Exclusivo: BID testa nova infraestrutura blockchain para pagamentos internacionais

Imagem: Isabela kronemberger, Unsplash.

Silenciosamente em seu segundo ano, está em marcha um projeto de transformação da infraestrutura financeira da América Latina que envolve bancos centrais, inclusive o do Brasil, e comerciais. Chamado de CBWeb3, o foco é criar uma infraestrutura blockchain pública aberta, neutra e compartilhada na região, mas capaz de escalar mundialmente.

O teste atual é com pagamentos transfronteiriços no atacado, usando moedas tokenizadas dos países e a execução é do consórcio brasileiro da Águilahub-GoLedger.

Com características que até onde se sabe são únicas no mundo, como o pool de liquidez e Formadores de Mercado (MM) para definição de preços e gestão de liquidez de moedas tokenizadas da região, a iniciativa é do BID Lab, braço de inovação do Banco Interamericano de Desenvolvimento.

A coordenação é da fundação LNET, junção da LacChain, blockchain que o BID criou em 2019, e LACNet, que gerenciou a rede. Entre os parceiros estão a Linux Foundation Descentralized Trust. Outros participantes podem aplicar para participar.

O Blocknews mergulhou nessa história ao entrevistar, com exclusividade, Nayam Hanashiro, que coordena o projeto pela LNET, e Luiz Jeronymo, sócio da consultoria Águilahub. Leia abaixo os principais pontos da conversa no podcast Águila On Air:

Como nasceu o projeto

NH: Há uma necessidade reginal de avançar com o diálogo sobre tecnologia em infraestrutura publica digital, em especial de moeda digital, e é nesse contexto que nasce esse projeto. A ideia é criar uma infraestrutura para uso publico e privado. O piloto é um novo projeto que nasceu do aprendizado da LacChain. Nele, o ecossistema identificou muitas verticais, como saúde, agro, não era só finanças. Surgiram muitos projetos.

Como o consórcio entrou no projeto

LJ: Por meio de uma RFP para executar em nome da LNET. Temos uma capacidade muito interessante de negócios em mercado financeiro e em CBDC no mundo todo. Participamos do Lift Challenge (do Drex do Banco Central). Formamos um consórcio com a GoLedger para exectuar o projeto. Foi sensacional a junção da nossa expertise com o conhecimento técnico e o relacionamento no dia a dia da GoLedger com a Linux Foundation.

Porque pagamentos transfronteiriços

JL: Estamos falando de câmbio entre duas moedas e depois podem entrar outras. Estamos olhando o processo tradicional – em que bancos depositam dinheiro do pagamento no banco correspondente do beneficiários – e estamos fazendo algumas melhorias nesse processo para se tornar um processo tokenizado e interoperando as redes dos países envolvidos. Esse é o primeiro passo para aqueles países que querem experimentar a a solução utilizando um banco correspondente, mas no modo toquenizado de maneira mais rápida

Nesse primeiro processo a gente precisa ter uma taxa de conversão de moedas, então uma das maneiras é usar, por exemplo, um oráculo que te traz a informação de câmbio entre a moeda A e a moeda B. Isso é a forma como os bancos comerciais utilizam hoje. Então isso a gente tá mantendo no primeiro caso de uso.

Mas, a “cereja do bolo” do projeto e que está chamando a atenção de bancos centrais é a segunda alternativa para esse processo. Estamos experimentando uma funcionalidade que é oriunda da Web 3, que é estabelecer um pool de liquidez para moedas desses países. Inicialmente estamos olhando para um pool de liquidez entre duas moedas, de tal forma que a cotação de câmbio ela é descoberta, vamos chamar assim, a partir da liquidez que essas moedas têm dentro do pool. Por isso, quanto mais elas forem utilizadas, a paridade entre elas começa a responder a uma curva de preço. Isso vai trazer uma inovação bastante grande.

A infraestrutura?

NH: É uma L1 (camada 1). Todo mundo fala em tokenização. Mas quando se olha para toda a região, como está a agenda dos outros países? Por isso precisou de um projeto regional para avanços técnicos. A tokenização de dinheiro tem diversas formas, no caso (do projeto), é o de dinheiro publico. O foco é congregar bancos centrais e bancos comerciais.

LJ: É uma infraestrutura é Hyperledger Besu, já que a premissa do projeto é disponibilizar isso como um bem público digital e qualquer um no planeta poderá utilizar. Usamos também outras soluções da da LFDT, como Paladin, para privacidade das transações, e Cacti, para interoperabilidade entre as redes dos diferentes países. Não é uma rede única para a América Latina. São redes dentro de cada país, cada um tem sua regulação, independência e governança.

Dores que ataca

LJ: No caso de pagamentos transfronteiriços, esse é um ambiente com ineficiências que podem ser resolvidas com tokenização de dinheiro pelo Banco Central. Servem para o processo ser mais ágil, mais rápido e alocação de dinheiro para mais perto do que acontece no mercado, ao invés de alocar para esperar uma demanda futura. O mundo todo olha para isso. Alguns estão fazendo com stablecoins ou CBDCs. Temos um mecanismo que pode atender os bancos da melhor maneira possível. Um dos focos com a infraestrutura é o gerenciamento de tokenização de dinheiro de banco central, da emissão, à queima. Estamos criando algo que vai atender a região, mas que estará disponível para ser utilizado em outros lugares do mundo , mesmo com outros requisitos e modelos de negócios um pouco diferentes.

Projeto aberto

NH: O projeto foi colocado em marcha para ser inclusivo, neutro, aberto, governança compartilhada e para trazer avanços estruturais? Por isso, concebemos como um bem publico digital (DPG, na sigla em inglês). Vai ter um blueprint (plano de execução) do que chamamos de Infraestrutura Pública Digital (DPI, em inglês) para cada participante tomar uma decisão de soberania digital. Por isso, temos a assistência técnica da LFDT para criar um laboratório aberto para toda a comunidade, para abrir o código para que todos possam alavancar.

Em que fase está o CBWeb3

NH: Estamos no segundo ano. Já formamos grupos de trabalho e há mais de 12 bancos centrais da América Latina e Caribe participando, inclusive do Brasil (NR: Não foram informados quais são todos os participantes), o que significa a maioria do PIB da região. Há também participantes do setor privado. Articulamos para garantir o máximo de adesão. Definimos o caso de uso e terminamos a arquitetura de referência. Nos próximos meses começamos a execução técnica do piloto com todos os participantes. Há ângulos técnicos muito interessantes e haverá desdobramentos regulatórios e de soberania monetária. A primeira fase vai até o final deste ano. A seguinte depende muito dos testes.

Não é moeda única

NH: Não, não tem nada a ver. Parte da ineficiência também é a questão de liquidez de moedas não conversíveis da região. Propomos a experimentação de uma forma diferente de gerenciar a liquidez desses pareso trabalhando para dar o preço e descobrir o preço.  Então, ideia do projeto escolher duas abordagens, uma conservadora trazendo eficiência, com um banco correspondente onchain e a outra mais de fronteira, utilizando conceitos bem avançados de Web 3 e de formadores de mercado (MM). Estamos aqui para testar a fronteira de como isso é possível e instigar principalmente o diálogo, porque a tokenização vai acontecer “sim ou sim”. A LNET é fundamental. Se você não põe essas regras, você vai ter que seguir as regras de outro lugar. Então, há uma questão existencial aqui,

LJ: Moeda única e stablecoin não fazem parte do escopo desse projeto, mas a estamos criando um DPG, que vai poder ser replicado em qualquer outro lugar do planeta. Nada impede que alguma outra região decida utilizar esse projeto com uma moeda única ou stablecoin. O código está lá, ou seja, pode ser adaptado com as necessidades que outras geografias apresentarem no futuro.

Interoperabilidade e soberania

LJ: Estamos propondo que os bancos centrais tenham suas próprias redes e emitam a moeda tokenizada do BC na sua rede, salvaguardando sua jurisdição e a regulação do país. Moeda única impactaria a evolução do projeto por questões regulatórias. Para a interoperabilidade entre as redes, precisa ter uma orquestração de processos de tal sorte que a transação que está ocorrendo num país esteja travada, vamos chamar assim, com a transação que vai acontecer no destino, para uma liquidação atômica entre essas duas redes. Esse é um desafio técnico, porque quando a gente fala de blockchain, as coisas dentro da mesma rede são feitas de uma maneira bastante segura. Mas quando falamos de duas redes, precisamos ter mecanismos de trava. Esse é um ponto bastante importante e um desafio que muitos estão procurando.

NH: Na questão de privacidade, desde o começo alavancamos experiências inclusive aqui do Brasil (NR: um dos motivos de o Drex ser suspenso com blockchain foi essa questão). A diferença da abordagem é que vamos tentar cumprir os requisitos do caso de uso e não para qualquer uso. É um projeto bem diferente do Drex, mas usamos aprendizados dele, do qual participarmos. A capacidade de execução é distinta porque é regional e a duração é muito menor.

Veja o podcast completeo sobre o projeto no canal da Águilahub no YouTube.

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