Clientes poderão tokenizar dados bancários para para monetização, diz presidente do Banco Central

Roberto Campos Neto, presidente do BC.

O presidente do Banco Central (BC), Roberto Campos Neto, afirmou que a monetização dos dados de quem realiza operações financeiras – algo que já está em gestão na instituição – vai acontecer transformando esses dados em tokens, com essa monetização acontecendo de forma integrada com o real digital. A informação foi dada numa entrevista ao programa “Conversa com Bial”, da Rede Globo, que foi ao ar na última segunda-feira (2).

Os dados estarão numa carteira digital, uma d-wallet, que por sua vez fará parte do “Super App” que será lançado em dois anos, segundo as previsões. “O nosso sistema de intermediação financeira está caminhando para ter um super aplicativo, então não é um aplicativo de um banco A, B ou C”, disse Campos Neto. Nele estarão todos os produtos e serviços com informações em tempo real. Isso vai permitir “a portabilidade e comparabilidade instantânea e tudo o que (o usuário) fizer vai gerar dados”.

Isso vai ser possível em boa parte por conta do Open Finance, que na quinta-feira passada (28) entrou em mais uma fase, a do Open Investment. Assim, clientes das instituições financeiras (IFs) podem compartilhar com outras os dados sobre produtos e serviços de seus investimentos. Desde o início do ano, as IFs podem divulgar informações sobre os investimentos que oferecem. E do lado do usuário, até agora só podiam compartilhar dados de produtos bancários tradicionais e fazer pagamentos e transferências entre instituições.

BC quer ampliar compartilhamento de dados

Por enquanto, o cliente só pode autorizar o compartilhamento de dados entre instituições financeiras que participam dessa modalidade no Open Finance. Mas, o BC “está trabalhando para ampliar esse escopo, tornando obrigatória a participação de instituições que são representativas no segmento de investimentos e que são autorizadas a funcionar pela autarquia”, segundo Matheus Rauber Coradin, assessor sênior do Departamento de Regulação do Sistema Financeiro BC.

Campos Neto disse que a tecnologia “é a coisa mais democratizante que existe”. O Pix, por exemplo, gerou 9 milhões de contas e cobre algumas das necessidades de quem vive em cidades sem serviços bancários. Para criar o Pix, o BC investiu entre R$ 5 milhões e R$ 10 milhões. Ao contar que o nome surgiu de uma sugestão de um funcionário do banco, falou da questão salarial do BC.

“Eu vim do mundo privado, onde trabalhei com pessoas que ganhavam bastante mais do que no mundo publico. E às vezes tenho reunião no Banco Central, em que eu vejo as pessoas e eu falo que a única diferença que tem aqui, para o lugar onde eu trabalhava no mundo privado, é que lá as pessoas ganhavam muito mais. Tem muita gente boa no Banco Central fazendo um trabalho muito bom”. Atualmente, os funcionários da instituição estão fazendo uma operação padrão por reivindicarem, entre outros pontos, melhores remunerações.

O futuro é em tecnologia e finanças

O presidente do BC disse ainda que quando deixar o cargo, provavelmente vai trabalhar com algo que envolva tecnologia e finanças, duas áreas das quais gosta “muito”. E que não vai deixar o cargo antes do final do mandato, em dezembro de 2024, nem tentar a reeleição e nem se candidatar a cargo público. Falou também que chegou ao BC já com um plano do que deveria fazer porque é metódico. O que se reflete também no hábito de alinhar as embalagens de shampoo pelos rótulos e esticar o que está amassado.

A respeito do relacionamento com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que o criticou por não baixar os juros e já se referiu a ele como “esse cidadão”, disse que o governo e o BC estão bem alinhados no objetivo, apesar de haver ideias que à vezes diferem.

“No começo tinha muita coisa na imprensa que gerava ruído. O tempo é o melhor remédio”. O relacionamento com o ministro Fernando Haddad, segundo ele, é muito bom. Na semana passada, Campos Neto se encontrou com Lula pela segunda vez. Na primeira, antes da posse, o presidente do BC disse que falou mais, na segunda, ouviu mais.

Sem camiseta verde e amarela

De acordo com ele, “o Lula gasta mais tempo prestando atenção no que você fala e tem mais paciência para as conversas. O Bolsonaro era mais rápido. Eu sempre sabia que quando tinha uma conversa com o Bolsonaro, eu tinha três minutos para falar alguma coisa. Depois dos três minutos ia ser mais difícil porque ele ficava mais disperso. Você ajusta a sua forma de comunicar conforme a pessoa”. E afirmou que o ex-presidente não interferia em seu trabalho.

Sobre votar no ano passado vestindo uma camiseta verde e amarela, o que sinalizava voto em Bolsonaro, disse que essa era uma questão privada. E que na próxima eleição, se Lula for candidato, o presidente do BC deverá votar no atual presidente. Como Campos Neto deixa o cargo em dezembro de 2024, o atual governo escolhe seu sucessor. Porém, disse que não repetiria o ato e que naquele momento “não parou para pensar” no que fez.

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