Claudia Mancini
é jornalista e cientista política, especializada em negócios, blockchain e economia digital

Real digital: BC escolherá projetos para teste e conversa com Visa sobre solução offline de pagamentos

Real digital: testes em laboratório de inovação começam nos primeiros meses de 2022. Foto: Adriano Gadini, Pixabay.

O Banco Central (BC) vai fazer uma chamada, nas próximas semanas, para projetos que poderão participar dos testes do real digital. O objetivo é identificar quais são as soluções que atenderiam à demanda do projeto. Além disso, o BC está conversando com a Mastercard e a Visa e está interessado nas soluções de pagamento offline dessa última.

Foi o que disse nesta terça-feira (26) Fabio Araújo, da secretaria executiva do BC, durante audiência pública sobre o real digital na Câmara dos Deputados. Segundo Araújo, que coordena o projeto do real digital, continua a previsão de iniciar os testes num laboratório de inovação do banco no início de 2022. Portanto, deverá acontecer entre o final do primeiro trimestre e começo do segundo. A implantação do real digital se iniciaria em 2 a 3 anos.

A audiência foi uma solicitação da Comissão de Fiscalização Financeira e Controle (CFFC). Respondendo pergunta sobre a situação dos cartões de crédito com o real digital, Araújo disse que essa “é uma questão um pouco mais profunda” que a dos bancos.

“A gente tem conversado com Visa e Mastercard e vê nelas uma intenção de entrar nesse mercado (de moedas digitais de bancos centrais, CBDCs) e prover serviços de pagamentos para usar as plataformas que têm, adotar essas novas tecnologias e continuar oferecendo serviços para os países”, completou o representante do BC.

Real digital teria de incluir operação offline para ser inclusivo

Araújo lembrou que a moeda digital das Bahamas roda na infraestrutura da Mastercard. Além disso, lembrou que a Visa tem um laboratório de inovação com várias questões de CBDC em estudo. “Temos bastante interesse em soluções da Visa, em especial da solução que apresentou de pagamento offline.” Mas, afirmou, há outras soluções que podem também ser viáveis. Inclusive de startups internacionais.

Segundo ele, soluções offline ainda não estão maduras como as online. No entanto, especialistas apontam que o real digital só será inclusivo se permitir operações em locais e em aparelhos sem internet.

Em relação aos bancos, Araújo afirmou que poderão “prover serviços com base nas novas tecnologias que estão disponíveis de forma ainda embrionária em alguns ambientes”. E nos quais há inclusive fraudes, afirmou. “Queremos criar um ambiente seguro, regulado”.  

Nos últimos meses, o BC disse várias vezes que uma das intenções é inserir finanças descentralizadas (DeFi), que rodam em blockchain, no real digital. Além disso, não operam sob regulação.

“Bancos vão se adaptar bem”

Para Araújo, “os bancos vão se adaptar muito bem (ao real digital)”. Isso porque são muito rápidos para adotar tecnologias e fazer bom uso delas, completou. A Federação Brasileira de Bancos (Febraban) criou um grupo de trabalho para discutir o impacto e a resposta do setor ao real digital.

O fato de o Brasil começar o piloto do real digital em 2022 não significa que o país está atrasado, disse Ara´ujo. Ele defendeu que a maioria dos países, está resolvendo problemas de atacado e varejo do sistema financeiro que o Brasil já resolveu. Por exemplo, com o Pix.

Assim, está agora desenvolvendo tecnologia para ir além do que os sistemas atuais oferecem em pagamentos. “O próximo passo é um passo que nenhum país deu ainda. É o de ter uma plataforma de pagamentos inteligente”, afirmou. O BC olha, por exemplo, para os contratos inteligentes (smart contracts), que permitem ações como dinheiro programável.

Também participou da audiência pública Keiji Sakai, diretor no Brasil da R3, que desenvolveu o software Corda, de registro distribuído. De acordo com Sakai, a empresa acompanha os testes ou implmentação de moedas digitais de bancos centrais em locais como Canadá, Singapura, Tailândia, Suécia, França e União Europeia (UE).

Outro participante foi Eduardo Diniz, professor da Escola de Administração de Empresas da Fundação Getulio Vargas (FGV-SP).

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