Claudia Mancini
é jornalista e cientista política, especializada em negócios, blockchain e economia digital

CVM e ITS Rio lançam estudo sobre DLT e blockchain

Um estudo da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e do Instituto de Tecnologia e Sociedade (ITS Rio) indica que há possibilidade de uso de DLT (Distributed Ledger Technology) em cadastros de clientes e identidade digital, de forma a dar aos investidores autonomia para gerenciar seus dados e gerenciar o que e quem poderia acessá-los.  Uma das estruturas possíveis em rede DLT é blockchain.

O estudo “Cadastro de Investidores: Desafios Operacionais, Inovações Tecnológicas e Proposta” poderá servir como referência para a implantação de ações relacionadas a “política conheça seu cliente” (know your customer, KYC), que sejam mais transparentes e reduzam custos.

A tendência de se usar DLT na coleta de dados gerou o interesse das instituições em realizar o estudo. Segundo os pesquisadores, é inevitável que os investidores terão a gestão do acesso a suas informações. Pelas estimativas das CVM, na indústria de intermediação de valores mobiliários, os custos relacionados a gestão cadastral são de R$ 4,3 milhões ao ano, enquanto os de gestão de suitability batem os R$ 3,8 milhões e os de monitoramento de pessoas expostas politicamente (PEPs) chegam a R$ 5 milhões anuais.

Por controle de seus dados, entende-se que o investidor poderia, por exemplo, acrescentar e eliminar suas próprias informações e indicar quem teria permissão para vê-los em bases de terceiros. No mundo ideal, investidores e instituições financeiras se conectariam numa rede que permitisse esses movimentos, com baixa possibilidade de alteração de históricos, uso de criptografia e segurança jurídica.

No entanto, CVM e ITS sabem que no mundo factível, é preciso pensar em modelos viáveis no curto prazo. O open banking do Brasil, por exemplo, poderia se conectar ao uso de blockchain nos mercados do mercado de valores mobiliários.

O estudo completo pode ser encontrado em http://www.cvm.gov.br/noticias/arquivos/2019/20191218-5.html

Twitter investe em mídia social descentralizada

Jack Dorsey, CEO do Twitter, anunciou hoje que a empresa está patrocinando um time de cinco arquitetos de código-fonte aberto, engenheiros e designers para o desenvolvimento de uma mídia social de padrão aberto e descentralizado.

A ideia é que o Twitter use esse sistema. “Queremos que esse time encontre um padrão descentralizado já existente para levar adiante ou, se não conseguir, que crie um. Esse é o único direcionamento que nós do Twitter vamos dar”, disse Dorsey.

Segundo o executivo, novas tecnologias emergiram para tornar a descentralização mais viável e a blockchain aponta para uma série de soluções para o armazenamento, governança e monetização aberta e durável.

Além de desenvolver um padrão descentralizado para as mídias sociais, o grupo deve construir uma comunidade aberta que vai incluir empresas, organizações, pesquisadores, sociedade civil e quem mais pensa sobre as consequências desse modelo.

ALGORITMOS PROPRIETÁRIOS

A previsão é a de que esse trabalho durará anos para chegar a um padrão que possa ser usável e escalável e que solucione diversos desafios.  O executivo justificou o investimento afirmando que soluções centralizadas têm dificuldades para resolver novos desafios.

Outra questão é que o valor das mídias sociais está de armazenamento e exclusão de conteúdo, para o direcionamento das pessoas por meio de algoritmos.

“Infelizmente, esses algoritmos são tipicamente proprietários e ninguém pode escolher ou desenvolver alternativas. Ainda”. Por fim, as mídias sociais, com frequência, geram atenção em conteúdos e conversas que envolvem controvérsia e raiva, ao contrário dos que informam e promovem a saúde.

“O Twitter era tão aberto no começo que muitos viram seu potencial para ser um padrão de internet descentralizada, como o SMTP (o protocolo usado para envio de e-mails). Por uma série de razões, que na época faziam sentido, tomamos um caminho diferente e aumentamos a centralização. Mas muito mudou nos últimos anos”, disse o CEO em sua conta no Twitter.  

Essa iniciativa, segundo Dorsey, vai permitir ao Twitter acessar e contribuir num grupo maior de conversas, focar os esforços em algoritmos de recomendação aberta, que devem levar a conversas mais saudáveis, e vai forçar a empresa a ser mais inovadora.

Deloitte terá laboratório de blockchain no Brasil

A Deloitte Brasil vai inaugurar em São Paulo, no início de 2020, um laboratório para desenvolvimento e provas de conceito de soluções que usam a tecnologia blockchain. Com isso, a cidade se junta à rede de laboratórios que começou a ser criada em 2017 e inclui Dublin (para EMEA), Nova York (Americas) e Hong Kong (Ásia). “Estamos montando um time multidisciplinar de 20 pessoas focadas em blockchain, com profissionais de áreas como jurídica, fiscal, programação e codificação”, afirma Raul Miyazaki, diretor de Serviços Financeiros da Deloitte.

No uso da blockchain, um time multidisciplinar é necessário porque se trata de uma tecnologia que abrange diversas áreas de uma empresa. Mas não só isso. Para habilitar algo novo que não tem regulação, cuidar muito bem da governança e de questões fiscais e jurídicas são necessárias para evitar que os projetos não avancem por estarem fora das regras existentes, completa o executivo.

Uma pesquisa qualitativa da Deloitte com altos executivos mostra interesse razoável do Brasil na tecnologia, mesmo que os profissionais não entendam sobre o assunto em profundidade. Dos 103 entrevistados brasileiros para a 2019 Global Blockchain Survey, 79% indicou que blockchain está entre as 5 prioridades estratégicas nos próximos 2 anos. Quando questionados sobre a possibilidade de investirem no uso em 12 meses, mais de 90% responde que há essa possibilidade, sendo que um terço fala em investir de US$ 500 mil a US$ 1 milhão.

Acontece que Blockchain gera ainda muitas dúvidas e receios, sendo uma tecnologia tão nova e que implementa uma mudança significativa na forma de empresas trabalharem com outras que fazem parte de seus negócios, como produtores, fornecedores, distribuidores, transportadores e agentes aduaneiros. Por conta disso, não surpreende que a pesquisa, tanto global, quanto no Brasil, mostre que a maior barreira de adoção seja o receio de que a adaptação e a integração dos sistemas interrompam os negócios – ou seja, mudar e haver panes.

A segunda barreira, também aqui e fora, é a insegurança, apesar de ser uma tecnologia que coloca no chinelo boa parte do que existe no mercado. “Mas como envolve compartilhamento de dados com terceiros, há receios sobre estratégias do negócio e outras questões, como adequação à Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), diz Miyazaki.

A terceira barreira é capacitação. Difícil encontrar profissionais especializados e as empresas estão treinamento seus funcionários, em geral com apoio de especialistas externos. Essa é uma observação clássica de quem está investindo em blockchain. A Superintendência de Seguros Privados (Susep), por exemplo, que está investindo num time poder para tomar decisões regulatórias e estudar a aplicação da tecnologia, também comentou, num evento recente de seguros, que pessoal capacitado é uma barreira a vencer.