Claudia Mancini
é jornalista e cientista política, especializada em negócios, blockchain e economia digital

Fechamento da XDEX é baque institucional para o segmento de criptos, diz mercado

Foto: Gerd Altamann. Pixabay.

O fechamento da XDEX, plataforma de compra e venda de criptomoedas, anunciado na terça-feira (31), é um baque institucional no mercado, segundo fontes ouvidas pelo Blocknews. Em termos de volume, sua representatividade era pequena.

Quando foi lançada, em outubro de 2018 pela XP Controle Participações e pelo private equity General Atlantic, que tem uma fatia da XP, dois atores do setor financeiro tradicional, o mercado entendeu que esses sócios de peso seriam uma chancela ao mundo das criptomoedas.

“A retirada da XDEX do mercado é um retrocesso no mercado”, disse ao Blocknews Courtney Guimarães, da BRQ Digital Solutions. Havia, segundo ele, muita esperança que a XP forte no mercado e pudesse guiar um pouco o adoção de criptoativos.

“Mas tem outro fator que é mais psicológico. A XP é uma das maiores marcas de investimentos de e ter seu nome associado a criptos seria quase um endosso ao mercado”, completou.

Além disso, o movimento poderia levar a alguma regulação do setor, tornando-o mais confiável aos olhos dos investidores e mais respeitado pelo setor tradicional.

Do ponto de vista do volume transacionado na plataforma, o impacto do fechamento será pequeno. Os números da XDEX não eram informados, mas o mercado estima que eram baixos. Há estimativas de que a plataforma representaria menos de 5% do mercado.

Porque parou

No comunicado do fechamento, a empresa alega que a “projeção do mercado, competição e os poucos avanços regulatórios diminuíram as oportunidades encontradas no início do projeto”.

A XDEX não deu nenhuma informação adicional sobre o fechamento, além do que está no comunicado. Mas questionada pelo Blocknews se havia tido algum problema com a Comissão de Valores Mobiliários (CVM), respondeu que não. A resposta veio por meio de sua assessoria de imprensa.

A falta de regulação é um ponto que fontes ouvidas pelo Blocknews afirmam que deve ter mesmo contado na decisão, visto que a XP vem do mercado tradicional e está acostumada a isso.

Um operador lembrou que após o IPO da XP, em dezembro passado, seu CEO e fundador, Guilherme Benchimol, disse que a empresa focaria no negócio e não abriria frentes paralelas. “Além disso, a equipe devia ser cara e a XDEX era um negócio complexo para a XP, mas pequeno”, completou.

“Eu torcia muito pela empresa porque tinha um grande potencial e era ligada à maior corretora tradicional do mercado. E se o mercado passasse a ser regulado, seria positivo porque os agentes autônomos indicariam a empresa”, disse Nicholas Gonçalves Sacchi, estrategista de criptomoedas da Empiricus.

Competição

Uma fonte disse ao Blocknews que para operar num mercado competitivo, “a XP teria que entrar pesado, do contrário, não faria muito sentido se manter operando”. Isso porque, além das bolsas em operação, outras planejam entrar aqui.

A XDEX não entregava criptomoedas ao cliente. Recebia e entregava a eles reais. “O produto dela era laboratorial, de exposição, um contrato indexado a um preço (de criptomoeda)”, disse Guimarães.

Segundo uma fonte, “era mais um negócio de arbitragem, e para isso, a XP não precisa de uma plataforma”, disse um operador.

É hora de sair?

O anúncio do fechamento pegou o mercado de surpresa. Um participante do setor disse ao Blocknews que imaginava alguma mudança após a saída do então CEO, Fernando Ulrich, há cinco meses.

Ulrich é um dos maiores promotores de criptomoedas do país. “Mas não imaginava o fechamento da operação, pensei que se manteria operando, mas de forma irrelevante”, completou essa fonte.

Uma das fontes entrevistas pelo Blocknews acha que este não é o momento de sair do mercado. “Há discussões bem aquecidas sobre stablecoins, uma provocação com as moedas fiat na condução da crise. Vai haver um hiper ou uma crise de moedas após a pandemia. Neste momento de ansiedade para entender como bitcoins e criptomoedas vão ficar, não é hora de sair. As exchanges qualificadas, por exemplo, fazem investimentos cada vez maiores.”

Para Sacchi, quem comprou criptomoeda a um valor maior do que o que vai receber agora da XDEX, fica no prejuízo, porém pode comprar moeda em outro local. “Mas isso é mais uma etapa de fricção para quem não tem experiência com o assunto”, completa.

Uma boa notícia é que vemos movimentações em outro sentido, afirma Guimarães. E dá como exemplo o Mercado Bitcoin, que “está capitalizado, tem governança sólida e quer atuar como banco”.

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