Pool de liquidez com criptomoedas, inclusive o real tokenizado, integrado ao sistema financeiro tradicional e Pix por aproximação. Essas foram as duas soluções que o Itaú apresentou na manhã desta terça-feira (25) no Lift Lab 2023. Durante o dia todo, os participantes do programas de desenvolvimento de inovações financeiras da federação dos servidores do Banco Central (Fenasbac) e do BC estão apresentando os resultados de seus projetos. Isso inclui os testes do real digital no Lift Challenge.
Só no Lift Lab 2022 o Itaú teve dois projetos escolhidos, os desta manhã. No Challenge tem outro. De acordo com Yukiko Dias Itaú, analista sênior de estratégia e negócios digitais do banco, com o pool de liquidez, o banco queria saber se poderia usar soluções de finanças descentralizadas (DeFi) para beneficio do sistema tradicional, num modelo de negócio viável e com trocas de criptos de forma quase instantânea. E concluiu que sim nesse projeto que usa stablecoins de real e dólar, além de pode gerar investimento atrativo e permitir conectar o sistema nacional com o global de criptomoedas.
Um dos usos desse serviço é o de permitir que os clientes tenham exposição a moeda estrangeira ao trocarem uma stablecoin do real por uma lastreada em dólar e de maneira rápida e de fácil acesso. Portanto, fazer uma espécie de câmbio para investimento, mas com cripto, de maneira ágil e sem precisar deixar cédulas de dinheiro debaixo do colchão.
O liquidity pool que o Itaú testou envolve pares de stablecoin de real e a USDC e pode ser aplicado a pessoas físicas e jurídicas. Quando um usuário de cripto aporta moeda digital num pool e as deixa lá “travadas” por um tempo, gera liquidez para que outras tenham acesso às criptos. Por fazer isso, recebe uma recompensa, que é a rentabilidade.
Segundo Yukiko, a ideia do pool de liquidez é facilitar o uso desse serviço de finanças descentralizadas (DeFi) típico do segmento de criptomoedas, mas com conexões com outros tokens, como o real tokenizado, por exemplo, e com serviços como compra e venda de stablecoins.
O real tokenizado é a versão do real que os bancos poderão emitir com lastro em depósitos à vista, no projeto do real digital.. Essa é a moeda do varejo, enquanto o real digital é a do atacado. O BC quer conectar o real digital a DeFi, mas regulado. Assim, o Itaú já testou nesse caso uma função para o que deve chegar ao mercado a partir do final de 2024, previsão de lançamento da moeda digital do BC. Além do teste que fez com transferência internacional no Challenge.
O pool de liquidez é todo por meio do celular, com funcionalidades como acesso a saldo, gerenciamento das moedas, colocação e resgate de criptos na pool, além de outras “satélite” como negociação de criptomoedas. Um dos desafios do ponto de vista do negócio foi em relação à chamada “slippage”, ou derrapagem, em português, que é a diferença de preço da cripto entre o momento em que pediu a transação no pool e o momento em que foi executada. Portanto, o preço pode ser mais caro do que o esperado pelo usuário. Para isso, o Itaú “fez um cálculo inverso para o cliente nunca receber menos”.
O banco usou a Stellar para o projeto, blockchain pública que não é compatível com EVM (Ethereum Virtual Machine), “mas que tem benefícios como transações rápidas e baratas”, disse Yukiko. No final do Lift Lab, o banco usou Ethereum. “Foi um protótipo agnóstico com microoperações em blockchain para ser em qualquer tipo de rede, inclusive na Hyperledger Besu”, completou. A Besu é a que o BC escolheu para o piloto do real digital. Houve também testes ligados a segurança e combate a fraudes como lavagem de dinheiro, com processos de KYC e KYP – esse último para parceiros.
Itaú vai de testes de Pix a cripto
O outro projeto do Itaú no Lift Lab é Pix NFC QR Code Offline. Há tempos o banco defende a ideia desse tipo de pagamento, como forma de reduzir o dinheiro físico em circulação e aumentar o acesso ao Pix por quem não tem acesso frequente à internet. Isso permitiria o acesso a novos públicos e determinadas regiões, disse Bianca de Oliveira Santos, coordenadora de Estratégia e Regulatório Pix no banco.
Segundo Bianca, 1 em cada 5 pessoas no Brasil está subconectada, ou seja sem acesso diário à internet. Além disso, pagamentos por aproximação usando a tecnologia Near Field Communication (NFC) já representa 40% das transações presenciais. Além de crescer 185% de 2021 para 2022. “É realmente um formato que veio para ficar”. Essas transações, completou, levam até segundos, enquanto com QR Code levam em média 46 segundos. É uma diferença que conta quando se está numa fila de supermercado e de um evento, por exemplo, afirmou.
De acordo com Bianca, o Pix NFC e o QRC offline já estavam na agenda regulatória futura do BC. O processo de uso começa com um cliente acessando o aplicativo de sua instituição financeira (IF) para aderir ao sistema, conceder autorização para operações offline, cadastrar chaves de segurança e limite de valores que serão transacionados. Para isso, precisa estar online.
Quando precisar pagar algo, o cliente que já fez a adesão e está sem acesso à internet pode acessar o aplicativo – não precisa fazer o login, o que encurta o fluxo atual do Pix, e emite um QR Code no valor que quer pagar- ao contrário do que acontece no sistema atual, em que o recebedor é quem emite no Pix. Quando emite, o NFC é habilitado. A autenticação é por biometria do próprio aparelho.
Quem recebe o pagamento precisa estar online e acessar o aplicativo de sua IF. Daí seleciona a função recebimento e habilita o NFC para se conectar com o celular do pagador. O pagamento é pelo arranjo, como acontece com o Pix e ocorre de forma instantânea, e acontece a partir do pedido do recebedor explicou Bianca. Caso o recebedor não tenha NFC, pode ler o QR Code. A ideia, completou, é ser fácil e não demandar integração sistêmica e mais tecnologia para ter essa funcionalidade.
Esse sistema, completou, abre diversas possibilidades. Mas é preciso evolução regulatória e precisa uma padronização da criptografia de segurança no mercado para que o serviço seja fluido.