Claudia Mancini
é jornalista e cientista política, especializada em negócios, blockchain e economia digital

Libra ainda é o melhor projeto de stablecoin

A Libra é ainda o melhor projeto de stablecoin e as desistências de gigantes como PayPal, Visa, Mastercard e Booking não significam o fim dessa ideia, ao contrário, a partir de agora, o número de membros da empreitada pode aumentar. A afirmação é de Gustavo Cunha, economista e especialista em criptomoedas. Para ele, as discussões sobre a moeda criptografada de um grupo de empresas liderado pelo Facebook vão gerar modelos de negócios que podem se ajustar melhor ao que os reguladores querem. Com isso, novos membros podem substituir os 7 que deixaram a Associação Libra, que tinha quase 30 associados. Leia abaixo a visão do economista sobre o assunto:

CM: É coincidência que empresas do setor financeiro tenham deixado o projeto Libra?

GC: De forma alguma é uma coincidência. São essas empresas que sofrem mais pressão dos reguladores e que de certa forma têm mais a perder. Os reguladores acabam indo atrás delas. Há notícias de senadores americanos pedindo para Visa e Mastercard saírem por conta de risco de lavagem de dinheiro.

CM: Algumas empresas alegam que saíram por questão regulatória e outras que vão focar em seus sistemas de pagamentos. Haveria outro motivo? Receio de represália dos reguladores seria um deles?

GC: A questão regulatória, com o receio de represálias, é o que está pegando. De certa forma, já era esperado isso dados os primeiros efeitos do projeto. A forma como começaram a negociar não foi muito bem vista. O fato de o Facebook ser um dos líderes também não ajuda, dado o histórico dele. Mas acho que faz parte. Esse é um projeto que eu chamo de open innovation. Não tem nada definido e estão negociando muita coisa.

CM: A saída dessas empresas significa o fim do projeto Libra?

GC: Não, ainda tem muita gente grande nele e acho que esse projeto vai vingar. Pode haver um atraso. Já colocaram a preocupação de que talvez, até o final de 2020, não consigam implantar dado o tempo de negociação com os reguladores. Tudo isso aconteceu agora porque houve a reunião dos membros da Associação Libra (em 14/10) para definir alguns guidelines. Desistiram antes de assinarem o compromisso. Daqui para frente, toca-se o barco sem eles. O caso do PayPal, o primeiro a sair, acho o mais emblemático. Foi estranho pelo fato de David Marcus, o responsável pelo projeto no Facebook, ser ex-presidente da empresa. O PayPal tem iniciativas na Ásia, mais especificamente no mercado chinês, que talvez tenham conflito de interesse com a Libra. Não dá para ficar com um pé em cada barco e escolheram ir para projeto da China.

CM: O que vai acontecer agora com o projeto?

GC: É um projeto muito ambicioso, depende de muita gente, de muitos regulares e de forma alguma é algo linear. Isso faz com que seja difícil. Por conta da reunião da associação, deve ter atingido o piso de notícias ruins. Haveria uma lista de 1,5 mil empresas que se registraram para entrar na associação, que acha que por volta de 150 são factíveis de se tornarem membros. Isso faz com que possamos ter boas notícias, com alguma empresa grande entrando nas próximas semanas.

CM: Essas desistências têm impacto na confiança de outras stablecoins, que em geral são atreladas a moedas fiduciárias?

GC: A stablecoin veio para ficar. Já tem muitas no mercado e toda semana tem lançamento. Uma discussão que eu tinha já no ano passado era a de que se moveria da discussão de criptomoedas para blockchain, e neste ano, para security tokens (que representam valores mobiliários). Para security tokens é preciso um meio de negociação mundial, de uma forma de liquidar esse security, e a stablecoin é certamente o melhor para isso.

CM: Haverá algum efeito dessas saídas do projeto Libra na confiança e crescimento da tecnologia blockchain?

GC: Certamente não afetam a confiança na tecnologia. É uma tecnologia que veio para ficar e já tem muito desenvolvimento em curso. A questão da confiança é muito mais ligada aos reguladores em relação ao Facebook, à forma como a empresa atuou na negociação com eles.

CM: Há uma visão de que a Libra teria um aspecto geopolítico, porque seria uma moeda ocidental competindo com a oriental, talvez a moeda digital da China. Faz sentido?

GC: A briga entre Ocidente e Oriente é enorme. A China está desenvolvendo a passos largos a digitalização da sua moeda e isso vai ajudar muito nas negociações da Ásia. Todos falam que os meios de pagamentos chineses estão cerca de 5 anos à frente do Ocidente. A Libra talvez seja uma forma de recuperar terreno em relação a isso. Está enfrentando vários problemas do ponto de vista regulatório, mas pode ser um dos caminhos. Um ponto importante é que o fato de a Libra ser um projeto bastante ambicioso e ter trazido à tona essa discussão, por si só já é um negócio espetacular. Ainda acho que a Libra é o melhor projeto hoje e o que tem mais chance de sucesso e essas discussões vão trazer novos modelos de negócios que podem se ajustar melhor ao que os reguladores querem. Acho que o Ocidente tem essa ideia de não querer que os meios de pagamentos sejam controlados pelo Oriente, em especial pelos chineses.

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