Claudia Mancini
é jornalista e cientista política, especializada em negócios, blockchain e economia digital

2020 é meta ambiciosa para a moeda, diz executivo do projeto Libra

Vai ter Libra em 2020? A previsão de lançamento da stablecoin ainda neste ano, feita no lançamento do projeto em junho passado, parece hoje mais dúvida do que certeza. Em entrevista exclusiva ao Blocknews, Dante Disparte, Vice-chairman e Head de Políticas e Comunicações da Associação Libra, afirmou que ainda não é possível prever quando a moeda estará disponível no mercado. “2020 é um objetivo ambicioso, certamente. Temos muito trabalho para fazer com os reguladores, no aspecto político do projeto”, afirmou o executivo numa conversa com um veículo de imprensa brasileiro pela primeira vez.

Questionado se sua afirmação seria uma mudança de planos do projeto em blockchain mais comentado de 2019, Disparte respondeu: “Pode ser”. E afirmou que o white paper de lançamento da moeda fala sobre uma visão ambiciosa, que tem certos aspectos que não são operacionais. “De junho a hoje continuamos a conversar com reguladores, formuladores de políticas e outros interessados e o processo regulatório é o mais importante de tudo. Mas é possível que no final de 2020 tenhamos licenças para operar”. Assim como Disparte, o CEO do Facebook, Mark Zuckerberg, também deu recentemente uma declaração que não confirma e nem nega os planos futuros de lançamento da moeda que vai usar a tecnologia blockchain.

A entrada no mercado da Libra, que ficou conhecida como “a moeda do Facebook”, causou um alvoroço tão grande que acabou dificultando as coisas. Críticas sobre o risco de as empresas da Associação Libra passarem a controlar dados e mexerem no sistema financeiro atual levou a uma forte reação de reguladores e políticos. Tanto que do grupo inicial de 28 empresas que formariam a associação, sobraram 21, com a saída de gente de peso, como Visa, Mastercard, eBay, PayPal e Booking.   

A associação tem uma série de tarefas na parte regulatória e na formação da infraestrutura do projeto, o que deve ser um dos focos neste ano. Depois da reação nada receptiva de reguladores e formuladores de políticas, é nas conversas com essas pessoas que a associação está se concentrando nos últimos meses e deve continuar a fazer em 2020. “Para este projeto funcionar, você não pode pedir desculpas, você tem que pedir permissão”, disse Disparte.

 Se falou com algum regulador ou formulador de política no Brasil, Disparte não responde. Diz que não abre com quem fala em lugar nenhum. E completou: “temos nos reunido com pessoas em todo o mundo e esse é um processo contínuo”.

Disparte repete como um mantra, em qualquer lugar em que esteja, que a instituição é a favor de regulação e que sem isso, o projeto não sai do papel. “Podemos controlar o aspecto operacional, o desenvolvimento da tecnologia e da associação. Mas a regulação é muito importante e não vamos lançar a Libra em nenhuma parte do mundo sem licença.” E repete isso com um auto-controle invejável quando é duramente pressionado por reguladores, como aconteceu num painel no Convergence – Global Blockchain Congress em Málaga, em novembro passado.

Outro foco de 2020 é aumentar o número de empresas na associação. “Temos que continuar a recrutar mais membros, queremos ter 100 antes do lançamento”, completou o executivo porto-riquenho que fala um português excelente, além de outras 5 línguas.

Fato é que a Libra é um projeto para lá de complexo. Construir a rede de blockchain Libra que vai usar a stablecoin tem vários passos, incluindo, na ponta dos consumidores, a criação de carteiras digitais. Sobre as carteiras, a expectativa do executivo é de que haverá diferentes soluções de carteiras digitais onde a Libra for utilizada, com as pessoas convertendo moedas fiat em libra ou recebendo pagamentos na stablecoin.  

“Olhando para trás, eu faria tudo de novo, apesar de estar sendo um caminho difícil. Mas é uma forma de estabelecer uma conversa e focar energia em questões importantes, como populações não-bancarizadas, custos altos de serviços financeiros básicos e falta de uma infraestrutura aberta que apoie a inovação e a competição”, afirmou o executivo. Esses são os aspectos que os representantes do projeto também citam como um mantra para explicar o benefício que a Libra pode trazer.  

Se o caminho é difícil, isso pode significar que Disparte ainda deve ficar um bom tempo nesse emprego. “Meu trabalho acaba quando tivermos licença a nível global para o projeto”, afirmou.

*Esta é a primeira parte de uma entrevista com Dante Disparte. O restante do material será publicado amanhã, dia 7”.

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