda camada de segurança na emissão e nos adiantarmos a uma realidade que vai acontecer, que é blockchain para negócios em energia elétrica”, diz Fernando Lopes, sócio do Totum.

O Totum deve gerar cerca de 4 milhões de I-RECs neste ano. Há 110 usinas de 30 empresas aptas a emitirem o certificado no Brasil, o que é voluntário. Segundo Lopes, foram investidos R$ 500 mil no projeto para incluir blockchain no Sistema Totum de Emissão de RECs (Sisrec). O projeto foi conduzido internamente, com a plataforma Hyperledger Fabric e tem capacidade de até 20 mil transações por segundo. A estimativa é de um retorno do investimento em três a quatro anos.

A ideia de usar blockchain começou há três anos e decidiu-se ir direto para a produção, sem testes. Estudo do portal alemão Statista prevê um crescimento do uso dessa tecnologia no setor de US$ 1,2 bilhão para US$ 23,3 bilhões em 2023.

Para acelerar o lançamento, o Totum é o único validador, com 3 servidores. A próxima etapa, ainda em 2020, é abrir para que uma ou duas usinas, a Associação Brasileira de Geração de Energia Limpa (Abragel) e a Associação Brasileira de Energia Eólica (ABEEólica) também sejam nós validadores. A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) e a Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE) têm restrições para isso devido a políticas de dados.

Blockchain com IoT

Também está no plano o uso de internet das coisas (IoT) para envio de dados pelas geradoras e ampliação do uso da plataforma para outras áreas em que o Totum atua como certificador, como alimentícia, financeira e de segurança. Hoje, os dados de geração de energia no sistema elétrico do país, usados para emitir os certificados, estão disponíveis para o instituto com cerca de dois meses de atraso.

Com IoT, a geradora poderá enviar os dados em tempo real e vender mais rápido o certificado após a geração. “Vamos colocar smart contract para a usina alimentar nosso sistema e emitir seus RECs. A rigor, cada usina poderia ter sua plataforma de blockchain para gerar certificados, mas o mercado não vê isso com bons olhos, porque pede um garantidor”, diz Lopes.

“Trabalhamos numa parte pequena da energia elétrica disponível, mas quem sabe com nosso aprendizado não possamos migrar para o que se faz no exterior, que é tokenizar a geração e consumo, principalmente a P2P. Estamos estudando isso”, completa o executivo. Com o novo marco regulatório do setor, que está no Congresso, isso poderá ser realizado.

O Totum estuda ainda o uso de blockchain para um outro ativo de energia. “Já se fala num ativo ambiental, que seria o lastro de energia, a que de fato vai ser entregue e tem relação com a intermitência de geração – quanto menos intermitência (caso da hidrelétrica), mais garantia de entrega pode ser vendida”, completou.

As empresas compram certificados para demonstrar que apoiam a geração limpa.
As empresas compram certificados para demonstrar que apoiam a geração limpa.

Como se gera o certificado

A geração do certificado parte da inclusão de dados de geração de energia renovável vindos da Aneel e da CCEE. A inclusão ainda é manual. A partir daí começa o uso de blockchain, com a emissão de um certificado para cada megawatt/hora gerado por uma usina que adota o processo de certificação. A venda é feita no Sisrec para empresas interessadas em comprá-los, que são os usuários finais, ou para os traders.

Com a hash gerada e a possibilidade de rastrear tentativas de reuso ou adulteração, a confiabilidade de um certificado é mais garantida. “Blockchain resolve bem essa transação”, afirma Lopes. O certificado tem dados como o código da usina, tipo de energia, mês e período da geração, data de aprovação, registro no blockchain e a hash emitida.

Como funciona o certificado

Os I-RECs são emitidos em outros países e a o Instituto Totum é o emissor oficial no Brasil. Na ponta final do usuário, não é possível saber de onde vem a energia elétrica. Por isso, uma empresa pode comprar uma quantidade de certificados equivalentes à energia que usa, como forma de mostrar que se preocupa com a energia renovável. Isso pode incentivar a geração, porque cria mais uma receita para as usinas, e as empresas podem usar os certificados em seus relatórios de responsabilidade social e ambiental. Há aquelas que têm metas de uso de energia limpa. É possível também comprar certificados de gerações específicas, como de energia eólica.

“Como a energia renovável é mais abundante aqui do que na Europa e Estados Unidos, o valor de uma REC é de U$5 a US$ 10 no mercado norte-americano, de 3 a 4 euros na Europa e de R$ 2 a R$ 5 no Brasil. O de recursos hídricos aqui, por exemplo, é mais barato”, explica Lopes.

O Instituto Totum tem os dados de 95% da energia gerada no país por mais de 2 mil sinas, referentes à produção centralizada – a descentralizada é, por exemplo, a geração de energia solar em casa. São cerca de 45 milhões de megawatt/mês. O sistema de contabilização de energia renovável que entra no sistema existe há 20 anos, mas há 7 anos foi lançado pelo Totum no Brasil e há 4 anos o instituto emite o I-REC, que tem padrão internacional, o que aumentou o interesse na certificação.

O hoje não é o novo normal. O novo ainda vai chegar e será nas interações entre pessoas

Esse primeiro semestre de 2020 está sendo o pico (assim espero) de uma severa pandemia e depressão econômica. Uma mudança radical nos hábitos de pessoas e empresas foi imposta por conta do medo de contágio em si e de políticas públicas como quarentena e lockdown. Deste choque na rotina das pessoas muitos profetizam sobre o novo normal, novos hábitos que as sociedades incorporarão de agora em diante. Apesar de haver elementos de novo normal, o que se vive hoje não será o novo normal. Haverá ainda uma fase de transição, que a duração dependerá de uma série de fatores, para lentamente desaguar em algo mais perene. E se isso tiver mudanças representativas ao que se vivia antes da pandemia, e acredito que tais mudanças apareçam, aí sim teremos…. o novo normal.

O home office, por exemplo, não foi e não será o que vivemos hoje. Para começar, é home tudo. Home office, home school, home mercado, home etc. Todos os membros da família e, às vezes, alguns agregados, compartilham do mesmo ambiente, cada pessoa com suas necessidades. A não ser que a Terra vire um planeta tão inóspito como Marte, esse não será o novo normal. Porém, podemos pegar vários elementos que foram catapultados pela atual crise e projetar como vão se inserir de forma mais significativa na sociedade e eventualmente até catalisar mudanças e evoluções.

Fato: iremos experimentar uma virtualização massificada das interações humanas.

Uma das grandes vedetes, a web conferência em que o Zoom foi seu mais famoso representante, já existia há bons anos. Porém, sempre relegado a um papel secundário nos ambientes de trabalho mais tradicionais. Pois não é que estes foram forçados a usar? Perdeu-se o medo frente a necessidade. E não é que funciona? Esta será uma ferramenta cada vez mais usada para ganho de produtividade, com reuniões mais objetivas e sem desperdício de traslados para outros polos da empresa, clientes, inclusive evitando viagens mais longas (o planeta agradece), claramente substituíveis por uma reunião virtual. E imagina isso se estendendo para além da empresa, se aprofundando nas relações com clientes, fornecedores e projetos com vários participantes.

Free-lancers e outros profissionais liberais, na média, já estão mais acostumados a trabalhar de forma mais remota, quer seja em marketplaces de oferta de serviços, quer seja em terceirizações de funções como desenvolvimento de software, comunicação, webdesign, entre outros. E esse tipo de relação virtual só crescia, muito antes de qualquer indício de pandemia. O trabalho remoto, que já existia antes da pandemia, tende a se intensificar e com ele novas oportunidades e riscos inerentes a essa forma de trabalho, especialmente pela experimentação e potencial adoção por empresas que antes não o consideravam seriamente.

Zoom nas assembleias

Outro grande serviço que as reuniões virtuais podem prestar é em assembleias deliberativas. Imagina assembléia de condomínio virtual com voto eletrônico substituindo aquelas assembleias de condomínio chatas e intermináveis… Clubes, Igrejas, comitês, associação de classes, qualquer organização. Isso pode ser aplicado também a assembleias de acionistas (além de outros títulos financeiros) e gerar uma maior participação e engajamento – diga-se de passagem, Warren Buffett brilhou com sua assembleia geral anual da Berkshire Hathaway inteiramente digital.

Daqui para frente, essa tendência forçará ajustes a seu redor: melhoria e maior acesso na infraestrutura de internet, maior cuidado com segurança de dados, adaptação de legislação e uma nova “etiqueta” de reuniões virtuais. Sobre a infraestrutura, acredito que dispensa comentários no Brasil. Reuniões virtuais funcionam super bem para quem tem computador e internet relativamente rápida e estável. Pois ficar em conferência com o áudio picotado, ou até o audio dessincronizado com a imagem, tipo as dublagens dos seriados japoneses da década de 80, é bastante contraproducente e cansativo.

Sobre a segurança de dados, a etiqueta virtual deve ser ainda mais rígida e as plataformas mais seguras. Muitas reunião virtuais recentes têm sido invadidas, tem até novo termo cunhado para isso: zoombombing. Para uma adoção maior, especialmente no universo empresarial, esse tipo de ameaça tem que ser menos provável de ocorrer (100% seguro talvez seja utópico). Sobre legislação, seria o caso de ajustar (ou manter os ajustes feitos para a pandemia) o que for necessário para dar conforto jurídico sobre reuniões virtuais. É o caso, por exemplo, de se manter a possibilidade de assembleias virtuais sem obrigatoriamente ter o aspecto físico. Ou os limites de responsabilidades quando se tratarem informações sigilosas. Com a dose certa, os ajustes podem atacar a burocracia, os custos decorrentes dela e ao mesmo tempo dar segurança jurídica.

Outros elementos que acredito devam ganhar força são a omni content, transações sem contato, telemedicina, uma completa revisão da logística, novas práticas de transporte público e revisão da política de produção mundial de bens com viés de gestão de risco dentre outras tendências. Estes serão assuntos para outros artigos dessa série

Novo normal após o 11/09

Apenas como contra-ponto, por mais digital que o mundo caminhe, a pandemia também trouxe a valorização dos momentos de presença física. Visitar a familia, sair com amigos, ir à escola e praticar esportes. Ou vocês acham que quando abrandar a pandemia, ninguém mais vai à padaria tomar uma média com pão na chapa? Mesmo que serviços de delivery entreguem comida, há toda uma questão de experiência, ritual, que será cada vez mais valorizada. Até mesmo porque, as coisas não voltarão a ser como eram de uma vez só. Tudo será faseado, quer seja por questões impostas por governantes, quer seja por medo da população. Mas seríamos ingênuos em acreditar que as interações presenciais irão cessar. Elas continuarão. Com restrições gradativamente menores. Assistir à final de um evento esportivo no estádio, um show de seu artista favorito, uma peça de teatro, tomar uma cerveja com amigos com certeza não desaparecerão. Além disso, dadas todas as restrições atuais acredito que serão encaradas de forma mais especial.

Talvez a pergunta aqui é como será a abertura e como as condições impostas impactarão a experiência. Tomemos como exemplo os eventos de 11 de Setembro de 2001, com a série de atentados terroristas nos Estados Unidos. Vidas foram perdidas, cenas chocantes presenciadas por bilhões de pessoas. Durante um período transitório, houve grande medo em pegar avião e até uma série de restrições para viagens por esse meio. Mas daí, o novo normal não foi deixar de viajar, e sim o uso de tecnologia e procedimentos mais rigorosos no embarque das pessoas. Sem dúvida o novo processo comprometeu a experiência dos usuários – tira sapato, passarela raio-x, entra em outra fila etc.) mas foi a forma como as viagens foram retomadas. A grande pergunta é como as interações presenciais irão ser retomadas, com quais limitações, por quanto tempo e qual será o papel da tecnologia nesse… novo normal.

Stephan Krajcer trabalhou por mais de 15 anos no setor bancário e em 2018 fundou a Cuore, startup baseada no Canadá que desenvolve soluções tecnológicas de digitalização e automação para mercado financeiro, além de outras iniciativas com uso de tecnologias emergentes como AI e blockchain.

IBM compra fatia da plataforma we.trade e reforça atuação em comércio exterior

A IBM é a nova sócia da we.trade, uma das maiores e mais consolidadas plataformas de financiamento de comércio exterior baseada em blockchain, com 12 bancos europeus como sócios. A plataforma usa o Hyperledger Fabric da IBM e com a sociedade espera-se um reforço no seu plano de crescimento de novos usuários e de países envolvidos nas operações.

No ano passado, Ciaran McGowan, CEO da we.trade, afirmou que a ideia era que empresa tivesse sua própria plataforma e dependesse menos da Hyperledger Fabric. O motivo era que a empresa não poderia pagar para sempre pelo produto.

O valor do investimento não foi revelado, mas significa uma participação de 7% na plataforma. Os outros sócios são alguns dos maiores bancos da Europa e do mundo – Santander, Deutsche Bank, HSBC, UBS, CaixaBank, Erste Bank da Áustria e sua subsidiária Česká spořitelna, KBC, Natixis, Nordea, Rabobank, Société Générale e sua subsidiária KB e UniCredit Itália.

A we.trade entrou em operação em 2018 e de janeiro a julho de 2019 o crescimento de operações foi de 38% ao mês, em média. Além dos 12 bancos sócios, Eurobank, CSOB e UniCredit Alemanha têm licenças para uso.

Expansão na Ásia

O segmento de financiamento de comércio exterior é ainda bastante dependente de atividades manuais e papel, o que afeta custos e rapidez dos processos. Uma situação crítica como o isolamento social provocado pela pandemia do Covid-19 torna os processos ainda mais penosos. Por isso, blockchain tem sido adotada por grupos de bancos e empresas que buscam mais agilidade e eficiência.

A partir de julho, a we.trade deve receber novos bancos e clientes da Europa e depois da Ásia. O plano é também permitir a interoperabilidade com outras redes similares, como o que já foi feito com a eTradeConnect, plataforma que tem mais de 10 bancos asiáticos. A plataforma poderá também incluir membros como seguradoras, importadores, exportadores e empresas de logística.

Espera-se que a IBM busque a integração com suas plataformas TradeLens, de comécio exterior, e Food Trust, de rastreamento e monitoramento de cadeias de suprimentos.

No Brasil, a Covantis, de traders líderes em commodities agrícolas, vai lançar sua plataforma para monitoramento de embarques de exportação de soja e milho. Mas a rede poderá no futuros incluir também bancos.

Para usar a plataforma os custa são de cerca de US$ 2 mil (em torno de R$ 10 mil) – para iniciantes – a US$ 175 mil (R$ 875 mil) ao ano. O valor para testar a plataforma é de US$ 75 mil (R$ 375 mil).