Claudia Mancini
é jornalista e cientista política, especializada em negócios, blockchain e economia digital

Banco Central se encontra com representantes de empresas de criptomoedas

O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, se reuniu nesta segunda-feira (16), com representantes do mundo das criptomoedas. Estão confirmados no encontro Jeremy Allaire, CEO da Circle, Cliff Sobel, Michael Nicklas e Scott Sobel, o três sócios e co-fundadores da Valor Capital Group, além de Marcos Viriato, CEO da Parfin. Brian Brooks estava na lista, mas recentemente deixou o cargo de CEO da Binance.US.

A Valor investe em empresas de criptomoedas, por exemplo, a Coinbase e a Hashdex. As informações estão na agenda oficial do BC. A reunião aconteceu entre 11h00 e 12h00. Também participou do encontro Rafael Andrezo, chefe de gabinete de Campos Neto.

Procurado, o Banco Central afirmou ao Blocknews que não daria informações sobre a reunião com os representantes do segmento de criptomoedas. Participantes também evitaram comentar, por acordo de confidencialidade.

Conforme publicou o Blocknews, o BC está estudando sua moeda digital para que permita o uso de finanças descentralizadas (DeFis). Isso porque, para pagamentos, já há o Pix. Portanto, como disse Fábio Araújo, coordenador dos estudos, o real digital tem de ir além do que já existe hoje.

O banco está realizando uma série de webinars e está conversando com o mercado financeiro tradicional e o de criptomoedas sobre o assunto. O BC não confirma, mas o encontro de hoje deve ser sobre esse tema. O próximo será nesta quinta-feira (19) sobre privacidade de dados.

*Reportagem atualizada às 17h24.

Real digital: dia 19, BC discute privacidade com Facebook e Ministério da Justiça

O Banco Central (BC) vai realizar, na próxima quinta-feira (19), o segundo dos sete webinars sobre sua moeda digital (CBDC), o real digital. O tema será “Cidadania, Segurança de dados, sigilo e rastreabilidade”, ou seja, sobre pontos muitos levantados em discussões sobre o tema.

Vão participar da discussão Yana Dumaresq, Diretora de Políticas Públicas para a América Latina do Facebook, Silvia Amelia Fonseca de Oliveira, diretora de Recuperação de Ativos e Cooperação Jurídica Internacional do Ministério da Justiça e Segurança Pública. Além de Dora Kaufman, professora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUCSP).

Juliana Mozachi Sandri, Chefe de Gabinete do Diretor de Relacionamento Institucional e Cidadania do Banco Central, vai mediar o evento, que acontecerá às 12h e será transmitido pelo canal do BC no YouTube.

O Facebook é um dos responsáveis pela aceleração dos estudos dos bancos centrais sobre suas próprias moedas. Isso porque, há cerca de dois anos, anunciou que teria uma moeda digital global, então chamada de Libra, hoje Diem.

Além disso, já protagonizou casos sérios de invasão de privacidade de dados de seus usuários, como o caso Cambridge Analytics. E está sempre no grupo de empresas que recebem críticas sobre privacidade, uma vez que tem ainda o WhatsApp e o Instagram.

“A garantia dos direitos dos cidadãos é um ponto fundamental para preservar a confiança e permitir o bom funcionamento dos sistemas financeiros. Esse webinar pretende discutir qual a melhor forma implementar o real digital de modo a, de um lado, garantir os direitos à privacidade e à segurança de dados pessoais e, do outro, fomentar inovações e permitir a aderência a normas de prevenção de ilícitos”, diz a descrição do BC.

Real digital é necessário porque tudo terá representação digital

O primeiro webinar do BC sobre o real digital aconteceu em julho e o tema foi “Potenciais do real em formato digital”. Os outros cinco webinars acontecerão até novembro. Esse é um formato que a instituição criou para discutir publicamente a moeda digital. Assim, depois de anunciar e realizar estudos sobre a CBDC brasileira, é a primeira vez que as discussões são públicas.

Naquele evento, Fábio Araújo, coordenador dos trabalhos sobre o real digital no BC, disse que era preciso estudar a CBDC porque “a relação das pessoas com as coisas vai ser muito diferente da que a gente teve até hoje.” Portanto, tudo vai ter representação digital, disse ele. O que significa que se a moeda estiver fora desse ambiente, vai gerar ineficiência para as operações. Nós estamos nos preparando para o futuro.”

Samsung testa moeda digital da Coreia em blockchain nos celulares Galaxy

A Samsung decidiu participar do projeto piloto de moeda digital de banco central (CBDC) da Coreia do Sul que usa blockchain. O Banco da Coreia (BOK) começou o piloto no último dia 28 de julho. O que a fabricante de eletrônicos quer é testar a possibilidade de uso de sistemas baseados em blockchain em sua linha de celulares Galaxy.

O piloto conta com testes em blockchain uma vez que o gerenciamento é em conjunto com a Ground X, empresa de mensagens em blockchain do grupo Kakao. O grupo tem a maior plataforma de mensagens privadas por celular do país, uma espécie de Whatsapp.

Seu braço Ground X, que venceu a concorrência para fornecer a plataforma Klaytn para testes do won digital, diz trabalhar para ter uma solução escalável. Assim, quer atingir uma adoção em massa de seus serviços em blockchain.

De acordo com a informação publicada pelo jornal coreano The Korea Times, o projeto testa sistemas avançados de pagamentos e inclusão financeira. Um executivo disse ao jornal que os testes incluem transferências de recursos internos e entre países. Como o BOK quer testar os ajustes necessários para o sistema de pagamentos com uma CBDC, a Samsumg vai usar linha Galaxy para isso.

“Estamos verificando se é possível fazer pagamentos sem internet por celular com a moeda digital ou enviar CBDCs para outros celulares ou para se conectar com bancos”, disse um representante do banco.

Jamaica emite US$ 1,5 milhão em moedas digitais de BC

Já o Banco da Jamaica (BOJ) emitiu a primeira leva de sua CBDC nesta semana. O teste vai contar com 230 milhões de dólares jamaicanos (cerca de US$ 1,5 milhão) e segue até dezembro. O dinheiro vai para instituições de depósitos e serviços de pagamentos, segundo o Banco Central da Jamaica (BOJ).

O ministro de Finanças do país, Nigel Clarke, afirmou que até o final do ano fiscal acontecerão as mudanças regulatórias para acompanhar a CBDC. O próximo passo, depois da emissão, é conseguir a acesso amplo e aceitação da CBDC pelas pessoas, afirmou o presidente do BOJ, Richard Byles. Em breve, o país vai anunciar os ganhadores do concurso para escolha do nome, tagline, logo e imagem da CBDC.

Os usuários do dólar digital jamaicano vão guardar e trocar moedas por meio de uma conta numa carteira digital com acesso pelo celular. A fornecedora de tecnologia é a fintech irlandesa eCurrency Mint.

O país optou por um sistema de duas camadas para emissão e assim, ao não fazer a emissão diretamente, evita procedimentos de Know Your Customer (KYC)para verificar a identidade dos usuários, disse o banco.

No Caribe, Bahamas também tem um processo avançado de CBDC.


Ganho natural do real digital será na política monetária, diz professor do MIT em webinar do BC

O ganho natural das moedas digitais de bancos centrais (CBDCs), como o real digital, está na política monetária, podendo até melhorar essa política. Isso porque permitem, por exemplo, pagar juros sobre elas e ter moedas estáveis (stablecoins) lastreadas em CBDC. “A conclusão até agora é a de que dinheiro público e privado podem coexistir. Esperamos (haver) os dois. Ter só a moeda fiat (fiduciária) ou só a CBDC vai deixar brechas”.

A afirmação é do professor Robert Townsend, do Massachusetts Institute of Technology (MIT). E foi dada no primeiro webinar do Banco Central do Brasil (BC) sobre o real digital, que aconteceu nesta quinta-feira (29). Townsend, que está envolvido com o projeto do dólar digital e conversa com frequência como o BC sobre CBDC, também disse que não é necessário ter CBDC para se implementar contratos inteligentes, por exemplo.

Sua afirmação chamou a atenção do diretor de diretor de Organização do Sistema Financeiro e Resolução do BC, João Manoel Pinho de Mello, que mediou o evento.

“Quero garantir que temos essa distinção em mente. Poderíamos ter contratos em outras plataformas e construir sobre a CBDC uma plataforma fornecida pelo BC, mas isso não é necessariamente o caso. É por isso que a política monetária é o domínio natural da CBDC?”, perguntou a Townsend, que confirmou seu ponto. Aliás, o professor citou essa separação de contratos inteligentes e CBDCs mais de uma vez no webinar.

“Debate sobre real digital será longo”

Townsend chamou a atenção para o fato de tecnologias de registro distribuído (DLT) terem limitações de escala para uso com moedas digitais. Para tanto, seriam necessários ajustes nos códigos. E disse que uma opção seria uma plataforma aberta fornecida pelo BC com uma construção, sobre ela, feita setor privado. O papel do setor público, além de emitir a moeda, é definir regras, garantir a competição e prover infraestrutura para as finanças descentralizadas, completou.

O diretor do BC disse que o debate sobre o real digital tem um longo caminho pela frente. “Não tem modelo definido e precisa de coordenação internacional com eficiência e convivência melhor dos pagamentos transfronteiriços de hoje”, afirmou.

De acordo com ele, na questão dos riscos, é preciso reconhecer que há de se tomar cuidado nos desenhos e tecnologias para não desrespeitar a LGPD”. Além de se evitar corrida bancária ataques cibernéticos e substituição pela moeda de um país pelo outro. “Haverá no longo prazo uma migração significativa do papel moeda para o digital”, completou. Isso vai passar pela CBDC e pode ter aceleração pela pandemia. Mas, o projeto do real digital tem de ser gradual. “As soluções no sistema financeira nunca são simples.

Em relação à segurança das CBDCs, o diretor do BC afirmou que vê como positivo o fato de que a maioria dos brasileiros confiam em seus bancos para compartilhar dados no open banking. Afinal, o open banking é a fase anterior à do real digital. A Tecban e o Ipsos divulgaram nesta semana uma pesquisa sobre o assunto. De cada 10 pessoas bancarizadas, 7 confiam em seus bancos para compartilharem seus dados.

Ideal seria testar moeda em ações como Bolsa Família

De acordo com Eduardo Diniz, professor da Escola de Administração de Empresas de São Paulo (EAESP) da Fundação Getúlio Vargas (FGV), é preciso considerar que a lógica da estrutura atual que garante a confiança no sistema monetário continuará a mesmo com o real digital.

Assim, isso significa uma camada de articulação e governança (regras), validação (hoje é da Casa da Moeda e com a CBDC, será o código) e o terceiro é o da infraestrutura de “produção” da moeda.

Diniz sugeriu dois testes iniciais para o real digital: o primeiro deles é usar numa distribuição em massa e digital de recursos, como a do Bolsa Família. E outro em algum processo que tenha deficiências no que se refere a controle e transparência, ou seja, no combate a corrução. Isso, afirmou, pode ajudar na adoção em massa do real digital.

O diretor geral da R3 no Brasil, Keiji Sakai, adicionou que um terceiro teste poderia ser a tokenização. Lembrou que há projetos nesse sentido no LiftLab da Fenasbac e Banco Central. A tokenização pode contribuir para mais rapidez e redução de custo na liquidação de contratos.

Sakai tem defendido DLTs para esse fim porque permitem o chamado delivery x payment. Isso quer dizer que evitam, por exemplo, registrar uma transação no cartório só após o pagamento. No meio do caminho entre o pagamento e o cartório, uma das partes está correndo risco. E é por isso que surgem intermediários, o que eleva os custos e o tempo das operações. Instituições financeiras estão testando DLTs para isso no exterior.

O próximo webinar será em três semanas.

Goiás está em busca de empresa que avalie projetos de blockchain

O governo de Goiás abriu uma licitação para a contratação de uma empresa que faça a avalição técnica de até 2,6 mil projetos de inovação, incluindo de blockchain. Os temas somam mais de 20 soluções, dentre eles biotecnologia, inteligência artificial, internet das coisas (IoT), realidades aumentada e virtual e tecnologia social.

O pregão eletrônico (003/2021) será no próximo dia 30 de julho, às 9h00. Ganha o menor preço. O pregão blockchain está ligado à Fundação de Amparo a Pesquisa do Estado de Goiás e é parte do Projeto Centelha Goiás 02.

Assim, o objetivo é estimular a inovação no país. As ações incluem, por exemplo, treinamentos, aportes financeiros e apoio para viabilização dos projetos.

O Centelha é uma iniciativa promovida pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI) e pela Financiadora de Estudos e Projetos (Finep). Mas é feito com parceira com o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e o Conselho Nacional das Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa (Confap). Além da Fundação CERTI.

De acordo com o site do Centelha, o programa já recebeu mais de 15 mil projetos. Praticamente todos os estados do país participam do programa. E assim como instituições de pesquisa dos governo federal e estaduais, há empresas parceiras como AWS e Zendesk e também do Sebrae.

Real digital: “tudo vai ser digital. Estamos nos preparando para o futuro”, diz representante do BC

“A relação das pessoas com as coisas vai ser muito diferente da que a gente teve até hoje. Tudo vai ter representação digital. E quando tem tudo digitalizado, se a moeda estiver fora desse ambiente, vai gerar ineficiência para as operações. Nós estamos nos preparando para o futuro.” É assim que Fábio Araújo, coordenador dos trabalhos sobre o real digital no Banco Central (BC), descreveu o movimento que a instituição está fazendo.

Araújo participou do último Lift Talks da Federação Nacional de Associações dos Servidores do Banco Central (Fenasbac), nesta semana. O tema foi “Real Digital: os casos de uso da CBDC no Brasil e no mundo”. E na conversa, uma das afirmações mais repetidas é a de que a moeda digital abrirá tantas possibilidades de novos produtos, serviços e de maior eficiência, que hoje ainda nem é possível ver onde vai chegar.

Por isso é que comparar o dinheiro usado no Pix com uma CBDC equivale a comparar, nos primórdios da internet, a rede com a TV, o rádio ou com os primeiros grupos online de conversas. Rodrigoh Henriques, líder de inovação Fenasbac, lembrou que por trás de uma CBDC há questões como tokenização, contratos inteligentes, criptomoedas, dinheiro programável e finanças descentralizadas – ou seja, sem bancos.*

A seguir, a discussão sobre o que o real digital representa. Além de Araújo, participaram da conversa Gustavo Cunha, economista e fundador da plataforma de educação FinTrender, e Keiji Sakai, diretor geral da R3 no Brasil. Henriques mediou a conversa.

O que é o real digital

Araújo: Do ponto de vista do regulador, a moeda digital é a que se usa no dia-a-dia, mas que a pessoa nunca vai segurar na mão, vai estar num dispositvo.

Cunha: É algo que você negocia no campo digital. As figuras das notas estão em extinção, não vai mais ter lobo-guará. E é moeda do banco central, enquanto a grande maioria hoje é de bancos.

Sakai: É o terceiro formato do dinheiro emitido por um governo, por um banco central. Há o físico, o em conta corrente, em reserva, e o digital. É parecido com reserva em conta corrente. Mas será usado em negócios que hoje não pode ser usado.

Um futuro todo novo

Araújo: Estamos nos preparando para o futuro. Os sistemas que utilizamos são referências mundiais. A CBDC não vai resolver nenhum desses problemas que já resolvemos. Apesar de que alguns países estão usando CBDC para isso. O real digital é para fomentar a transformação digital da nossa sociedade tanto no dia-a-dia, quanto nos negócios. Tanto a geladeira que pode comprar o leite, como o carro que paga o estacionamento.

O banco ou a fintech vai, por exemplo, poder oferecer contrato de crédito personalizado, que é pago a cada dois meses, mas tem um mês que não é pago. Isso se for digitalizado com smart contracts, porque aí é coisa simples, é natural. Desde que avalie o crédito e ache que o fluxo de caixa da pessoa bate com aquilo que ela propõe, a empresa pode dar um crédito com essa diferença, o que reduz a ineficiência da economia.

Hoje, o mercado tem a prateleira dele com os produtos e você tem que se encaixar no que tem lá. Para ter algum grau de personalização do produto,  o produto fica muito caro e inviável.

Entregas x pagamentos na hora

Sakai: A CBDC é uma evolução de meios de pagamentos. O PIX é um grande leque de meios de pagamentos. A CBDC resolve vários problemas atuais, como o delivery x payments (DVP, em ativos como casa e títulos financeiros). Hoje, ou se recebe o ativo e paga depois, ou vice-versa, e alguém está com risco de crédito nisso.

Se conseguir fazer esse DVP do dinheiro de forma “atômica”, começa a eliminar ineficiências do mercado. Ineficiências são caras porque você acaba tendo intermediários para ter proteção, como bancos, clearings e corretora que fazem a liquidação e te dão as garantias para você não ser lesado num eventual calote. Nas transações transfronteiriças (câmbio), CBDCs podem facilitar bastante.

Cunha: Tudo vai ser digitalizado e nada é mais natural do que uma moeda digitalizada que trafegue nesse ambiente. Quando olho a CBDC, vejo que se abre um leque de possiblidades bastante grande. Mas precisa ter consulta pública para ver o que, desse leque, achamos que para nós, como sociedade, pode ser implementado.

CBDC x Pix

Araújo: O Pix parece uma moeda digital. De fato, se juntar com as instituições de pagamentos (IPs) que emitem moeda eletrônica, é basicamente um sistema de moeda sintética. É uma visão um pouco mais tradicional da CBDC. Mas, nesse caso haveria alguma dificuldade para implementar essas novas tecnologias, como smart contracts, conectar as redes de ativos tokenizados e ter DVP.

O Pix,com o sistema de IPs do Brasil, basicamente resolve os problemas que os outros países trabalham hoje para resolver com uma CBDC, que é quase uma CBDC sintética. Por isso, o real digital tem que ir além do que o Pix oferece. E tem que ter o passo intermediário, que é o open banking, que fará a informação financeira das pessoas fluir de maneira natural. Você vai criar um ecossistema de fintechs, por exemplo, que vai analisar esses dados e criar produtos financeiros mais adequados à necessidade de cada pessoa.

Vai ser tudo num ambiente digital. Vai ter ativos que já nascerão digitais. O real digital abre um leque de oportunidades muito grande. O foco do Brasil é no fomento a novos produtos no dia-a-dia das pessoas, novas maneira de liquidar operações automáticas entre máquinas. A pessoa não precisa entrar diretamente na operação, só dá a autorização a uma máquina para fazer a operação para ela. Isso num sistema aberto, sem precisar estar associado com o provedor de um arranjo de pagamentos e em depois em outro e outro. Isso hoje gera muita ineficiência.

Com CBDC, a pessoa faz todos os pagamentos sem ter acordo com ninguém. Você tira o intermediário. Você dá vários passos (além) da tecnologia atual, tirando os intermediários para garantir esses passos. O real digital faz a ligação direta entre o usuário e a liquidação do produto.

Euro digital é mais simples

Cunha : Se o real digital for mais simples, como está moldando a Europa, é muito parecido com o Pix. Mas a CBDC abre possibilidades de sabores muito diferentes e vamos ver o que desses sabores vamos querer implementar pensando em facilitar a vida. Se a gente tiver uma moeda digitalizada sem intermediários, facilita muito as coisas e muitos casos de uso que a gente nem imagina hoje vão surgir no decorrer do processo. E vão precisar dessa moeda para serem negociadas.

Quando a gente fala de papel moeda, não precisa controlar o meio. No digital tem outras preocupações sobre a rede. Ela tem que se comunicar com outras redes para trocar real digital por euro digital.  

Interoperabilidade entre moedas

Sakai: Isso já é uma discussão em andamento entre vários BCs. Na Ásia, há acordos de testes entre quatro países. Na Europa, o Banco da França e da Suíça também fizeram testes. Mas há duas interoperabilidades: uma é a de rede, porque o ente brasileiro não faz parte da rede da Europa, por exemplo. Na integração, vai precisar que ter algo que permita a troca atômica, onde de um lado você tem o regulador que faz o trâmite e a governança da rede local, e do outro lado, a mesma coisa. É uma discussão mais negocial do que técnica.

E tem integração técnica, de plataformas distintas, que também é um assunto em discussão. Há conversas da R3 com os concorrentes para garantir que o DVP aconteça de forma atômica nas redes para garantir que a operação seja executada. A gente está em fase bem embrionária nesse assunto. Só as Bahamas têm implementada a CBDC e talvez não seja tão relevante no comércio exterior para fazer experimentos de troca de moedas.

Risco de substituição de moeda

Araújo: O risco de substituição de moeda é um dos primeiros que foi mapeado quando se falou de CBDC, foi o primeiro que apareceu no nosso radar. A coordenação internacional é fundamental para suplantar esse risco e tenho visto nos fóruns internacionais que todos os países têm ciência disso. Acho que as conversas caminham muito bem, porque nenhum país tem intenção de interferir na politica monetária de outro. Não é interesse de um país emitir tanta moeda que será usada fora da sua jurisdição.

Uma substituição (de uma moeda por outra) seria como é hoje, ou seja, voluntária. Os países sabem que é mais difícil, porque como a digital não vê fronteira e não tem custo de carregar mala de dinheiro para transferir grande quantidade, tem que ter mecanismos para que fora da jurisdição, não circule. O risco é se os países não estivem dispostos a adotar esse mecanismo. Mas isso está suplantado.

O mais importante é a oportunidade de interoperabilidade dos sistemas. Há dificuldade de integração, mas todos estão discutindo o tema e poderá haver um sistema que leve a essa integração. Há dificuldade de interconexão tecnológica também, mas parece que todos os países estão bem alinhados.

Fuga para outra moeda

Cunha: O real digital vai ser igual ao do papel. O dólar em papel é mais caro porque é menos eficiente. Os sistemas mais eficientes, mais modernos e rápidos, tendem a ter spreads menores. Se uma das moedas tiver uma eficiência maior que as outras, pode haver uma migração para ela. Seria então a moeda do mundo e ditaria a política monetária mundial. Isso está sendo endereçado pelos bancos centrais na discussão que o BC está tendo.

Se pensarmos que um país terá uma moeda com casos de uso melhores que outras, vai possibilitar mais inovação e crescimento maior naquele país. Isso incita os BCs a olhar a questão para ou puxar a discussão, ou não ficar muito para trás.

Outro ponto é que a interoperabilidade é importante para fechar câmbio. Do Brasil para Portugal, isso leva dois dias e não é por conta de tecnologia, porque se manda em 15 segundos em criptomoedas. Mas no sistema tradicional, precisa ver como será feita essa transição de um sistema legado para um mais eficiente.

Araújo: Ter uma moeda tão mais avançada gera benefícios que fará as pessoas quererem trocar (suas moedas) por ela. Pode ser uma coisa num cenário real em algum período do tempo. Mas, o problema é que a autoridade monetária que emite a moeda não está levando em conta o ciclo econômico do seu país, mas o do pais dele. Por isso q os BC só vão emitir moeda para outro país se eles quiserem, mas tem que saber que ele não está acompanhando o ciclo econômico deles.

*Reportagem atualizada às 14h23, corrigindo o sobrenome do líder de inovação da Fenasbac, Rodrigoh Henriques.