Claudia Mancini
é jornalista e cientista política, especializada em negócios, blockchain e economia digital

Começará no Brasil uso global de blockchain por ADM, Bunge, Cargill, Glencore, LDC e COFCO

Petya Sechanova, CEO da Covantis, que lançará projeto no Brasil.

O Brasil é a peça-chave de um dos – ou do maior – projeto global de uso de blockchain no agronegócio. É em Santos e possivelmente em julho que começará o uso da tecnologia para cargas exportadas pela ADM, Bunge, Cargill, Glencore, LDC (Louis Dreyfus) e COFCO (China Oil and Foodstuffs Corporation), maior processadora e trader do país asiático.

O objetivo é injetar eficiência num setor cujo trabalho é baseado na troca de mais de mais de 275 milhões de e-mails por ano, uso de papel e entrega de documentos físicos.

“Nossas empresas têm procurado formas de modernizarem a forma como operamos. A verdade é que trabalhamos numa maneira muito ineficiente. Provavelmente, a agroindústria é uma das mais arcaicas do mundo”, disse, em entrevista exclusiva ao Blocknews, Petya Sechanova, recém-nomeada CEO da Covantis, empresa com sede na Suíça e fundada pelas traders do projeto. Petya se diz apaixonada pelo que blockchain pode trazer de oportunidades.

A executiva búlgara conhece bem esse mundo. Trabalhou por 11 anos na Cargill, em operações de supply chain. No Brasil, Marcos Amorim, presidente do Comitê de Contratos Externos da Anec (Associação Nacional dos Exportadores de Cereais) é a “face” da Covantis, dando apoio técnico e conversando com o mercado, diz Petya.  

Na entrevista a seguir, Petya detalha como as empresas concorrentes se juntaram num projeto de exige cooperação e ao mesmo tempo, privacidade, como se chegou à conclusão de que blockchain era a melhor solução para o desafio da transformação digital e como será a operação. Amorim explica a parte tecnológica e detalhes do mercado brasileiro.

Fora de moda e ineficiente

Há anos as empresas tentam se digitalizar para melhorar o processo de comércio exterior. Mas vimos que somos muito interconectados, trabalhamos com diferentes vendedores e compradores de cargas no mesmo navio e há a interconexão de fornecedores, como agentes e bancos. A transformação de uma só empresa não vai trazer a transformação que precisamos para o setor.  

Dos emails enviados pelas empresas, 85% são desnecessários. Os carregamentos de grãos e oleaginosas, foco da Covantis, geram mais de 25 mil emails para cada um dos 11 mil carregamentos marítimos feito ao ano, além da enorme quantidade de papel usada. Pelos testes iniciais com blockchain, estima-se que 60% das tarefas sejam automatizadas, que caiam em 80% as trocas de informações erradas e que se reduza em 7 a 10 dias a espera dos navios para embarque e desembarque.

O objetivo é melhorar o processo reduzindo custos de execução e evitando custos e riscos operacionais. Não é objetivo influenciar o preço das commodities.

Queremos habilitar a indústria a adotar tecnologias emergentes como blockchain, inteligência artificial (IA) e internet das coisas (IoT), que poderiam simplificar e dar mais eficiência ao comércio exterior

Porque blockchain

Em janeiro de 2018, começamos a fazer reuniões com responsáveis pela operação de exportação das 6 empresas da Covantis para pensar como poderíamos juntar forças para sermos mais eficientes. Não era o objetivo inicial usar blockchain, mas todos os estudos deixaram claro aspectos que deram suporte à nossa decisão de usar essa tecnologia.

Blockchain é construída da indústria para a indústria. Por isso, também precisamos dos mais altos níveis de proteção de dados, com o registro de cada ação e transação, imutabilidade do que foi registrado, armazenamento seguro e a possiblidade de um registro distribuído, sem a necessidade de um banco de dados central.

Juntos, mas separados

Decidimos pelo Brasil, porque é um dos maiores exportadores de commodities agrícolas do mundo e tem um processo de exportação relativamente complexo, com múltiplos vendedores comercializando com vários compradores, e com outros, e outros, até que o vendedor final garanta o embarque da carga para o destino. E há cargas de diferentes vendedores e compradores dividindo o mesmo navio (o que não é comum em mercados como o dos Estados Unidos).

E quando começamos a conversar com o mercado brasileiro, ouvimos que a ideia era boa e urgente, mas precisávamos garantir que qualquer transação seria visível apenas entre comprador e vendedor, sem ser visto nem mesmo pela Covantis, que gerencia a plataforma. Ficou claro que blockchain oferece muitas vantagens para proteção de dados. 

Sucesso é expandir a plataforma

A plataforma está em construção. A Consensys foi contratada para isso. O desenvolvimento começou em setembro passado e focado no lançamento para soja e milho partindo de Santos, um dos mais relevantes portos do mundo em exportação de commodities. Em 2021, a plataforma deverá cobrir todos os portos brasileiros onde há embarques de milho, soja e óleos vegetais.

Se a plataforma for usada só pelas seis empresas, teremos falhado. Queremos que seja usada por todos os participantes do mercado exportador de commodities agrícolas. Estivemos no Brasil, identificamos quem são os exportadores de soja e milho fundamentais para participar desde o início e estamos conversando com as empresas e pedindo a opinião delas sobre as funcionalidades que a plataforma deve ter.

No lançamento, planejamos teremos a rede de exportadores e importadores e armadores. Estamos falando de empresas que exportaram 90% da carga de soja e milho de Santos em 2019. Na segunda fase, queremos incluir os usuários finais, os compradores (CIF/CIF), e fornecedores de serviços, como inspetores e agentes.

Lançamento em julho 2020

Estamos incluindo esses membros iniciais na plataforma e em maio devem fazer o treinamento. Seria presencial, mas agora planejamos fazer de forma virtual. O lançamento é planejado para o início de julho. Estamos avaliando o impacto do Covid-19, mas a ferramenta é muito intuitiva e amigável.

Fizemos testes nos últimos meses que mostraram não ser necessário gastar muito tempo com o treinamento. Se os usuários estiverem confortáveis em usar a plataforma depois do treinamento em maio, poderemos lançar na data prevista. Mas temos de ser empáticos. Há muito estresse na operação hoje porque ainda usamos papel, documentos são transportados fisicamente, até por avião.

Próximos portos brasileiros

São exportados cerca de 33 milhões de metros cúbicos de milho e grãos de soja por ano em Santos. Imaginamos um aumento gradual dos volumes que passarão pela plataforma conforme aumentar o número de empresas que aderiram a ela. Esperamos que a maioria desses produtos sejam incluídos nela.

Outros dos principais portos do Brasil que vão entrar na plataforma ao longo dos 6 meses seguintes ao lançamento serão Rio Grande, Salvador, Paranaguá, São Francisco do Sul e Santarém. Depois será a vez de outros portos, como São Luiz, Vitória e Santarém. Seria ineficiente usar em um porto e em outro não.

Embarques começarão com cargas de soja e milho.

Blockchain Quorum

A solução da Covantis é baseada na plataforma Quorum, feita com base na Ethereum e desenvolvida pelo banco J.P.Morgan para uso pelas instituições financeiras. Ela garante privacidade, alto desempenho e e uma das tecnologias mais maduras para implementação por empresas. Usamos o algoritmo de consenso IBFT (Tolerância a Falhas Bizantinas de Istambul). Estudos mostram que a plataforma pode superar 2 mil transações por segundo.

O que vamos lançar é muito mais amigável, funcional e com design melhor do que o que o nosso site mostra.

Os nós

Os participantes da rede podem ter um nó dedicado ou um compartilhado (multi-tenancy node), que é compartilhado com segurança. O nó gera custos com infraestrutura, suporte e manutenção. Precisamos encontrar o equilíbrio entre descentralização e aumento da adoção da plataforma. Com o nó compartilhado, fica mais fácil a entrada de usuários na rede, enquanto sacrificamos a descentralização num grau baixo. Isso permite que pessoas, empresas e instituições com menor familiaridade com blockchain tenham os benefícios que a tecnologia oferece e minimizem os custos para entrar na plataforma, permitindo que fiquem sozinhos quando estiverem prontos.

Do Brasil para o mundo

No inicio, o projeto era muito focado nos carregamentos para a China e o uso de IA para adicionar detalhes dos embarques. Mas isso seria muito limitador do ponto de vista da adoção da solução e levaria muito tempo para o desenvolvimento. Então, focamos em funcionalidades mais genéricas, independentemente do destino.  

Mas a intenção é expandir para outros portos de origem de carga. Em 2021, devem ser os portos dos Estados Unidos, pelo seu tamanho como exportador de commodities agrícolas. É um mercado mais simples que o Brasil e a solução será desenvolvida para isso. E depois continuaremos para outros portos, como Argentina e Uruguai.

Investimentos

Não divulgamos os investimentos. Blockchain é nova e imatura, é complexa para construir. Por isso, unimos seis investidores para permitir o investimento, que é muito maior do que que não usar blockchain. Não queremos aumentar custos dos membros e nem estamos fazendo isso para ter lucro. O custo de adesão permite cobrir os gastos de manter a Covantis, mas num nível mínimo.

Governança 

A Covantis tem um board de diretores que representam os 6 sócios e vai administrar a empresa. Nossa indústria é muito regulada e termos associações do setor, como a Anec, no Brasil. A plataforma não vai criar novas regras e padrões, mas facilitar o comércio.

Pandemia 

Situações como a pandemia vão facilitar a digitalização e otimização de processos. Blockchain e tecnologias digitais, em geral, são grandes ferramentas para oferecer maior segurança e proteção de dados, muito mais do que temos hoje, quando a informação é enviada por email, armazenada em computadores de funcionários da área de operação de embarques e enviadas em papel, que com frequência se perdem e geram custos e gasto de tempo.

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