Claudia Mancini
é jornalista e cientista política, especializada em negócios, blockchain e economia digital

Setor de energia do Brasil patina no uso de blockchain

O setor de energia brasileiro ainda precisa descobrir a blockchain. A tecnologia pode dar mais eficiência não apenas à cadeia de produção energética, mas também a processos internos das concessionárias. “Ficamos mais de um ano pesquisando as empresas que estavam envolvidas em blockchain no Brasil e são raríssimas as que usam a tecnologia”, disse ao Blocknews João Carvalho, CEO da Mentors Energy, consultoria na área de gestão de ativos em energia e organizador do 1º Fórum Brasileiro Blockchain Energia, que aconteceu em São Paulo, em novembro passado.

No exterior há projetos em todos os cantos e a startup brasileira Fohat está desenvolvendo um na Austrália.

 A EDP foi a primeira do setor a usar blockchain no país. O projeto tem foco em medição e registro do consumo de energia solar. Na sequência, fez um acordo com a Accenture para a criação do Smart Energy Lab, que vai desenvolver soluções e um dos focos é blockchain.

A AES Tietê anunciou em 2019 um investimento de R$ 3,4 milhões para usar blockchain no primeiro balcão organizado no Brasil para comercialização de energia elétrica. A Petrobras também tem dois projetos anunciados, um referente a pagamentos de clientes, com o Banco do Brasil, e outro para assinaturas de relatórios internos, em conjunto com a Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio).

Na entrevista a seguir, Carvalho fala sobre o cenário de blockchain no setor de energia.

BN: Qual o panorama do uso de blockchain no setor de energia brasileiro?

JC: Há algum tempo percebi que não se falava praticamente nada da tecnologia no mercado de energia, inclusive no de óleo e gás. Em 2018, organizamos evento bem pequeno para discutir o assunto num grupo com algumas pessoas do setor, e no ano passado fizemos algo mais encorpado. Achei que seria interessante o momento para iniciar uma provocação do setor para acordá-lo para o assunto. O 1º Fórum Brasileiro Blockchain em Energia durou dois dias e teve a participação de 100 pessoas, inclusive de 4 palestrantes internacionais de empresas da Europa e América do Norte.

BN: Quais usos de blockchain em energia você destacaria?

JC: Sendo bem generalista, é possível usar em todo o setor. Quando falamos em geração, estamos falando de vários tipos, como hídrica, solar, eólica e biomassa, e cada uma tem sua particularidade. Na área de transmissão, trata-se de conectar as unidades geradoras e transmitir para o pátio de distribuição e daí para os consumidores, então pode haver um número menor de aplicações. Quando se entra em distribuição, estamos falando de smart grid (rede elétrica de inteligência), de a energia chegar nas subestações, em sistemas inteligentes de medição de energia, por exemplo. Há vários processos nessa fase.  Mas acho que o setor onde pode haver um pouco mais de interesse é o de comercialização, podendo ser criado um modelo mais justo na composição de valores de forma descentralizada, o que ajudaria a melhorar a volatilidade dos preços. Uma solução seria a implantação de um modelo padrão para todo o mercado buscando maior segurança e transparência nas transações, trazendo um pouco mais de calma e preços um pouco mais justos. É um pouco difícil fazer isso, mas dá para fazer, envolvendo agentes como as concessionárias, câmara de comercialização e Aneel, visando um modelo mais moderno e inteligente.

BN: Quais são os principais projetos em energia que você nominaria no Brasil?

JC: Ficamos mais de um ano pesquisando as empresas envolvidas em blockchain no Brasil e são raríssimas as que usam a tecnologia. Garimpamos muito, prospectando diariamente quais poderiam falar no fórum. O que mais destaco é o caso da EDP, que está muito à frente das outras empresas de energia. Foi a primeira a adotar blockchain no Brasil. A Petrobras também está utilizando em dois projetos e a AES Tietê, com a Fohat, tem um projeto de comercialização.

BN: Fala-se em consumo de energia excessivo em mineração de criptomoedas, porque os computadores ficam ligados horas nesse processo. Há algum tipo de consumo excessivo quando a blockchain é usada no mundo corporativo?

JC: A forma como foi estruturada a mineração de criptomoedas exige o consumo de muita energia e não dá para fugir disso. Mas nas empresas não é assim. Blockchain vem para gerar facilidades para processos internos, administrativos, inclusive das concessionárias.

BN: Uma outra discussão no exterior sobre blockchain em energia é o comércio peer to peer (P2P). Qual sua opinião sobre isso?

JC: Esse é um conceito que está sendo muito bem-vindo dentro de um modelo mais descentralizado. A Fohat apresentou no fórum um case que estão construindo na Austrália, com implantação de comercialização P2P. É preciso uma regulamentação muito forte para isso, mas é viável e acho que é o futuro da energia em todo o mundo. Acho que o Brasil pode utilizar esse tipo de tecnologia. O P2P tem ainda um efeito de sustentabilidade, porque o parque de geração, transmissão e distribuição de energia afetam muito o meio ambiente e é muito discutido nas concessionárias formas de diminuir o impacto ambiental.

BN: A cultura das empresas, em geral, é de silos. De que forma a blockchain pode mudar isso no setor energético?

JC: Visitamos muito clientes e quando vemos o ERP deles, vemos um grande ambiente de dados desconectados do sistema central. Vemos que há duplicação de dados em ambientes diferentes. Se implantarem blockchain com contratos inteligentes, sistemas inteligentes de gestão corporativa, integrarem os sistemas de ERP, colocarem os processos em uma grande rede blockchain com tudo registrado, autenticado, com registro de segurança que não pode ser mudado, isso vai gerar uma grande economia na própria administração da empresa.  Quando cada um fica no seu quadrado, as áreas não deixam ninguém colocar a mão do que é delas e não há integração. Recomendo a todas as empresas de energia que também deem destaque a isso, que os CEO’s e C-levels olhem blockchain para melhorar a administração de processos e a eficiência administrativa.

1 Comentários

  1. Caros Sr.
    Nos da AuroraStarChain estamos trabalhando em um projeto inédito apresentado no Forum citado acima incluindo IA, IOT e Pagamentos instantâneos. Como estamos no começo vale a pena conferir a qualidade dos participantes e agregar a este que sera sem duvida um divisor de águas. Varias empresas do exterior e de aqui estão de olho na nossa proposta. Grato Ricardo Baraldi CTO

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