Claudia Mancini
é jornalista e cientista política, especializada em negócios, blockchain e economia digital

Transação offline do real digital gera inclusão, dizem especialistas

Real digital não deve exigir aparelhos sofisticados. Foto: Eduardo Soares, Unsplash.

Uma das principais características de moedas digitais de banco central (CBDCs), como o real digital que está em estudo, deve ser a possibilidade de se fazer transações offline. Basicamente, isso significa permitir o que o papel-moeda permite hoje, ao não depender de internet. Assim, permitirá que todos os brasileiros consigam usá-la, ou seja, garantirá a inclusão financeira nessas operações.

Essa visão sobre o papel de inclusão das operações offline foi comum entre os participantes do terceiro webinar sobre o real digital que o Banco Central (BC) realizou nesta quinta-feira (9).

Por transações offline o BC se refere a pagamentos instantâneos e irrevogáveis em que tanto quem paga, quanto quem recebe, está offline. Isso porque podem, por exemplo, estar numa área remota ou no caso de queda de sinal.

Mas se refere também a casos em que o online não dá conta de uma alta taxa de transação. Por exemplo, no metrô em horário de pico, disse Ricardo Mourão, chefe de gabinete da Diretoria de Organização do Sistema Financeiro e Resolução do BC.

Real digital não poderia depender de internet e eletricidade

De acordo com Mourão, os desafios para se ter operações offline incluem aspectos tecnológicos, incluindo a questão de uso de um aparelho próprio para a CBDC, funcionalidades que se pretende dar à moeda e segurança.

“Se for introduzir uma CBDC como forma de pagamento, disser que isso é igual a dinheiro, mas se não estiver disponível (para todos), será um problema”, disse Harish Natarajan, especialista do Grupo de Desenvolvimento de Sistemas de Pagamentos do Banco Mundial (Bird). Do ponto de vista da inclusão, operações offline são necessárias, disse Tanja Hessdörfer, diretora de desenvolvimento de negócios em moedas digitais na G+D Currency Technology.

As CBDCs precisam estar disponíveis em qualquer cenário, sem precisarem de celulares sofisticados ou das melhores redes de internet, por uma questão de inclusão, afirmou Tanja. Sua empresa desenvolveu uma solução para CBDCs e trabalha em projetos como o da Tailândia e de Gana. Além disso, é finalista do Desafio Global CBDC do BC de Singapura, que é um dos mais ativos em estudar o tema.

E não é só ter operação offline porque não há internet. Nessa conta tem de entrar também transações quando não há eletricidade, disse o especialista do Banco Mundial (Bird). Segundo ele, na maioria dos casos as transações offline de CBDCs são uma característica adicional aos pagamentos online e não a dominante. Assim, muda-se para o offline se necessário. Nesse caso, pode ser também usado por quem quer privacidade em algumas transações, mesmo que dentre da regras de segurança.

Identidade digital deverá ser necessária para segurança

Está emergindo um modelo de duas camadas, com o Banco Central intermediando os processos, o online oferecendo mais segurança, e o offline operador por operadoras de carteiras. No design do offline é preciso ter resiliência em quatro níveis: um deles é se ha segurança do token ou identidade eletrônica da moeda digital, disse Michael Wagner, sócio da consultoria Oliver Wyman.

Outro ponto é que nem todo mundo vai ter acesso a celulares. O terceiro ponto é como fazer transações seguras e portanto, a criação de uma identidade nacional digital pode dar maior segurança. E finalmente, uma questão cultural, que é, por exemplo, poder verificar seu saldo se não houver eletricidade, completou Wagner.

O Banco Central fará sete webinars sobre o real digital. O anterior foi sobre segurança e privacidade.

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