Claudia Mancini
é jornalista e cientista política, especializada em negócios, blockchain e economia digital

Libra gera debate porque desafia sistema de pagamentos, afirma Disparte

Ontem (6), o Blockcnews noticiou a primeira parte de uma entrevista exclusiva com Dante Disparte, Vice-chairman e Head de Políticas e Comunicações da Associação Libra, em que o executivo falava dos caminhos nada fáceis para se lançar a stablecoin Libra. Hoje, publicamos outras informações dadas nessa entrevista e durante um painel sobre moedas digitais de bancos centrais ocorrido no Convergence – The Global Blockchain Congress, maior evento do mundo sobre a tecnologia, e que aconteceu na cidade espanhola de Málaga, em novembro passado.

A seguir, seguem trechos das principais declarações de Disparte nessas duas ocasiões.

Objetivo

Nosso único objetivo é fazer transações e pagamentos A Libra vai aumentar a velocidade do dinheiro, o que é uma mudança que os bancos centrais já sabem como acomodar por conta de décadas de melhorias na tecnologia de pagamento.

Nós não vamos emitir moeda, não poderemos controlar as taxas de juros e portanto, a definição de stablecoin (moeda estável) ou global stablecoin é efetivamente a de um ativo digital astreado por ativos estáveis. Ativos acessíveis nos países sem controle de capital (Libra terá lastro principalmente depósitos bancários e securities de curto prazo de governos, na proporção 1×1).

Nosso projeto não é necessariamente novo, o conceito de uma cesta de moeda é antigo, tem 50 anos, como a moeda do Fundo Monetário internacional (FMI). O conceito de uma associação de pagamentos tem uns 60, 70 anos. Então, por que a ira, o entusiasmo, as manchetes e as audiências públicas? Porque estamos desafiando muitos aspectos do sistema atual, em partícula os sistemas de pagamentos que deixaram milhões de pessoas para trás.

Moedas de bancos centrais

O projeto Libra acelerou a discussão sobre moedas digitais, inclusive de bancos centrais (CBDC, na sigla em inglês). Conversando com reguladores e formuladores de políticas centrais, vimos que a ideia de bancos centrais terem uma moeda nacional não é nova, mas ganhou nova vida.

Hoje os bancos centrais analisam as moedas digitais e olham principalmente para aplicações no atacado, tornando as relações entre os bancos mais eficientes. Mas não olham para a parte do varejo e de transações internacionais.

As CBDCs poderiam ser integradas à rede Libra.  Na nossa visão, como estamos desenhando nossa stablecoin, ela será a versão de varejo, um protótipo do que um dia poderia ser emitido diretamente pelos bancos centrais.

Se as CBDCs existirem, isso seria metade do meu trabalho feito e poderíamos nos concentrar na construção de uma rede blockchain de pagamentos que quebra os muros entre as pessoas. Quando as CBDCs existirem, teríamos uma rede interoperável.

Os reguladores estão preocupados porque muita gente perdeu dinheiro com ICO (levantamento de recursos para lançamento de ofertas iniciais de moedas digitais) e outras operações. Por isso, é preciso regular as atividades, não a tecnologia. Muitos países ocidentais levaram a tecnologia para a sombra e levaram offshores para os céus.

Regulação

É preciso uma harmonização de regulação e participamos muito ativamente e muito candidamente de conversações. A associação quer ser regulada. Cada vez que alguém diz que sofremos um terrível baque porque um regulador pede por altos padrões e escrutínios, nossa resposta é: isso está confirmando efetivamente nossa posição. Não há nenhum retrocesso nesses pedidos. Queremos ser um sistema de pagamento que esteja de acordo com o gerenciamento de risco financeiro.

Permitam-nos fazer as coisas de uma forma pública e privada, este é princípio que queremos trabalhar com os reguladores, formadores de políticas e ONGs. Levamos muito a sério a política monetária. As reservas da Libra estarão nas mãos de instituições financeiras bem reguladas. O que perdemos se o projeto não for bem-sucedido? Temos que perguntar onde as regulações não permitem inovação. Regulem as atividades, não regulem as tecnologias. Vemos o projeto como um sistema de pagamento, e menos como uma moeda digital ou estavél.

Inclusão

Estamos inovando. A internet não foi tão inclusiva em finanças e pagamentos. As redes financeiras se parecem com as empresas de telecomunicação pré-internet: não se falam. Não houve evolução na parte central da transmissão do pagamento nos últimos 50 anos, embora tenha havido inovações em pagamentos nas pontas.

Há 1,7 bilhão de pessoas sem conta em banco, mas 1 bilhão com conexão à internet pelo celular, um aparelho que permite transferências bancárias. Além disso, o custo de enviar dinheiro, mesmo em quantias pequenas, é caro para essas pessoas. O projeto da Libra é uma oportunidade, não um isolamento, para resolver esse problema.

O protocolo aberto para pagamentos reduz barreiras de entrada e dá poder aos consumidores. Isso quebra silos e promove a competição e permite inovação nos serviços financeiros. A Calibra, carteira digital da Libra, deverá ser apenas uma das que vão existir e os consumidores poderão enviar dinheiro entre carteiras concorrentes.  “Vamos mudar o script, virar a narrativa de cabeça para baixo e começar a tornar esses 1,7 bilhão de pessoas em futuros consumidores.  

Associação

Se você for rápido, vá sozinho, se for longe, vá em companhia. A associação começa a tomar corpo. Quando o projeto estiver pronto, queremos ter 100 organizações. O padrão é aberto, então haverá uma variedade de pagamentos pela internet, como cada ator da rede (que é fechada) sendo responsável seu desenvolvimento na plataforma e construir soluções.

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