Fintech cripto BRLA quer ser porta de entrada de empresas e DeFis estrangeiros no Brasil

Leandro Noel, cofundador e CSO da BRLA. Foto: Alex Fisberg.

Foi ultrapassando crise após crise do mercado cripto desde 2022, e ainda passando por sua própria dor, que a BRLA Digital chegou ao modelo atual com foco em transferências internacionais e com a stablecoin em real BRLA. Mas, também está de olho no lançamento de mais produtos. “Queremos ser a melhor forma de uma empresa ou protocolo DeFi offshore crescer no Brasil”, captando recursos aqui, disse seu cofundador e CSO, Leandro Noel, ao Blocknews.

“Até outubro de 2023 não tínhamos investidor. Não desistimos porque repetíamos a frase ‘crypto is the way (cripto é o caminho), vai ser muito relevante'”, diz Noel. Ao falar de novos produtos, cita exemplos como pagamentos, câmbio, investimentos – como um Certificado de Depósito Bancário (CDI) onchain -, além de estar de olho no segmento de comércio exterior, fazendo liquidação de operações e entregando moeda fiat.

De acordo com Noel, a startup fechou 2023 com seis clientes e 14 se integrando à plataforma. Com isso, espera crescer o time de cinco fundadores e mais duas pessoas. Além disso, de maio a dezembro transacionou cerca de R$ 50 milhões. Disso, cerca de 65% foram reais que saíram do Brasil em BRLA para o exterior em USDT. O restante chegou como USDT e passou para BRLA. Para 2024, espera crescimento “significativo” com os novos usuários.

BRLA tem lastro em Tesouro Selic

O perfil dos clientes atuais inclui, por exemplo, uma empresa de cartões de presentes que aceita cripto na compra, empresa de comércio exterior e criador de conteúdo. São clientes que já atuam com cripto e stablecoins, o que hoje é um nicho.

A oferta de BRLA é de 1,5 milhão de tokens, que muda conforme o uso e queima deles. O lastro é em título público Tesouro Selic custodiado em banco, portanto, conservador. Para validar a proporção de tokens por reservas, houve uma auditoria da UHY Bendoraytes. A operação, segundo Noel, está em linha com o que a regulação do Brasil e o grupo já conversou com o Banco Central (BC) e a Comissão de Valores Mobiliários (CVM).

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Fundadores da BRLA Digital. Foto: BRLA.

A trajetória em cripto começou 2021, com a criação da gestora Ada Capital. A infraestrutura ficou pronta em maio de 2022, quando o mercado foi ladeira abaixo com uma série de problemas. Começou com a quebra da Terra/Luna e seguiu até o castelo de cartas da FTX se desmanchar. “Depois da FTX, começamos a olhar para stablecoins em real”, disse Noel.

Na ocasião, o mercado questionou o impacto da FTX na operação na  Brazilian Digital Token (BRZ), da Transfero. Isso porque a maior parte das transações eram na exchange americana. O então CEO da Transfero, Thiago César disse que a quebra da corretora não teria impacto porque BRZ estava em outas plataformas centralizadas e redes e que a custódia das garantias de BRZs estavam com a empresa. Ao Blocknews, a empresa disse que a operação cresceu nos últimos anos (ver reportagem no link).

Barrados no baile

“Já tínhamos ouvido falar da necessidade de real onchain e começamos a desenvolver. O foco era muito em trading e não só em operações cross border. Mas, na virada de 2022 para 2023, não era dor uma dor tão latente por conta da situação macroeconômica, juros altos e regulação (de stablecoins) no exterior. Essa tese não pegou. Foi passando o tempo, o produto amadureceu e apareceu a ideia do cross border”, conta Noel.

E novamente um obstáculo. “No começo, os investidores falaram para termos uma empresa offshore porque a regulação seria mais interessante. Mas, quando vimos os detalhes, esbarramos na conta bancária”, diz Noel. Isso envolvia questões como ter conta de não residente para receber o valor em real aqui. Fora que de seis bancos com quem conversaram, só um topou e pediu US$ 3 mil ao mês para manter a conta. “Aí vimos que tinha que ter a empresa no Brasil”.

Ao mesmo tempo, os cinco fundadores – quatro amigos do Instituto de Tecnologia Aeroespacil (ITA) e um amigo de trabalhos anteriores – viram que se tiveram esse problema, outras empresas e protocolos interessados em fazer negócios no Brasil também deveriam ter. “Aqui, provavelmente vai ter demanda de offshores porque tem fatores como a boa adoção de cripto e a agenda de tokenização do BC. Mas, se não precisa ter entidade local, vai ser mais fácil (operar)”.

A questão das operações transfronteiriças, incluindo de investimentos, são pontos que o BC abordou na primeira fase da consulta pública para regulamentação dos provedores de serviços de criptos. Além disso, outras regras, como as de câmbio, também poderão vir a mudar para se adequarem à nova realidade da existência das criptos.

Desafios da regulação e do Drex

Para a modelagem e o crescimento do negócio, a BRLA anunciou uma captação pré-seed de R$ 3 milhões no final de 2023 com a Coins liderando, e uma de R$ 1 milhão da 99 Capital em janeiro passado. Além disso, está no Programa de Aceleração Jurídica para Startups do Pinheiro Neto desde junho de 2023 por uma prazo de cinco anos (ver reportagem sobre o programa no Blocknews).

“A gente aposta não só no projeto, mas também nos fundadores. A formação deles é muito boa e têm experiencia profissional. É um projeto muito desafiador, até porque, ainda estamos passando por construção do arcabouço regulatório”, diz Tatiana Guazzelli, sócia da área Bancária, de Meio de Pagamentos e de Cripto do Pinheiro Neto.

Já que o Banco Central vai regular as empresas de criptos, está no radar da BRLA pedir licença para ser Provedora de Serviços de Ativos Digitais (Vasp). Outra ação do BC no radar é Drex. “Quando houver uma CBDC e uma economia tokenizada relevante, vai ter mais empresas tendo interface e nosso mercado cresce”, acredita Noel.

A startup também acha que pode usar o Drex como lastro. E pensa que pode pedir autorização de instituição de pagamento (IP) para se conectar à plataforma do BC do Drex e para ter acesso direto ao câmbio, conforme ficarem as regras. E assim, atuar em comércio exterior.

Mas – tem sempre um ou mais mas -, “analisando friamente, vai ter um ambiente em que companhias precisam estar no ambiente regulado no Bacen. Com o Drex, qualquer IP (instituição de pagamento) que tem serviço em blockchain se torna concorrente. Nossa vantagem é a de estar há mais tempo no mercado e ter liquidez. À medida que a BRLA crescer, vai agregar novos casos de uso para clientes do exterior. Não tem muita IP olhando isso”, completa Noel.

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