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BEE4, plataforma de tokens de ações, é mais um passo no redesenho do mercado de capitais

Patrícia Stille, CEO da BEE4. Foto: Sérgio Zacchi, divulgação.

Em cerca de 30 dias, o mercado brasileiro de capitais dará mais um passo num dos maiores redesenhos de sua história, com o chute inicial da BEE4, plataforma de tokens de ações de pequenas e médias empresas. A startup está agora fazendo testes “exaustivos”, disse ao Blocknews a CEO da startup, Patrícia Stille. A primeira operação será de tokenização e venda no mercado secundário da maior parte dos R$ 4,2 milhões de ações que a clínica de reprodução humana Engravida vendeu em 2021. Essa venda primária, para levantar recursos, aconteceu na plataforma de crowdfunding Beegin, que é sócia na BEE4.

No início, esse balcão organizado, ou seja, que negocia o que não está na B3, vai funcionar às quartas-feiras. “Quando as pessoas pensam em mercado, querem ver o jogo da negociação. Mas, se no começo deixarmos aberto todos os dias, as operações ficam afastadas. Por isso, a exemplo do início das negociações de títulos do Tesouro, as da BEE4 serão às quartas-feiras das 12h às 20h”, explicou a CEO da BEE4. Porém, será possível colocar ordens a partir das 10h, para ajudar a compor formação de preço de abertura do pregão.

A estratégia é construir liquidez no mercado secundário, por isso os preços dos tokens serão relativamente baixos, de cerca de R$ 100. A expectativa é de que em 12 meses os investidores apliquem em média R$ 2,5 mil e que haja mais de 5 mil cadastrados. Cada token equivalerá a uma ação. E haverá um controle pré-definido de volatilidade do preço, afirma Marcelo Miranda, CEO da Finchain Digital Assets, provedora da infraestrutura. Também haverá mecanismos para fazer o mercado girar, que a empresa não abre quais são.

O foco é nas empresas que faturam de R$ 10 milhões a R$ 300 milhões, portanto, as que não têm acesso à bolsa B3, que opera com empresas de grande porte. O processo de venda dos tokens começará na Beegin, com a venda de ações. Depois há a tokenização e venda secundária na BEE4, usando a blockchain Quorum. O plano é que no futuro, só vai entrar na Beegin o que será tokenizado no novo mercado de balcão. E vendido a preços mais acessíveis, porque a ideia é abrir uma nova forma de captação para pequenas e médias empresas e atrair novos investidores para esse segmento.

BEE4 inclui remodelagem da Beegin, de crowdfunding

A escolha da Engravida para ser a primeira operação foi um pedido da CVM, para que a oferta de tokens comece com uma empresa que já passou pelo crowdfunding. “No início devemos fazer emissões um pouco menores e aumentaremos ao longo do tempo”, completou Patrícia.

Em 12 meses, a BEE4 poderá fazer até 10 emissões. Em geral, as emissões no crowdfunding da Beegin são de 10% a 15% de participação nas empresas. Mas não tem regra, depende do que cada empresa precisa, afirma Patrícia. Em valor, poderão ser emissões de até R$ 100 milhões. Só que as menores do que a faixa de R$ 15 milhões não valem a pena economicamente para a plataforma. A Beegin podia fazer emissão de até R$ 15 milhões de startups com faturamento de até R$ 40 milhões.

Marcelo Miranda, que está em cripto desde 2013. Foto: Finchain.

Na semana passada, esse redesenho do mercado de capitais começou com o lançamento da Vórtx QR Tokenizadora, um mercado de balcão de tokens de títulos de renda fixa. A empresa e a BEE4 são dois dos quatro projetos aprovados no sandbox da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) no final de 2021. As duas, assim como as plataformas SMU e Bolsa OTC – essa do sandbox do Banco Central – , fazem parte de uma estratégia de refletir melhor as necessidades de captação das empresas de diversos setores e tamanhos. E podem ser opções num mercado de crédito mais receoso como o atual.

Para participar da BEE4, a Beegin também foi remodelada, com novas atribuições e compromissos com a CVM. E além dela, que é do Solum e do qual Patrícia é cofundadora – depois de passar pela XP – e da Finchain, faz parte da nova plataforma a CIP. Essa é provedora de tecnologia bancária de pagamentos e fará a liquidação dos ativos. Por meio dela, há então 34 bancos indiretamente no projeto, já que são sócios da empresa.

Blockchain para garantir que serviço não pare

A ideia da BEE4 começou no Solum e depois chegaram os parceiros. Blockchain fazia parte do projeto desde o início. “A gente espera que o processo seja auditável, imutável, que haja confiança de que ninguém vai entrar na rede e apagar uma informação. Além disso, precisa estar todo o tempo disponível. Quando se pensa na possibilidade de ter mercado secundário com essa confiança, é natural ir para esse lado da tecnologia blockchain”, afirmou ao Blocknews Marcelo Miranda.

A operação com blockchain na BEE4 vai começar com a tokenização da primeira emissão de ações e a gravação das transações na plataforma. Dessa forma, vai permitir que os nós da rede verifiquem os dados a qualquer momento, o que dá transparência à operação. “Uma vez realizada as transações, a liquidação, que é em D+1, vai para blockchain, que tranquilamente consegue segurar o volume de transações”.

Segundo Miranda, a ideia não é substituir tudo o que já existe. Até porque, nem todo mundo conhece a tecnologia e teria confiança num mercado de balcão com blockchain. O escriturador, aquele que registra as emissões em livros eletrônicos, continua a existir, por exemplo. Esse terá um papel validador e traz robustez ao projeto, controlando a titularidade das ações, diz Patrícia. Já a custódia, “morre”.

Patrícia Stille afirma que a Beegin recebeu da CVM permissão para operar como intermediária. Mas isso pode ser temporário, porque a intenção é trazer outras corretoras para o negócio para ser uma solução acessíveis aos investidores. Mas, só na BEE4 há 35 pessoas trabalhando.

Projeto usa blockchain Quorum que JP Morgan criou

A opção por Quorum se deve a fatores como o fato de ter nascido com foco em mercado financeiro, ser permissionada, mas open source. Assim, há desenvolvedores, praticamente os mesmos de Ethereum, trabalhando nas inovações e atentos para consertar problemas como lentidão, que podem afetar o púbico. Quem criou a solução foi o banco JP Morgan, que depois passou a ferramenta para a Consensys, uma das maiores especialistas em Ethereum no mundo.

De acordo com Miranda, a tecnologia para negociação ainda é offchain e aguenta milhares de transações por minuto. “Uma vez realizada as transações, a liquidação, que é em D+1, vai para blockchain, que tranquilamente consegue segurar o volume de transações”.

A Quorum pede ao menos três nós e a BEE4 está simulando a arquitetura dos nós da rede. A mantenedora da rede é a startup num primeiro momento. No entanto, a ideia é que outros participantes, à medida que entrarem na rede, também sejam nós. “As empresas estão se ambientando na infraestrutura. É um estágio em preparação”, afirmou Patrícia. Além da BEE4, um nó deverá ser a CIP e o outro um estruturador, no início. A CVM poderá ser outro, assim como os participantes que entrem no projeto.

Pela novidade da plataforma, Patrícia Stille diz ser difícil cravar quem serão os usuários investidores da BEE4. “A gente atrai investidor da B3 que olha para outros setores e nova classe de ativos”. Esse é um dos perfis. Para Marcelo Miranda, as opções na BEE4 são uma alternativa para quem já investe em crowdfunding e agora se anima com a liquidez dos tokens. E pode também ser atrativa para quem investe em cripto e gosta de ativos alternativos e da tecnologia blockchain.

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