Claudia Mancini
é jornalista e cientista política, especializada em negócios, blockchain e economia digital

Setor de seguros flerta com blockchain

A Superintendência de Seguros Privados (Susep) está fomentando um time interno de pesquisadores sobre o uso de blockchain, para tomar decisões regulatórias e estudar a aplicação da tecnologia pela própria autarquia. Por enquanto, a decisão é deixar o mercado se desenvolver e encontrar suas soluções. “Uma regulação agora pode sufocar o setor”, afirmou Leonardo José de Carvalho, Chefe do Departamento de TI e Comunicação da Susep, durante o 13º Insurance Service Meeting, promovido pela Confederação Nacional das Seguradoras (CNSeg), nesta quarta-feira (6), em São Paulo. 

Blockchain é uma tecnologia que permite gravar, compartilhar e rastrear informações, como transações financeiras, contratos, dados logísticos e origem de produtos, numa rede distribuída. Surgiu com a criptomoeda Bitcoin, mas as empresas perceberam seu valor e decidiram experimentar.

Entre as suas principais características estão o compartilhamento entre todos os participantes da rede ao mesmo tempo, o fato de os dados registrados serem imutáveis, evitando fraudes, e transparência. Por isso, pode ajudar a indústria de seguros a se tornar mais ágil e mais confiável, o que não é pouca coisa para quem enfrenta a concorrência de insurtechs e de atores de fora do mercado.

O contato com essa inovação ainda engatinha no Brasil. O setor de seguros está aquém do financeiro, que viu e ainda vê na blockchain uma ameaça, mas estudou onde poderia usá-la e está fazendo isso em diversas iniciativas. Porém, a questão não é simplesmente usar blockchain. “Não se pode buscar um problema para uma tecnologia”, disse Denise Ciavatta, diretora de TI da HDI Seguros. O importante é entender qual é a dor do cliente e a melhor tecnologia para acabar com essa dor. Blockchain serve para muita coisa, mas não para tudo.

Faltam profissionais

“A recomendação de quem já usa blockchain é começar com um projeto pequeno, explorar um processo para ser ver se ele encaixa no que a empresa precisa”, disse Lucas Aristides Mello, diretor de Inovação & Estratégia do IRB Brasil RE. É assim mesmo que a tecnologia está sendo usada pela maioria das empresas. Idealmente, essa tentativa deve desembocar uma grande rede de players.

Para inovar, a Susep reconhece que terá de enfrentar desafios como integrar uma nova tecnologia com o seu legado, conseguir a coexistência com soluções existentes e, no caso de blockchain, ter pessoal que entenda do assunto. Adotar a apólice eletrônica em blockchain, por exemplo, gera questões de governança.

A autarquia está repensando a arquitetura do Formulário de Informações Periódicas (FIP), que é cara e pesada, e entende que é preciso simplificar a comunicação com o mercado e as regulações, afirmou Carvalho. A Susep está conversando com a R3, consórcio global que desenvolve a plataforma open source Corda. Sendo um membro, poderá acessar as experiências que deram certo e às que deram errado.

IRB Brasil no B3i

O IRB Brasil Re se associou ao B3i, consórcio global de seguradoras que desenvolvem soluções em blockchain. Foi a primeira empresa da América Latina a se juntar ao grupo. Em janeiro de 2020, deve ser lançado o primeiro produto do consórcio, um resseguro de Excesso de Danos Catastróficos (Catastrophe Excess of Loss), que é um seguro complicado, envolvendo muitas empresas para se fechar um contrato, disse Mello.

A tecnologia de registro distribuída (DLT), como blockchain, permite que todos estejam conectados ao mesmo tempo, reduzindo, por exemplo, drasticamente o número de mensagens trocadas. Esse novo resseguro é global, mas no Brasil não tem mercado, porque se trata de questões como terremotos e tsunamis.

Para Mello, as empresas precisam levar em conta que o conceito de transação como conhecemos hoje vai desaparecer e os princípios de blockchain se encaixam nas dores dos clientes das seguradoras. Sua recomendação: a experiência do cliente de seguros não é boa por questões como custo e dificuldades na hora da contratação, por isso, as seguradoras devem fazer como empresas do GAFAM (Google, Apple, Facebook, Amazon e Microsoft), ou seja, ter o cliente como foco. “Fechei um seguro e me perguntaram se meu portão era manual ou elétrico. Isso em pleno 2019”, completou.

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