Claudia Mancini
é jornalista e cientista política, especializada em negócios, blockchain e economia digital

Fintechs prosperam, mas também tropeçam: média de falências é de 10 ao ano

Falta de fundos, modelo de negócio ruim e concorrentes mais fortes estão entre razões de falências.

O sucesso das fintechs já é uma realidade no Brasil e no mundo, a digitalização do mercado de finanças é irreversível. Mas transformar uma startup em um Nubank, Pic Pay ou Pag Seguro não é para qualquer um.

Segundo levantamento feito pelo portal Fincatch e obtido com exclusividade por Fintechs Brasil, mais de 50 fintechs quebraram entre 2016 e 2021. Victor Barboza, um dos sócios da Fincatch, alerta porém que o levantamento é preliminar e está sendo atualizado constantemente.

“Os dados não são públicos, é preciso garimpar, checar e rechecar”, diz. Segundo o estudo, o ano que mais teve fintech fechando as portas foi 2017. Neste ano, até agora, o levantamento identificou três: Bela Pagamentos, Smart MEI e Brazilex, mostra reportagem do Fintechs Brasil, site parceiro do Blocknews.

Os motivos

Falta de fundos, modelo de negócio ruim, concorrentes mais fortes, falta de visão sobre as dores do consumidor, desafios legais, produto ruim, falta de foco, falha ao pivotar o negócio e má gestão:, desentendimento entre sócios essas são as principais causas pelas quais as fintechs quebram. E, claro, algumas também cometem fraudes.

No mundo, a situação não é muito diferente. O site Failory identificou recentemente 13 cases de fintechs que faliram – 10 nos Estados Unidos, uma na Indonésia, uma na Holanda e uma na Índia.

“A quantidade de fintechs que abre é enorme, e das que sobrevive é muito pequena, a taxa de mortalidade é gigantesca”, diz Boanerges Ramos Freire, da Boanerges & Cia, consultoria focada em pagamentos, crédito e fidelização. Além das que quebram, ainda existem as que desaparecem do mapa engolidas pelas concorrentes.

“Não é simples viabilizar um negócio. Muitas vezes o empreendedor foca em um dos componentes apenas, a tecnologia, que é importante, a base para a transformação digital, mas não é tudo. A tecnologia em si não garante o sucesso de um negócio’, diz.

“Não é porque você tem uma tecnologia diferente que você sabe gerenciar um negócio, trazer pessoas, integrá-las, definir metas, vender, atender o cliente, desenhar e implantar essa estratégia, viabilizar o negócio financeiramente”, completa. E acrescenta que apesar de sobrar recursos para investir neste momento, o capital é seletivo. “Mais do que procurar um bom negócio, os investidores procuram pessoas, líderes com visão e competência para transformar essa visão em realidade. E a realidade é dura”.

“Há muitas coisas a serem consideradas ao construir uma nova startup – onde obter financiamento, como validar sua ideia e quais recursos oferecer. Um dos desafios é encontrar um mercado que esteja disposto a pagar por sua solução, mesmo sem saber o que é”, diz Nicolás Cerdeira, do site Failory. “Por isso que 90% das startups quebram”.

Casos suspeitos

Entre os casos de falência há muitos provocados por uso de práticas pouco ortodoxas. Uma deles é o da Bela Pagamentos. Após desentendimentos com a Stone, a Bela, startup do setor financeiro com sede em Gramado (RS), teve a falência decretada em fevereiro deste ano. Como não tinha o aval do Banco Central para processar as transações junto às bandeiras de cartões, a Bela era uma sub credenciada da Stone; os consumidores pagavam na maquininha da Bela e a Stone processava as transações.

Inicialmente, pensou-se que havia um problema no sistema, mas depois os clientes da Bela passaram a suspeitar que a startup solicitava à Stone adiantamentos dos recursos que seriam repassados aos hotéis, restaurantes e ao comércio, só que os valores não chegavam aos destinatários finais. Há dois anos, o prejuízo somava R$ 8 milhões.

Na época, a Stone disse em nota que, embora estivesse realizando os repasses aos estabelecimentos comerciais e de serviços, a dívida era de responsabilidade da empresa gramadense. Afirma ainda que repassou à startup os valores que seriam para os estabelecimentos e que, após a Bela alegar problemas de liquidez, foram identificados indícios de fraude e de incerteza de pagamento. Por isso, a empresa decidiu encerrar o contrato.

Concorrentes saem ganhando

O desaparecimento de algumas é a alegria de outros concorrentes. O fim da CobreBemX, uma solução digital para emissão de boletos é um desses casos. Já o app Zuum, parceria entra a Vivo e a Mastercard, deixou até um “heredeiro”: o Social Bank.

A Vivo encerrou as atividades de sua plataforma de pagamento – que tinha como objetivo a administração de contas digitais – no final de 2018. A Zuum oferecia a oportunidade de transferir até R$ 1 mil utilizando um aparelho atrelado a uma conta, equipado com o chip da Vivo. Um ano antes, o app empresa estava próxima de 1 milhão de clientes e almejava dobrar essa base em um ano. Na época, a Vivo enviou nota à imprensa explicando que decisão havia sido tomada devido à reorganização de suas estratégias neste setor. “Os clientes da Zuum foram devidamente informados sobre as mudanças e tiveram a opção de seguir desfrutando de um serviço similar por meio do Social Bank, empresa especializada em pagamentos com celular.”

Fundada em 1995, a CobreBemX foi comprada em 2014 pela WorldPay, que a transformou em uma fintech – seis anos depois, em dezembro do ano passado, o negócio da fintech foi encerrado.Após a aquisição, o CobreBemX passou por um reajuste retroativo no valor de suas licenças, visto que a empresa ficou alguns anos sem alterar o seu valor. Isso fez com que o custo da licença aumentasse consideravelmente, tornando inviável para algumas empresas que já utilizavam o serviço. Tecnospeed e Freenfe foram alguns dos concorrentes que passaram a disputar os clientes da CobreBem.

Fonte: Failory

Fairplace, o primeiro

Em 2010, o Fairplace, o primeiro site brasileiro de empréstimos entre pessoas, teve suas operações interrompidas devido a uma investigação da Polícia Federal, a partir de uma comunicação entre o BC e o Ministério Público Federal. Na época, a justificativa é que a empresa estaria fazendo “agiotagem online”.

Cinco anos depois desse incidente, o Banco Central regulamentou as fintechs de crédito. Essa mudança foi fundamental para dar uma maior liberdade ao mercado – agora, as startups do mercado financeiro podem conceder crédito sem a intermediação bancária.

Ou seja: hoje, o que o Fairplace fazia – também chamado de peer to peer landing – é uma das verticais das fintechs.

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