Claudia Mancini
é jornalista e cientista política, especializada em negócios, blockchain e economia digital

Parece que caminhamos para a maturidade em blockchain, diz Rischioto, da IBM

O mercado brasileiro para blockchain parece estar mudando desde meados do ano passado, com projetos mais sólidos, maior número de participantes e mais focados nas atividades centrais das empresas. “Parece que caminhamos para uma maturidade”, disse ao Blocknews Carlos Rischioto, líder técnico de blockchain da IBM.

A empresa é um dos nomes de maior destaque no ecossistema blockchain. É uma das fundadores da plataforma Hyperledger, usa a versão Fabric, à qual acrescenta uma camada de gestão, o que a empresa chama de IBM Blockchain Platform. Suas soluções incluem de projetos de rastreamento de alimentos, como a IBM Food Trust usada pelo Carrefour, à TradeLens, feita com a Maersk para transporte de contêineres, e projetos com a CIP (Câmara Interbancária de Pagamentos). Na entrevista a seguir, Rischioto fala das outras possibilidades de blockchain no Brasil.

BN: O que mudou no cenário brasileiro de blockchain nos últimos anos?

CR: Agora, começamos a ter projetos com testes de produção maiores. Até metade de 2019, ainda era muita experimentação, com testes, provas de conceito (PoC), mas pouca coisa para valer. Da metade do ano para cá, vemos os primeiros projetos indo para produção, um uso mais intensivo, com mais participates. O Brasil está mais ou menos um ano atrasado em relação ao exterior, mas há uma evolução do cenário. Se vê um momento até meio paradoxal. Parece ter havido uma diminuição do número de projetos, com a diminuição do hype sobre a tecnologia. Mas agora há projetos mais sólidos, com mais sentido, o que reflete a diminuição da curva do hype e o caminho para a estabilização. Parece que caminhamos par uma maturidade.

BN: Quais são os números de projetos na IBM?

CR: Divulgamos os números mundiais. Participamos de mais de 600 projetos em 2018 e 2019. Desses, a maioria ainda funciona em testes, PoCs ou evoluíram. No nosso ambiente de nuvem, onde hospedamos blockchain, temos um pouco mais de 1.100 redes ativas, que têm mais de dois participantes transacionando com certa frequência. Dessas, cerca de 50% foram projetos que a IBM desenvolveu e a outra metade foi desenvolvida por nossos parceiros ou pelo próprio cliente. No Brasil, dentre os projetos temos o da CIP, que deve se expandir, o da Tecban e os da GrowthTech, que faz soluções para serviços cartorários. Temos projetos para serem lançados, mas só podemos divulgar com a autorização dos clientes.

BN: Qual a representatividade do Brasil em blockchain na IBM?

CR:   O Brasil é expressivo em número de iniciativas. Apesar do timing do mercado, estamos evoluindo com o interesse dos clientes. É um mercado visto pela IBM como um foco, porque é referência em diversas áreas, como a financeira e em outras em que blockchain fazem sentido.

BN: Com que cenário vocês trabalham para 2020?

CR: Vamos ter projetos de maior volume, com maior impacto nos clientes. TEu brinco que todo mundo faz uma prova de conceito para reservar uma sala de reunião, que não tem impacto na empresa. Mas vamos ver protótipos em processos core das empresa, atrelados a atividades fim, com maior impacto, mais participantes, 10, 15 membros. Vai ter uma velocidade um pouco menor do que os últimos dois anos em compra de projetos, mas projetos com mais impactos e mais maduros. blockchain vai encontrar seu espaço e trazendo resultado para as empresas.

BN: Energia é um mercado promissor para a IBM no Brasil?

CR: Temos vários projetos em energia na Europa, em especial na Holanda em energia limpa, renovável, e que estamos tentando trazer para o Brasil. Temos projetos avançados nessa área e no ano passado houve o 1º Fórum Brasileiro Blockchain em Energia (em novembro, em São Paulo), porque o mercado começa a mudar. Há uma ligação muito forte com energia renovável, sustentável. Temos iniciativas no Brasil, alguns fazendo pilotos, criando laboratórios par testes. Mas a velocidade nessa área depende de regulação. É difícil criar coisas novas porque depende da área regulatória e há uma certa instabilidade regulatória, com uma série de projetos de tramitando no Congresso, em especial ligados às energias renováveis e aos micro geradores, como a pessoa gerar em casa e compartilhar na rede. Ainda tem coisas acontecendo. É uma área que tem uma interação muito grande com blockchain, onde há possibilidade de muitos microgeradores, com uma rede grande de geradores. Mas isso ainda não foi muito explorada no Brasil.  Hoje o mercado livre é apenas para grandes consumidores. 

BN: Para serviços financeiros, área em que vocês atuam, há fornecedores exclusivos para esse setor. Como vocês tentam se diferenciar?

CR: Há plataformas feitas com foco no mercado financeiro. A IBM é fundadora do Hyperledger, que tem uma visão de ser uma solução para as várias indústrias. Foi concebida para ser customizada para qualquer indústria e por isso consegue ser bem utilizada na área financeira e outras como a de rastreamento, serviços médicos, energia. Nasceu para ser uma plataforma agnóstica de indústria. Nosso principal foco é customizar e resolver qualquer tipo de problema, entregando privacidade, performance e uma plataforma de fato aberta, tanto no código quanto na governança. A IBM não é dona da Hyperpleder, mas dá palpite no desenvolvimento. Não podemos mudar algo da noite para o dia. E está tudo disponível na Fundação Linux. Temos uma série de diferenciais na nossa plataforma,  facilidades, sistema mais simples, mais rápidos, a camada de suporte, o cliente pode montar a estrutura como precisar. Quando se fala de blockchain, é preciso uma governança aberta e de acesso aberto, isso é muito importante.

BN: ROI ainda é um problema?

CR: Sim, esse ainda é o maior desafio, provar o retorno, porque muitas vezes vocês não se tem as métricas do projeto bem determinadas porque não se capturava dados antes. Mas está melhorando. A IBM tem uma metodologia que ajuda a calcular o retorno. Mas um grande desafio ainda para as redes é também o modelo de governança, se definindo quem vai fazer o que, quem vai coordenar, que entra, quem sai, modelo de custeio e de incentivos econômicos, que vou ganhar com isso…

BN: Existe um número mágico para ROI em blockchain?

CR: Não tem. Tem projetos em que o ROI (retorno sobre investimento) não é o financeiro, como o Walmart, que rastreia com a preocupação com segurança alimentar, que lá na frente pode evitar processos. Isso é muito complexo. A Tecban, por exemplo, reduziu o custo de gestão de numerário. Às vezes o ganho é de imagem. Por exemplo, um banco reduziu o tempo de revisão de dados de clientes, o que muda a satisfação de clientes, além do giro de negócios. Não está exatamente sempre em reduzir custo e aumentar receita.

BN: Blockchain vai superar o desafio das transações por minuto, que impede o seu uso por diversas indústrias?

CR: Esse é um desafio para redes públicas (não-permissionadas), em que a performance de velocidade e capacidade são um desafio, como transações por segundo na rede bitcoin. Nesse caso, a capacidade de validação das operações (por segundo) é baixa. Numa rede permissionada (fechada), criamos a rede conforme a capacidade do negócio. Para rastreamento de alimento, por exemplo, com empresas sendo um nó, esse problema não existe, porque a rede permissionada tem outros mecanismos de validação, em que se consegue uma resposta melhor. Temos projetos com blockchain permissionado com cerca de 6 mil transações por segundo. Isso é o mesmo nível de validações para grandes volumes de cartões de crédito. E temos outras projetos em piloto de laboratório, controlado, com mais de 20 mil, um projeto da Universidade de Waterloo. Para o mundo do blockchain permissionado, numa rede com menos participantes, a performance não é um problema hoje, porque seus algoritmos são mais eficientes.

1 Comentários

  1. Excelente conteúdo.
    Fico intrigado com a infinidade de processos cotidianos, corriqueiros dentro das empresas, que podem utilizar o blockchain como ferramenta operacional de registro.
    Fico ainda mais intrigado com novos negócios no ramo de serviços de intermediação (inclusive financeira) que estão sendo criados e que, na essência, seria natural já nascerem lastreados no uso do blockchain.
    Por fim, ainda acredito que, se os registros contábeis, as apurações / recolhimentos tributários e celebração de contratos entre organizações, todos sendo registrados via blockchain, o nível de compliance com normas profissionais e legislação em tese atingem 100%. Neste momento, e em sendo possível, qual o novo papel a ser desempenhado pela função da auditoria? Reflexão…

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