Claudia Mancini
é jornalista e cientista política, especializada em negócios, blockchain e economia digital

R3 será mais agressiva no mercado brasileiro em 2020, diz Keiji Sakai

A R3, empresa de software blockchain, que foca em instituições financeiras como bancos e seguradoras com sua plataforma Corda, começa 2020 com o plano de ser mais agressiva. Na prática, isso significa colocar não apenas o time local, mas também o internacional para trabalhar com mais detalhamento no desenho de soluções para o mercado brasileiro e alguns dos países latino-americanos, disse ao Blocknews Keiji Sakai, country head da empresa na região.

Sakai, que já passou por diversas instituições financeiras, resolveu mudar o curso da sua carreira depois que tirou um sabático, foi estudar fora (na Singularity University) e conheceu a tecnologia blockchain. Na entrevista a seguir, o executivo, de fala mansa, conta que agora a R3 foca nas áreas de negócios das empresas, e não de tecnologia.

BN: Qual era o cenário de blockchain quando a R3 se instalou aqui?

KS: O escritório foi instalado no final de 2017 e eu entrei na R3 em 2018, um ano que ainda era de estudo e desenvolvimento do mercado. O conhecimento não era tão amplo e choviam eventos em blockchain. Era uma fase de evangelização, principalmente de bancos, independentemente de plataformas. Isso porque se via que os bancos poderiam se beneficiar de blockchain e estavam à frente no uso da tecnologia. A Febraban (Federação Brasileira de Bancos), por exemplo, já estava estudando o assunto.

A R3 começou a ter seus primeiros casos concretos em 2017 e em 2018 começaram a aparecer mais lá fora. No Brasil, nessa época, começaram a surgir mais soluções B2C em blockchain. Em B2B havia provas de conceito (PoCs) dos grandes bancos que até chegaram a virar pilotos, mas não tivemos grandes lançamentos em 2018.

BN: E o que mudou desde então?

KS: Em 2019, comecei achando que blockchain ia estourar no país e no mundo. Estourou no mundo, mas no Brasil a adoção ainda está um pouco lenta, principalmente em comparação com Ásia e Europa. Estamos um ano atrás deles em termos da discussão com as áreas de negócios para identificar os benefícios da tecnologia. A gente deveria esquecer a blockchain e pensar em como resolver problemas que não foram resolvidos. A tecnologia é um meio para isso e estamos olhando como um fim. A coisa tem que ser mais natural, o problema tem que se encaixar numa oportunidade de usar blockchain. Lá fora isso está mais maduro, com a discussão focada no que vamos resolver.

BN: Na prática, o que isso significa?

KS: Nossa tática é falar mais com a área de negócio do que com a de tecnologia. No começo era com o time de tecnologia, porque era quem conhecia o assunto e tentava empurrar os projetos dentro das organizações. Mas hoje há mais conhecimento das áreas de produtos, do benefício da adoção de blockchain e de como utilizá-la. Tem muita gente de produtos que foi fazer cursos, inclusive como pessoa física, para tentar entender o assunto, principalmente no mercado financeiro. Há um ano eu diria que o conhecimento dessa área era nota de 1 a 2, numa escala de 1 a 10. Hoje é nota de 4 a 6. É uma indústria mais madura. O setor de seguros também está amadurecendo. Em algumas outras indústrias, a discussão é bem incipiente, porque para as áreas de negócios, ainda não é tão óbvio enxergar os benefícios.

BN:Qual é o cenário em seguros no Brasil?

KS: Muitas seguradoras estão amadurecendo. No mundo inteiro há projetos e consórcios que surgiram para discutir projetos em blockchain, como na Índia, Itália e o B3i (consórcio no qual o IRB Brasil Re está).

BN: Qual sua expectativa para 2020?

KS: Este ano, estamos mais agressivos. Aqui (São Paulo) é o quarto escritório global (os anteriores em cronologia foram Nova York, Londres, Singapura e depois do Brasil, abriu-se um em Hong Kong). A R3 é uma empresa global de cerca de 300 funcionários, no Brasil somos 5, porque somos uma representação comercial, mas a empresa é uma startup. Então, conseguimos navegar nela e discutir cada oportunidade que aparece com todos os executivos sêniores. Com isso, submeti uma proposta de ser bastante agressivo no Brasil, apoiando potenciais projetos que estão nascendo e eventualmente colocando gente nossa para ajudar a desenhar, a estruturar a solução, e consegui esse apoio. Com apoio do time global, alocando pessoas do mundo todo, posso fazer isso.

Quanto aos projetos, há casos para serem anunciados neste ano.

BN: Essa tática de maior agressividade é para a América Latina toda?

KS: O Brasil está um ano atrás do resto do mundo, mas o resto da América Latina está um pouco mais atrás ainda no entendimento de blockchain e no conhecimento geral da plataforma Corda . Há alguns locais onde há um pouco mais de maturidade, como México, Colômbia, Chile e Peru. Nesses 4 mercados já devemos realizar negócios. Precisamos fazer um trabalho de evangelização na região, onde estamos trabalhando desde o final de 2018, porque temos clientes que eram membros do consórcio R3. Em 2019, nossa dedicação já foi bem maior nesses mercados.

BN: Como vai o negócio R3 no Brasil e na região?

KS: Meu planejamento é em receita. Não abrimos isso ainda, mas em algum momento podemos falar porque no futuro a empresa pode abrir capital. Há projetos para serem anunciados neste ano. Até 2019, não tínhamos tanto casos de uso, o ano de fato é 2020. Um dos cases de uso é o da B3, que fez uma simulação completa da implementação dentro do próprio data center. A grande maioria utiliza ambientes na nuvem. Estruturas de mercado financeiro geralmente preferem, para dados críticos, utilizar seu próprio ambiente. Para dados não críticos, concordam em utilizar cloud. No Lift (Laboratório de Inovações Financeiras e Tecnológicas , da Fenasbac, a da associação dos servidores do Banco Central e do banco) há 3 desenvolvidos em Corda. Apoiamos também o projeto do Banco Maré, um banco social, no qual a Multiledgers faz as implementações de soluções na plataforma R3.

BN: O que diferencia a plataforma Corda?

KS: Tínhamos desenvolvido solução para os bancos e reguladores usando outra tecnologia, mas não atendia alguns requisitos, principalmente o de privacidade. Todas as tecnologias partem do princípio de que a informação é compartilhada com todos. Isso gera um risco de segurança da informação, de confidencialidade e até em relação à LGPD (a lei de privacidade de dados do Brasil). Os bancos disseram que não conseguiam usar a tecnologia porque uma das coisas fundamentais para eles é a privacidade, não permitir que o ledger de um seja distribuído para todos. E aí o consórcio* decidiu criar uma plataforma que endereçasse esse e outros problemas levantados. Existiam mais de 100 bancos e reguladores no consórcio, indicando quais os requisitos fundamentais para que uma tecnologia blockchain fosse utilizada pelo mercado financeiro.

Corda é a terceira geração de blockchain. A primeira foi a de bitcoin, a segunda foi de processamento de smart contracts e de redes permissionadas (fechadas) e a terceira criou a privacidade e interoperabilidade entre as redes. Corda foi construída para atender a privacidade da informação e só distribui o dado para quem está autorizado a vê-lo. Se é um contrato entre 5, só os cinco veem.

BN: E qual é a vantagem?

KS: Você tem uma rede gigantesca e pode operar com todos, pode ter o que for comum a todos, mas quando faz transação com um ou mais entes, os outros nem sabem que ela foi executada.  Essa solução é eficiente porque mantém todos sincronizados, todos com a mesma versão mais recente (do software), todos com cópias iguais e não se consegue deletar ou alterar dados. Mesmo uma operação entre duas entidades traz muitos benefícios. Se for feita uma operação por telefone, por exemplo, uma parte digita o acordado de um lado e a sua contraparte do outro digita com um zero a mais ou a menos e isso pode gerar contestação. O custo dela é altíssimo, até descobrir onde está a diferença, ouvir a gravação…, isso leva tempo, dinheiro e pode gerar disputa de questões legais e regulatórias. Além disso, blockchain elimina processos intermediários. Um dos casos mais bem sucedidos de blockchain é em trade finance (comércio exterior) porque a troca de documentos é tão grande que demora de 5 a 10 dias para concretizar a formalização e um caso usando uma plataforma blockchain conseguiu resolver isso em algumas horas. Você reduz de até 10 dias a algumas horas. Em seguros isso faz muito sentido. Tudo o que tem muito trabalho, muito controle de papel, de documentação indo de um lado para outro, atualização de dados, validação, vai e volta, por correio e email, começa a se resolver com uma tecnologia que todo mundo tem a última versão e as informações são compartilhadas.

BN: Usar blockchain é buscar eficiência e redução de custos…

KS: O que a gente promove é eficiência, a redução de custo é consequência. Tem muita ineficiência em todo o mercado, porque têm muitos processos desenhados na década de 90, por exemplo. Têm coisas que pararam no tempo porque não doíam e as tecnologias disponíveis não traziam soluções eficientes. Mas, hoje o volume transacional aumentou muito e aquilo que não doía, começa a doer. Além disso, a tecnologia está cada vez mais barata. Não digo que blockchain é barata, mas a tecnologia em si é mais barata, como storage, servidor, processador… Ficou mais acessível, então certas coisas que ficaram esquecidas porque não atrapalhavam, hoje poderiam ser mais eficientes. Blockchain traz isso à tona a partir do momento em que começamos a provocar essa discussão: por que preciso disso? Como fazer  em maneira segura? Como manter a integridade das informações?

*A R3 nasceu como um consórcio global de bancos e outras participantes do sistema financeiro, como reguladores. Mais tarde tornou-se uma empresa, com alguns desses participantes se tornando-se sócios. Bradesco, Itaú e B3 estão entre os sócios.

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