Claudia Mancini
é jornalista e cientista política, especializada em negócios, blockchain e economia digital

Febraban e bancos digitais fazem “guerra das verdades” de olho na mudança – ou não – da regulação

Febraban pressiona por mudanças na regulação que dá benefícios a membros da Zetta. Foto: Gerd Altmann, Pixabay.

Zetta , quer falar mesmo a ‘verdade’? ‘Cê não conta’ pra ninguém, mas a gente conta!” Foi assim que a Febraban (Federação Brasileira de Bancos), sempre contida em seus pronunciamentos públicos, foi às mídias sociais defender o segmento. Com isso, rebateu a críticas da associação de bancos digitais e repetiu que existe uma concorrência desleal devido a benefícios regulatórios e trabalhistas dados às fintechs.

Na semana passada, a Zetta postou uma reportagem do Valor Investe sobre um estudo do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec) sobre tarifas bancárias. De acordo com o levantamento, a maioria das tarifas avulsas dos cinco maiores bancos do país subiu mais que a inflação de junho de 2020 a julho de 2021. Mas, as dos bancos digitais ficaram inalteradas.

O cutuque tem endereço certo: o Banco Central do Brasil (BC), o regulador do mercado. Isso fica claro em trechos como “A ‘verdade’ verdadeira é que as grandes fintechs gostam mesmo é de pagar apenas ‘meia entrada’ e em nada se diferenciam dos bancos. Aliás, só não são bancos para pagar menos impostos, gerar menos empregos, ter poucas obrigações regulatórias e trabalhistas.”

A questão é que é comum os países darem benefícios às startups para facilitar a geração rápida de inovação e disrupção. E para que assim tenham mais chances de ultrapassarem a arrebentação dos primeiros anos de operação. A Febraban espera que essa regra seja revista, ao menos para os bancos digitais que mais incomodam o setor convencional, como o Nubank. O BC está avaliando.

Febraban reclama de juros e Zetta de tarifas

“Não temos vergonha de sermos bancos, muito ao contrário, e também não nos escondemos atrás de letras, marketing e grifes”, afirmou Isaac Sidney, presidente da federação, no post

A Zetta é uma associação recente de 14 fintechs que o Nubank, o Mercado Pago e o Google criaram. O Google não aparece mais na lista de associados e nem na descrição da missão da Zetta, onde se explica que apenas o Nubank e o Mercado Pago criaram a instituição.

Em outro trecho do post, a Febraban afirma que “a Zetta também não conta que as Fintechs pagam bem menos impostos que os bancos, que pagam 45% sobre lucro, sendo 25% de IR e 20% de CSLL, enquanto que as Fintechs pagam apenas 9% ou, quando muito, 15% de CSLL.”

O gancho para entrar nesse assunto foi a informação de que na página do BC há uma “verdade”. E que são “dados que mostram que “na última semana de agosto, a taxa média do juro do cartão rotativo do Nubank era de 291,67% ao ano, MAIOR que a média dos 5 grandes bancos, de 271,68%.” Maior em maiúsculas mesmo.

“No crédito pessoal não consignado, a taxa média cobrada pelo Nubank foi de 62,86% no final de agosto, enquanto a média dos 10 grandes bancos era de 54,54% ao ano e dos cinco grandes 60,65% ao ano”, completa a federação.

Nubank encostou no Itaú como primeiro banco

Dessa forma, a Febraban fez ao Nubank a mesma crítica que os bancos convencionais recebem: a de que cobram juros muito altos. E escolheu como personagem ninguém menos do que o banco digital que está à beira de fazer uma oferta inicial de ações (IPO) na Nasdaq.

A expectativa no IPO é conseguir uma avaliação de US$ 75 bilhões a US$ 100 bilhões. Esses valores equivalem a algo entre 1,5 a 2 bancos Itaú, que tem avaliação de cerca de US$ 55 bilhões.

“A Zetta não contou que o Nubank, que tem cara, porte, produtos e até nome de banco, prefere não se dizer banco, mas cobra juros mais altos dos seus clientes do que a média dos cinco ou 10 grandes bancos brasileiros. Olhe bem!”

O Nubank é a fintech que mais recebeu investimentos na América Latina e é destaque também em rankings globais. Uma pesquisa do que o JP Morgan  divulgou em fevereiro passado mostrou que o Nubank encostou no Itaú na lista do “primeiro banco” usado pelos brasileiros. O maior banco privado do país apareceu em 15,8% das respostas, enquanto a fintech, criada em 2013 apareceu em 14,9%.

Os bancos tradicionais ainda alegam que geraram 500 mil empregos no país “e têm mais exigências, ao contrário das fintechs que não precisam seguir as regras para contratação de bancários”.

Certamente a Febraban pretendia que o post repercutiria na mídia e no setor. Conseguiu. Agora, é ver se consegue convencer os reguladores sobre suas demandas.

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