Em cenário adverso, fintechs dependem de inovação e governança, dizem especialistas

Fintech Trends, em Porto Alegre.

Apesar do cenário menos frenético dos fundos de capital de risco, ainda há espaço para as fintechs obterem, apontaram especialistas durante o Fintech Trends, evento realizado pela Associação Catarinense de Tecnologia (ACATE) na última quinta-feira (11), em Florianópolis (SC). Na visão dos especialistas, o mercado agora depende de alguns aspectos, como a real entrega de soluções pelas empresas e a governança.

As fintechs lideraram a onda de aportes em startups nos últimos anos. Em 2021, ano recorde do setor, as empresas nascentes no Brasil receberam US$ 9,4 bilhões e as fintechs, US$ 3,7 bilhões, segundo o Distrito. Para Leonardo Burtet, Chief Technology Officer (CTO) da 49educação, as fintechs devem compreender qual a sua fonte de receita, por exemplo, B2B ou B2C.

“Quando eu quero, sou organizado. Muita gente não sabe o que pretende ser. O que te qualifica para fazer isso [o serviço que a empresa oferece]? Eu vejo ‘lawtech’ que não tem nenhum advogado. Se tem um ‘data home’, governança e os dados organizados, fica mais fácil [levantar capital]”, afirmou Burtet.

De acordo com ele, outro aspecto importante é entender se o fundo de venture capital com o qual a fintech busca recursos possui experiência para o tipo de produto que a companhia oferece. “Muita gente não faz isso, de entender qual fundo tem ‘fit’ com o seu negócio. Ele (o empreendedor) acredita que o seu negócio é tão bom que acha que o fundo vai deixar a tese de lado para investir na empresa. Na verdade, ele (o fundo) sabe como tracionar o negócio com aquela tese”, disse Leonardo.

Para Anderson Wustro, sócio da Questum, firma de investimentos e M&A para startups, a fonte de fato “secou”. Entretanto, o cenário adverso afeta sobretudo as empresas do late-stage, enquanto o early-stage continua captando, ainda que com volumes menores. Assim, ele entende que os empreendedores devem observar o mercado para avaliar a trajetória do negócio.

“Tem muita gente querendo fazer IPO e ser unicórnio, mas não tem espaço no mercado. Quem são os compradores que fizeram transações desse setor? Não adianta falar que eu quero vender por R$200 milhões ou R$ 300 milhões, quando o mercado faz negócios na casa dos R$ 50 milhões”, destacou Anderson.

Um ponto também a ser levado em conta pelos fundadores das fintechs é se o negócio realmente precisa de dinheiro naquele momento ou se vale esperar mais tempo para ir ao mercado. “Eu preciso captar? Para chegar aonde? Qual a minha projeção? A exceção é ter projeção; a regra é não ter. A maioria está pilotando as empresas no escuro, sem ter o que analisar”, diz o especialista.

Leonardo diz, também, que o “melhor momento de captar investimento é quando você não precisa”, porque “o poder está na sua mão”. “Se a empresa precisa de dinheiro para pagar folha ou abastecer o caixa, é muito pior.”

Governança é tema central

A governança também foi um dos assuntos centrais durante o evento. Em muitos casos, é comum que empreendedores encarem a governança como uma estrutura burocrática necessária dentro das empresas. Mas para Graciella Martignago, especialista em gestão empresarial e membra do conselho da Agência de Fomento do Estado de Santa Catarina (conhecida como Badesc), o objetivo é fornecer transparência e assimetria nas informações para os sócios.

“Se a gente olhar para startup que vai ganhando corpo, da validação à tração, até chegar na escala, com um processo de planejamento estratégico e detalhamento de resultados, a equipe vai adquirindo experiência durante o aprendizado”, afirmou Graciella. “Se isso é construído ao longo tempo, não existe essa trava de burocracia.”

Com a falta de liquidez no Brasil e no mundo, a especialista acredita que o diálogo das empresas de tecnologia com os investidores é muito mais azeitado quando esses processos estão organizados. “Na medida em que há uma estrutura de prestação de contas, facilita muito a interação com o investidor”, disse a especialista.

Na opinião de Thiago Pietschmann, líder em parcerias estratégicas da Federação Nacional de Associações dos Servidores do Banco Central (Fenasbac), mais do que impactar o funding e VCs, as fintechs podem ter mais sucesso na captação de clientes quando estão com os processos de governança mais bem definidos.

“Quando você busca clientes maiores e mais estruturados, geralmente eles são regulados pelo Banco Central ou outro órgão do sistema financeiro. Então, será necessário utilizar instrumentos para garantir a segurança das informações que o mercado também vai exigir. Por conta de um documento super simples, às vezes as empresas deixam de conseguir um contrato”, afirmou Thiago.

Segundo o membro da Fenasbac, é possível ter governança sem colocar travas no crescimento do negócio, o que vai permitir o acesso a mais dinheiro e investidores mais qualificados.

“O recurso está escasso, mas não quer dizer que não está acontecendo. Qual o diferencial das empresas que estão recebendo recursos? Com certeza não é só produto. E isso (a governança) pode ser o diferencial para obter um contrato negociado há seis meses ou um ano”, afirmou.

*Reportagem do Finsiders, site de notícias parceiro do Blocknews.

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